Rio de Janeiro, 31 de Julho de 2026

Tempestades expõem falhas diante de eventos extremos

Para especialistas em clima e meio ambiente, o fenômeno expôs, mais uma vez, que as cidades brasileiras não estão preparadas para lidar com eventos climáticos extremos.

Sexta, 31 de Julho de 2026 às 09:53, por: CdB

Para especialistas em clima e meio ambiente, o fenômeno expôs, mais uma vez, que as cidades brasileiras não estão preparadas para lidar com eventos climáticos extremos.

Por Redação, com ABr – do Rio de Janeiro

Nos últimos dias, ventos acima de 100 quilômetros por hora (km/h) provocaram mortes e transtornos generalizados nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Para especialistas, vulnerabilidade das cidades preocupa com El Niño

Para especialistas em clima e meio ambiente, o fenômeno expôs, mais uma vez, que as cidades brasileiras não estão preparadas para lidar com eventos climáticos extremos.

A preocupação é ainda maior com a previsão de que, ao longo do segundo semestre deste ano, o país sofra com impactos de intensidade moderada a muito forte por causa do fenômeno El Niño.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão inclui chuvas excessivas, secas severas e ondas de calor, a depender da região.

Para o professor de Ciências Ambientais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Pedro Torres, a gestão das cidades é apenas reativa diante dos fenômenos extremos e ignora riscos futuros.

O pesquisador também integra o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), principal órgão científico global da Organização das Nações Unidas (ONU).

– Se entendemos que estamos vivendo uma emergência climática, as ações para a adaptação precisam também entrar nessa seara da emergência. Eventos extremos vão acontecer cada vez mais e com mais intensidade. Não se trata apenas de ter um melhor alerta. O desafio agora é construir cidades mais resilientes.

Etapas

O porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, diz que a gestão de riscos precisa considerar três etapas complementares para ser eficiente.

Não basta a previsão meteorológica e a emissão de alertas, se as cidades não tiverem estruturas adaptadas para lidar com o problema quando ele acontece.

– A maior atenção tem que ser dada em como a cidade está sendo pensada para proteger as pessoas. Eventos extremos serão o nosso normal a partir de agora – diz Rodrigo.

– A gente precisa priorizar a prevenção e o pós-desastre justamente para, quando a emergência chegar, não ficar perdido tentando saber o que fazer.

Alertas

No Rio de Janeiro, os alertas sobre ventos fortes foram emitidos pouco tempo antes do início do fenômeno na quarta-feira. O que levantou questionamentos sobre a eficácia do monitoramento meteorológico e da comunicação à população.

Segundo o Centro de Operações da Prefeitura do Rio (COR-Rio), o Sistema Alerta Rio emitiu um aviso meteorológico às 14h15 com informações sobre a possibilidade de rajadas atingirem a cidade do Rio a partir da tarde.

“A partir do momento em que foram identificadas rajadas intensas de vento, os avisos foram emitidos via SMS e WhatsApp para todos os moradores cadastrados no Sistema de Avisos”, diz a nota do COR-Rio.

Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Civil (Sedec-RJ), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden-RJ) emitiu alerta às 15h30 sobre a possibilidade de rajadas de vento moderados ou fortes nas regiões Costa Verde, Sul Fluminense, Baixada Fluminense, Metropolitana, Baixadas Litorâneas e Norte Fluminense.

“Quarenta e quatro prefeituras têm autonomia para emitir as mensagens via SMS diretamente à população. Os demais [48] são cobertos pelos serviços da Sedec-RJ, que efetua o envio dos avisos dentro dos protocolos estabelecidos pelo Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil”, diz a nota da Sedec-RJ.

Segundo o especialista do Greenpeace, Rodrigo Jesus, a ventania que atingiu o Rio de Janeiro pode ser considerada um fenômeno de evolução rápida, que traz alguma margem de incerteza para a meteorologia.

Porém, a pergunta central não deve ser se a previsão acertou a velocidade exata do vento, mas sim se a cidade conseguiu responder rapidamente e proteger a população diante de um evento grave.

– A imprevisibilidade meteorológica não deve ser justificativa para que a gente não tenha uma cidade preparada. O limite não é da tecnologia, o limite é justamente da política pública e dos gestores públicos – analisa Rodrigo.

Adaptação

Além das mortes, os transtornos da ventania no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul envolveram quedas de árvores, apagões de energia para milhares de pessoas e paralisação no transporte público.

Para o especialista do Greenpeace, estes problemas que poderiam ser evitados com um planejamento adequado. Entre as medidas apontadas estão o manejo preventivo da arborização urbana, a modernização da rede elétrica, a atualização dos mapas de risco, a revisão dos planos de adaptação climática e a incorporação do risco climático em projetos de infraestrutura.

– Todos os projetos aprovados pelas secretarias de obras deveriam passar por uma avaliação sobre como aquela intervenção contribui para proteger a população diante das mudanças climáticas – defende Rodrigo.

Ele também entende que concessionárias privadas responsáveis por serviços públicos, como energia elétrica, precisam apresentar planos de gestão de risco.

– A prefeitura precisa ficar atenta aos contratos de concessão e verificar se a empresa privada está apresentando o plano de mitigação de manejo de risco diante dessas situações – diz.

Para o professor Pedro Torres, uma das medidas que podem fortalecer a adaptação das cidades é a criação de abrigos climáticos.

– Seriam espaços para proteger as pessoas durante um evento extremo. Eles também podem funcionar como locais de cultura, debate e informação, onde a população aprende sobre os riscos climáticos e fortalece essa cultura do risco e da prevenção – analisa.

O risco

Além da adaptação física das cidades, os especialistas defendem investimentos permanentes em educação ambiental e formação da população para situações de emergência.

Para o professor Pedro Torres, o Brasil ainda apresenta um déficit nesse tema. Segundo ele, esse processo depende de ações permanentes de educação e conscientização, envolvendo escolas, universidades, empresas e o poder público.

– Os próprios alertas muitas vezes não são levados a sério. Isso revela uma falta de cultura do risco que precisa ser trabalhada desde cedo – diz o pesquisador.

Para Rodrigo Jesus, o Brasil deveria seguir o exemplo de países frequentemente atingidos por desastres naturais, como Japão e Filipinas, que incorporaram protocolos de emergência ao cotidiano da população por meio de campanhas permanentes, simulados e atividades nas escolas.

– A gente aprende desde cedo como agir em um incêndio ou em um acidente de trânsito. Mas poucas pessoas recebem orientação sobre como agir diante de uma ventania extrema, uma onda de calor ou uma inundação – diz o especialista.

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