Dos quadrinhos da Disney às teorias de Gramsci, a reflexão expõe como violência, poder e crime organizado se entrelaçam na disputa pela hegemonia.
Por Frederico Ileck – de São Paulo
Em 1984, eu estudava no Colégio Cidade, em Santos. Era o terceiro ano primário, numa escola já frequentada pela elite da Baixada Santista. Entrei lá sobretudo por causa da minha mãe, que dizia que aquela era uma das melhores instituições da região.

Na primeira semana, dei de cara com um garoto bem maior que a gente. Tinha 14 anos e era, segundo os meninos mais velhos, “um dos Irmãos Metralha”. Isso mesmo: existiam, de verdade, figuras que a gente associava imediatamente aos personagens dos quadrinhos. Todos na classe tinham medo dele.
“Mexe com esse cara e os irmãos dele aparecem aqui”, comentava qualquer um que ousasse provocar.
Ele fazia de nós gato e sapato. Minha mãe acabou sabendo, por causa de alguns vizinhos, da má reputação da escola, e nos retirou dali. Mesmo assim, aquele sujeito ficou na minha cabeça. Quem era ele — e quem eram os “irmãos”? Bandidos profissionais? Batedores de carteira? No fundo, eram uma espécie de lenda urbana infantil: causadores de confusão no bairro do BNH. Nada além disso.
Essa memória voltou à tona quando escrevi, semanas atrás, sobre o Tio Patinhas e o Pato Donald. Do cofre e do proletário. Da acumulação e da precariedade. E então percebi que faltava algo essencial: quem protege o cofre quando o consenso não é suficiente? Quem bate à porta quando a ideologia falha?
Faltava falar dos Irmãos Metralha.
E do Bafo de Onça, claro.
O bando e o brutamontes.
Os Irmãos Metralha são uma quadrilha. Numerados, intercambiáveis, sem projeto político, sem ideologia declarada — querem apenas o cofre do Patinhas. São o crime organizado em sua forma mais nua: associação para o saque, hierarquia interna, reincidência permanente. A cadeia não os corrige porque a cadeia nunca foi feita para corrigir. Foi feita para conter. E eles sempre voltam.
Pete — o Bafo de Onça — é diferente. Pete não quer o cofre. Pete quer impor. É o brutamontes a serviço da ordem estabelecida, o capanga que aparece quando o argumento acaba e o cassetete começa. Não pensa muito. Não precisa. Sua função é simples: fazer valer, pela força, aquilo que não se sustenta apenas pela persuasão. Um miliciano típico, não acham?
Dois personagens. Duas funções distintas dentro da mesma máquina.
Gramsci
Antonio Gramsci distinguiu, com precisão cirúrgica, os dois instrumentos pelos quais uma classe dominante mantém seu poder: consenso e coerção. A hegemonia — conceito que parece abstrato, mas é brutalmente concreto — é justamente a combinação dos dois.
Governa-se primeiro pela cabeça: escola, mídia, cultura, entretenimento, os próprios quadrinhos da Disney. Mas, quando a cabeça não basta, governa-se pelo corpo. Pelo cassetete. Pelo fuzil.
O Patinhas opera no campo do consenso. É admirado, aspiracional, quase simpático. Você não odeia o Patinhas — você quer ser ele.
Os Irmãos Metralha e o Bafo de Onça operam no campo da coerção. E aqui está o ponto que Gramsci não deixaria passar: embora pareçam inimigos do Patinhas, ajudam a sustentá-lo. Sem ameaça, não há necessidade de proteção. Sem desordem, não há justificativa para a ordem.
No Brasil contemporâneo, essa engrenagem deixou de ser metáfora.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) deixaram há muito de ser apenas quadrilhas. Tornaram-se estruturas complexas, com presença territorial, disciplina interna, redes financeiras e — crucialmente — conexões difusas com o mundo político e institucional. Não se trata apenas de corrupção episódica, mas de zonas de interpenetração: financiamento indireto, acordos tácitos, controle eleitoral em determinadas regiões, influência sobre políticas de segurança.
Quando, recentemente, os Estados Unidos passaram a classificar essas organizações como entidades terroristas transnacionais, o gesto não foi apenas retórico. Foi o reconhecimento de que esses grupos já operam para além do crime comum: exercem poder, controlam territórios, impõem normas, negociam com o Estado — e, em certos contextos, substituem-no.
Oppenheimer
Em Urban Guerrilla, de 1969, Martin Oppenheimer propôs uma distinção que continua urgente: entre grupos armados com projeto político — que usam a violência como instrumento dentro de uma estratégia de transformação estrutural — e grupos armados sem projeto, que usam a violência como fim em si mesmo, como administração de mercados paralelos dentro da ordem existente, sem nenhuma intenção de mudá-la.
Os Irmãos Metralha pertencem ao segundo tipo. Assaltam o cofre não para transformá-lo, mas para possuí-lo. Não questionam a estrutura — querem apenas inverter posições. São, no fundo, capitalistas frustrados.
Na tradição marxista, isso tem nome: lumpemproletariado. Uma fração social descolada da produção, cuja revolta é real, mas cuja direção é instável — frequentemente capturada por forças reacionárias ou instrumentalizada por projetos de poder que jamais a incluirão.
O PCC e o Comando Vermelho possuem racionalidade organizativa que os Metralha dos quadrinhos nunca tiveram. Mas isso não os transforma em sujeitos emancipatórios. Aplicando a lente de Oppenheimer: são guerrilha urbana sem causa, violência sem horizonte. Administram a ilegalidade com eficiência crescente — mas dentro da mesma lógica que diz que o cofre deve existir e que quem chegar primeiro fica com o ouro.
A estrutura permanece intocada. Só muda o nome na porta.
A militarização e seus perigos.
É precisamente aqui que Gramsci retorna, mais sombrio.
Quando crime organizado, aparato estatal e representação política começam a se tocar — ainda que indiretamente —, cria-se uma zona cinzenta onde a distinção entre ordem e desordem perde nitidez. O Bafo de Onça para de ser coadjuvante. O inimigo deixa de estar fora. Passa a ser funcional.
Gramsci chamaria isso de crise orgânica: o momento em que a hegemonia pelo consenso falhou e a coerção precisa aparecer sem disfarce. O Brasil conheceu isso na ditadura. Conheceu nas milícias — formas híbridas de crime e Estado, com farda, mandato e legitimidade parcial. E conheceu novamente nos episódios de mobilização política violenta recentes, em que massas foram instrumentalizadas como força de choque por quem nunca pretendeu dividi o cofre com elas.
A militarização não começa com o tiro. Começa com a linguagem. Quando tudo vira guerra, tudo autoriza soldados.
E a Disney, com sua inocência calculada, já ensinava isso há décadas: o crime é eterno, os vilões retornam, a solução nunca é estrutural — é sempre a restauração da ordem pela força. Nunca a pergunta de por que há tantos dispostos a assaltar quando existem tão poucos donos de cofre.
Guerra de posição ou guerra de manobra?
Gramsci distingue ainda duas estratégias.
A guerra de manobra é o ataque frontal: insurreição, golpe, ruptura imediata. É o método dos Irmãos Metralha — e de todos que acreditam que o poder está apenas no cofre e que basta tomá-lo.
A guerra de posição é outra coisa: lenta, capilar, paciente. Disputa cultural, construção de hegemonia alternativa, transformação do senso comum antes de disputar o poder formal.
Os Metralha fracassam porque escolhem a primeira sem jamais entender a segunda. Enquanto isso, setores da direita compreenderam — intuitivamente ou não — a importância da guerra de posição: ocuparam igrejas, mídias, plataformas digitais, afetos cotidianos. E, quando julgaram oportuno, tentaram a manobra. Não funcionou plenamente — mas deixou marcas profundas.
A esquerda ainda oscila entre a nostalgia da manobra e a dificuldade de sustentar posição.
O cofre não se toma de assalto. Ele se dissolve quando deixa de fazer sentido.
O fim do episódio
Nos quadrinhos, tudo se resolve: os Irmãos Metralha voltam à cadeia, o Bafo de Onça é derrotado, o cofre permanece intacto. A ordem é restaurada. As crianças dormem tranquilas.
Mas fora da ficção, a ordem nunca é neutra. É sempre a ordem de alguém.
E os Irmãos Metralha reais — jovens sem horizonte recrutados pelo crime, trabalhadores precarizados capturados por discursos autoritários, populações inteiras submetidas a poderes paralelos — continuam disponíveis para o próximo episódio. Agora com um detalhe novo: alguns já não estão apenas à margem. Estão conectados, direta ou indiretamente, a estruturas de poder que deveriam combatê-los.
O menino de 14 anos que me aterrorizava em Santos em 1984 era uma lenda de bairro. Inofensivo, no fundo.
Os seus sucessores de hoje têm território, têm arma, têm algoritmo — e às vezes têm mandato.
A questão não é derrotá-los num episódio.
A questão é entender quem construiu o cofre, quem lucra com a desordem que o cerca — e por que o Donald, que trabalhou a vida inteira, ainda mal paga o aluguel.
Frederico Ileck, é membro do conselho da Federatie Nederlandse Vakbeweging (FNV) e da Socialistische Partij (SP), e colaborador do Portal Vermelho e outras publicações do campo da esquerda.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil