Apesar de ter sido condenado por envolvimento com o “Estado Islâmico” e ser considerado perigoso, suspeito de ataque à Parada LGBTQ+ estava solto. Políticos criticam decisões da Justiça.
Por Redação, com DW – de Berlim
Berlim permanece em luto nesta semana após o ataque terrorista ocorrido durante a Marcha do Orgulho LGBTQ+ da cidade, enquanto crescem na Alemanha questionamentos sobre eventuais falhas da Justiça e de mecanismos vigilância envolvendo o homem suspeito pelo atentado, que já tinha sido condenado por vínculos com o grupo “Estado Islâmico” (EI), mas aguardava o julgamento de um recurso em liberdade.

Abdul B., um cidadão alemão de origem libanesa de 21 anos, foi morto após uma operação de busca que durou quase 24 horas, iniciada depois do ataque ocorrido na noite de sábado no centro de Berlim.
Abdul B. foi apontado como o homem que avançou com um veículo contra uma multidão perto da parada do orgulho, no que as autoridades acreditam ter sido um ataque terrorista com motivação extremista. Uma mulher morreu no ataque.
O prefeito de Berlim, Kai Wegner, informou que ela era uma cidadã polonesa que estava na cidade com a filha. Vinte e nove pessoas ficaram feridas.
Abdul B. estava em liberdade desde meados de maio deste ano. Autoridades o consideravam uma ameaça de alto risco, e chegaram a monitorar seu telefone por um período e instalar uma câmera de vigilância em frente ao prédio onde ele vivia. A mesma câmera registrou a saída dele às 20h58 do sábado, momentos antes do crime.
Autoridades
O chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, questionou na segunda-feira como o ataque poderia ter sido evitado. “Devemos fazer todo o possível para proteger as pessoas na Alemanha, da melhor maneira possível, contra tais criminosos — contra indivíduos perigosos que, por qualquer motivo, não podem ser mantidos sob custódia”, disse Merz.
Abdul B., nascido na Alemanha, viajou para o Líbano em 2025 com o objetivo de ir à Síria para se juntar ao grupo “Estado Islâmico”, segundo promotores de Berlim. Na ocasião, ele entrou em contato com alguns supostos membros do grupo — ou pessoas que ele acreditava serem membros.
Ele acabou sendo preso no Líbano e condenado por um tribunal militar local a três meses de prisão por incitação a conflitos religiosos e sectários. Após cumprir a pena, retornou à Alemanha, onde foi novamente preso ao desembarcar.
Em maio, um tribunal que lida com casos de jovens infratores de Berlim condenou Abdul B. pelos crimes de planejamento de um ato grave de violência e ameaça ao Estado, bem como por publicação de propaganda do “Estado Islâmico” em sua conta no Instagram, entre outras acusações.
Ele acabou sendo condenado a um ano e 10 meses de detenção juvenil. Promotores de Berlim recorreram da decisão. Na Alemanha, suspeitos com idade entre 18 e 21 anos podem ser processados pelo sistema de justiça voltado para jovens infratores, dependendo do caso.
Autoridades chegaram a afirmar que Abdul B. teve a pena suspensa. A Justiça de Berlim, no entanto, apontou que a pena não havia sido suspensa, mas que ainda havia uma avaliação em curso se isso deveria ocorrer. Segundo o tribunal, ele foi solto porque a prisão preventiva expirou, por já não preencher os requisitos legais relativos a risco de fuga, reincidência e outros fatores.
Críticas
Algumas autoridades alemãs questionaram a decisão do tribunal e prometeram investigar como Abdul B. acabou em liberdade e se o sistema de sentenças para jovens infratores — apontado como excessivamente brando por críticos — precisa ser reformado.
O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, disse em entrevista à emissora pública ZDF que, considerando a condenação de Abdul B. e seu histórico de apoio ao grupo “Estado Islâmico”, não fazia sentido ele estar solto.
– Pode-se presumir que certamente teria feito sentido manter essa pessoa sob custódia – afirmou ele. Dobrindt também afirmou que aplicar a legislação penal juvenil a adultos que representam ameaças à segurança era “inaceitável”.
Dobrindt ainda disse que pretende atuar para mudar essa situação e implementar medidas para permitir que as autoridades coloquem tornozeleiras eletrônicas em indivíduos perigosos.
Durante uma entrevista à emissora regional RBB, o prefeito de Berlim disse que não queria questionar a independência do sistema judiciário, mas que, neste caso, “faltam-me palavras”.
Por sua vez, Marc Henrichmann, deputado conservador e presidente da comissão parlamentar que supervisiona as agências de inteligência, afirmou que medidas mais rigorosas são necessárias para lidar com casos como esse.
– Não se deve dar peso excessivo às liberdades de extremistas e islamistas, especialmente quando vidas humanas estão em risco – disse ele ao jornal Handelsblatt.
Dirk Peglow, chefe da associação de policiais da Alemanha, também criticou o que chamou de leniência do sistema judiciário em relação a Abdul B.
– No caso de indivíduos que representam tal ameaça, o fim da detenção não deve significar o fim da supervisão estatal – declarou ele.
Enquanto isso, Joachim Herrmann, secretário do Interior do estado da Baviera, classificou como “catastrófica” a decisão de suspender a pena de Abdul B.
– Os juízes que precisam tomar tais decisões devem estar cientes da responsabilidade que têm pela segurança das pessoas – disse ele.
Suspeito
A Justiça alemão também havia determinado que Abdul B. participasse de um programa de desradicalização para infratores de alto risco. Ele foi avaliado duas vezes pela Rede de Prevenção à Violência, sediada em Berlim, que trabalha com pessoas em risco de envolvimento com o extremismo de direita e o islamismo radical. A organização define a desradicalização como um processo pelo qual uma pessoa se desvincula com sucesso de uma ideologia extremista e se afasta da violência.
Abdul B. tinha uma reunião agendada com a equipe para sua terceira e última avaliação na segunda-feira, segundo Cornelia Lotthammer, diretora de relações públicas da organização não governamental.
A equipe pretendia informar ao tribunal que Abdul B. não era um candidato adequado para o programa, pois ele tentava se apresentar como uma pessoa amigável e não extremista, alegando, portanto, não precisar de desradicalização.
– Normalmente, pessoas de alto risco estão muito convictas de si mesmas e de sua ideologia, e elas a propagam durante essas sessões – disse Lotthammer. “E, então, é mais fácil trabalhar com elas. Este não era um caso típico.” Abdul B. parecia tentar antecipar o que a equipe queria ouvir, disse ela.
– Todos sabiam que ele era uma pessoa de alto risco – afirmou Lotthammer. “Mas, ainda assim, se ele não colabora com nossos colegas, não podemos fazer nada.” Ela acrescentou: “Mas ninguém teria dito: ‘Ele não é uma ameaça, simplesmente deixem-no ir’.”
Abdul B. também não parecia estar planejando nenhum ataque, disse Lotthammer. Se a equipe tivesse qualquer indício em contrário, teria acionado as autoridades policiais. Ela não quis comentar se a organização acreditava que Abdul B. deveria ter sido libertado da detenção, afirmando que essa é uma decisão que cabia à Justiça.
O serviço de inteligência interna da Alemanha afirmou, em seu relatório anual de 2025, que o país enfrenta uma ameaça radical islâmica crescente, com 28.645 indivíduos identificados como islamistas, dos quais 9.110 são considerados potencialmente violentos.