A onda de violência na França resultou em prisões enquadradas como crime organizado, manifestantes gravemente feridos e a destruição da prefeitura histórica de Limoges.
Por Redação, com RFI – de Paris
A onda de violência que acompanhou as manifestações contra o alto custo de vida no último sábado deixou um saldo crescente de prisões, feridos e prejuízos econômicos, enquanto o governo francês tenta conter a crise e recuperar o controle da situação. O ministro da Justiça Gérald Darmanin informou nesta terça-feira que 123 pessoas já foram presas desde o início dos distúrbios.

O governo determinou que os casos de detenção sejam enquadrados, quando cabível, como criminalidade organizada, medida que permite ampliar de 48 para 72 horas o período de custódia policial.
A investigação sobre o incêndio da parte histórica da prefeitura de Limoges, no centro-oeste do país, também ganhou uma dimensão maior. A Subdireção Antiterrorista (SDAT) foi acionada, e um homem de 40 anos foi detido nesta terça-feira nas proximidades da cidade.
Segundo uma fonte próxima ao caso, ele é conhecido por sua ligação com a ultraesquerda, por atos de violência contra agentes públicos e está fichado como indivíduo considerado potencialmente ameaçador à segurança do Estado.
O incêndio destruiu quase completamente o interior da parte histórica da prefeitura, inaugurada em 1883. O telhado e o campanário desabaram, enquanto os bombeiros conseguiram preservar apenas a parte moderna do edifício.
Feridos
Os confrontos também deixaram manifestantes gravemente feridos. Em Mulhouse, uma jovem de 17 anos perdeu um olho. Em Saint-Étienne, outro jovem de 17 anos teve a mão amputada pela explosão de uma granada. O advogado do rapaz anunciou uma denúncia contra o autor do disparo e contra o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
O próprio Nuñez reconheceu uma “perda de controle” em algumas cidades e apresentou sua renúncia no domingo, mas o presidente Emmanuel Macron recusou o pedido.
Prejuízo
O impacto econômico é igualmente significativo. Segundo o governo, pelo menos 3 mil estabelecimentos comerciais foram atingidos por depredações ou saques. O Executivo anunciou medidas de apoio aos comerciantes e artesãos diretamente afetados, incluindo a adoção de medidas de desemprego parcial e a criação de um fundo específico de apoio.
Patrick Martin, presidente do Medef, principal organização patronal da França, acusou o Estado de ter sido “falho” na proteção dos estabelecimentos durante os distúrbios.
A crise também começou a repercutir nos mercados financeiros. A Bolsa de Paris recuava 0,52% nesta terça-feira, depois de uma queda de 1,11% na segunda-feira. O rendimento dos títulos franceses de dez anos permanecia próximo de 4,92%, depois de atingir, na véspera, o maior nível de fechamento desde 2002.
O diferencial entre os juros franceses e alemães, um indicador da percepção de risco sobre a dívida francesa, permanecia próximo de 1,48 ponto percentual, perto do maior nível desde o início de 2012.
Para analistas citados pela AFP, os episódios de violência recolocaram a questão social no centro das preocupações dos investidores, em um momento em que o governo precisa, simultaneamente, responder às reivindicações sociais e controlar o déficit público.
Crise
A agência de classificação de risco Moody’s deve divulgar na sexta-feira sua avaliação da nota de crédito da França, acrescentando um novo elemento de pressão sobre o governo.
No mercado acionário, os bancos continuavam em queda, com BNP Paribas recuando 1,11%, Société Générale, 1,32%, e Crédit Agricole, 0,78%. Entre as empresas de tecnologia, STMicroelectronics caía 3,08% e Soitec, 5,02%.
A Schneider Electric também sofria forte queda, de 3,46%, depois de anunciar a venda de 25 milhões de novas ações a investidores por 240 euros cada. A operação levantou € 6 bilhões para ajudar a financiar a aquisição da americana PTC, fabricante de softwares industriais.
O episódio evidencia que as consequências da crise ultrapassam a segurança pública: além das centenas de pessoas detidas e dos manifestantes gravemente feridos, os distúrbios atingiram diretamente milhares de empresas e passaram a alimentar as preocupações dos mercados sobre a situação econômica e fiscal da França.