Após duras críticas pelo protesto público na Copa do Qatar, é improvável que a seleção alemã faça o mesmo nos Estados Unidos.
Por Redação, com DW – de Berlim
O diretor esportivo da seleção alemã de futebol, Rudi Völler, enfatizou recentemente, num programa de debates esportivos na TV, que “não haverá nenhuma ordem de silêncio” aos jogadores alemães durante a próxima Copa do Mundo, mas que ele espera que não se repita uma situação, “como nesse dito desastre da braçadeira no Catar”, em que haja “discussões ainda no dia do jogo”.

Völler se referia à polêmica da braçadeira contra homofobia One Love no Qatar, que a Alemanha – e várias outras nações – abandonaram rapidamente após a Fifa ameaçar com sanções. Em resposta à ameaça da Fifa, os jogadores alemães protestaram antes da partida contra o Japão posando para a foto oficial com a mão cobrindo a boca.
A Alemanha foi muito criticada pelos torcedores por seu gesto no Qatar, mas o professor de política esportiva Jürgen Mittag, da Universidade Alemã de Esportes de Colônia, avalia que, se a equipe tivesse chegado às quartas de final, as coisas poderiam ter sido diferentes. “Mas, do jeito que foi, eles foram muito ridicularizados por se mostrarem fortes simbolicamente, mas fracos esportivamente”, diz.
Posição enfraquecida
A esperança dos torcedores é que na Copa do Mundo deste ano – sediada por EUA, México e Canadá – a Alemanha tenha um desempenho melhor em campo, mas o que isso significa para sua posição fora dele?
O professor de ciências sociais no esporte Michael Mutz, da Universidade Justus-Liebig de Giessen, duvida que sejam feitas declarações políticas. “Não consigo imaginar que a Federação Alemã de Futebol (DFB) vá buscar ativamente uma agenda política contra o país anfitrião novamente após as experiências negativas no Catar”, avalia.
Rudi Völler diz que não haverá nenhuma ordem de silêncio aos jogadores alemães, mas não quer discussões ainda no dia do jogoFoto: Rolf Vennenbernd/dpa/picture alliance
Ele avalia que a DFB sofrerá acusações de dois pesos e duas medidas por ter criticado duramente a situação no Catar e presumivelmente permanecer em silêncio sobre os EUA. “Mas a federação terá que conviver com isso.”
Já Mittag diz que a posição da Alemanha está enfraquecida pelos frequentes desentendimentos entre a União Europeia e o presidente dos EUA, Donald Trump.
– A democracia europeia também está sofrendo um pouco. Está se tornando cada vez mais fragmentada e, portanto, um pouco menos capaz de atuar na política externa. Isso se aplica ao panorama geral, assim como à esfera interna do futebol e outras questões relacionadas ao esporte – diz Mittag.
– A Alemanha tem sido muito proativa na diplomacia esportiva nos últimos anos, mas também constatou que, embora desempenhe um papel de destaque, não recebe muito apoio – acrescenta.
Mittag dá como exemplo a posição da Alemanha em relação ao retorno da Rússia e de Belarus aos Jogos Olímpicos. A Alemanha se opôs veementemente a isso e tentou forjar uma aliança forte, mas obteve pouco apoio. Mittag avalia que isso forçou os alemães a reconsiderarem sua abordagem.
– Foi aí que a Alemanha percebeu que precisava seguir uma estratégia diferente. O país não quer abrir mão de sua posição, mas dar muita ênfase a questões morais e baseadas em valores é estrategicamente uma tolice. No fim das contas, isso não leva ao sucesso e, além disso, você ainda tem que lidar com desprezo ou schadenfreude quando tem um desempenho ruim no esporte – explicou Mittag.
Mudança na diplomacia esportiva
Andreas Rettig, um executivo do esporte que trabalhou no St. Pauli, em Hamburgo, foi nomeado o novo CEO da DFB em 2023 e pode ser a pessoa ideal para forjar novas alianças e posicionar melhor a Alemanha em comitês.
Mas ele logo enfrentou desafios. A sua proposta de iniciar um diálogo sobre questões críticas antes da Eurocopa de 2024 não foi recebida com muito entusiasmo pelas associações regionais.
– Houve uma mudança a favor de mais realpolitik na diplomacia esportiva, que está um pouco menos baseada em valores, um pouco mais realista e agindo de forma pragmática para tentar alcançar mais sucesso do que no passado – acrescenta Mittag.
Audiência pode cair
Como a audiência na Alemanha caiu durante a Copa do Mundo no Qatar, não seria surpresa se houvesse uma nova queda, principalmente devido aos horários inconvenientes para os telespectadores europeus. “Acredito que não veremos os mesmos números de audiência de Copas do Mundo anteriores”, diz Mittag.
– Eu diria que o comportamento da mídia e das transmissões também refletirá o fato de que muitas pessoas dirão: ‘Estou ciente desta Copa do Mundo, mas não vou assistir a tudo. Não estou tão entusiasmado quanto nos anos anteriores e, de certa forma, estou expressando minha crítica’.
O que é certo é que, no momento em que a Alemanha pisar em solo norte-americano, jogadores e comissão técnica terão que responder a perguntas sobre disputar um torneio no atual clima político e social dos Estados Unidos sob o presidente Donald Trump. A força de persuasão de suas respostas dependerá de muitos fatores, mas talvez, acima de tudo, de seu desempenho em campo.
– O fator decisivo para a identificação dos alemães com a sua seleção não é tanto a situação política, mas o fato de a equipe ser percebida como uma simpática, acessível e vitoriosa – opina Mutz.
Como a própria DFB destaca, a seleção alemã pode ser um importante fator de integração social, identificação e sensação de pertencimento à sociedade. “Mas a capacidade do futebol de unir pessoas muito diferentes entre si fica enfraquecida quando a seleção alemã é percebida como excessivamente política.”