O sistema permite assistência internacional coordenada, já garantindo a transferência de vítimas para França, Itália, Bélgica e Alemanha com prioridade para pacientes em estado crítico.
Por Redação, com RFI – de Bruxelas
A Suíça, que não integra a União Europeia e dispõe de apenas 20 leitos para grandes queimados, acionou o mecanismo europeu de proteção civil após o incêndio em Crans-Montana, que deixou cerca de 40 mortos e 115 feridos.

O sistema permite assistência internacional coordenada, já garantindo a transferência de vítimas para França, Itália, Bélgica e Alemanha com prioridade para pacientes em estado crítico.
Diante do elevado número de feridos no incêndio que atingiu um bar na estação de esqui de Crans-Montana, na noite de Ano-Novo, a Suíça recorreu à União Europeia para garantir um tratamento eficaz e coordenado. A investigação e a identificação das vítimas continuaram nesta sexta-feira, em um dos piores desastres que o país enfrenta em décadas, afetando toda a população.
A Comissão Europeia confirmou estar “em contato” com as autoridades suíças para oferecer “ajuda médica”. Em mensagem publicada na quinta-feira, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, afirmou que a Suíça acionou o mecanismo de proteção civil da UE, que já permitiu à França receber três feridos, de um total de 11 sobreviventes que receberão tratamento em hospitais franceses.
Entenda como funciona o mecanismo europeu
Pouco conhecido, esse dispositivo pode ser acionado por qualquer país do mundo quando sua capacidade de resposta é insuficiente diante de uma emergência. Desde sua criação, a União Europeia já respondeu a mais de 820 pedidos de assistência, dentro e fora do bloco.
Criado em outubro de 2001, o mecanismo busca “reforçar a cooperação em proteção civil entre os países da UE e dez outros Estados participantes”, com foco em prevenção, preparação e resposta a desastres. Entre esses países estão Albânia, Bósnia-Herzegovina, Islândia, Moldávia, Montenegro, Macedônia do Norte, Noruega, Sérvia, Turquia e Ucrânia.
O site da UE esclarece que “qualquer país afetado por uma catástrofe, na Europa ou fora dela” pode solicitar ajuda emergencial por meio do mecanismo. Essa ajuda inclui coordenação da resposta, apoio nos custos de transporte e operações de equipes de resgate.
Paralelamente, uma equipe vai atuar junto às famílias para coletar prontuários médicos, registros odontológicos e também o DNA de parentes ascendentes ou descendentes. Isso será ainda mais demorado porque certamente há vítimas estrangeiras. Um pedido de cooperação judicial seguirá pelos canais diplomáticos de cada país envolvido, e especialistas irão buscar esses dados junto às famílias para enviá-los à Suíça. Portanto, serão necessários ainda dias, ou até semanas, para que as famílias tenham uma resposta sobre a identificação de seus entes queridos.
Muitos casos graves em pouco tempo
A vantagem é oferecer uma “resposta conjunta e bem coordenada”, permitindo que as autoridades se comuniquem com um único interlocutor, evitando esforços duplicados e garantindo que a assistência atenda às necessidades das vítimas. Além disso, o mecanismo possibilita compartilhar expertise e recursos dos primeiros socorristas, tornando a ação mais eficiente.
Segundo o porta-voz da segurança civil francesa, tenente-coronel Frédéric Harrault, a prioridade é atender os grandes queimados, principal tipo de ferimento após o incêndio. “A capacidade para tratar pessoas que sofreram queimaduras extremas é muito limitada em todos os países, suficiente para situações cotidianas, e não para um afluxo de centenas de vítimas”, explicou. A Suíça conta com apenas 15 a 20 leitos para esse tipo de atendimento, enquanto o número de feridos em condições graves supera 80 pessoas.
A primeira fase da ajuda consiste em organizar a logística para transferir os pacientes aos locais mais adequados. O Centro de Coordenação de Reação a Emergências (ERCC), em Bruxelas, é responsável por essa operação, que envolve transporte especializado por aviões e helicópteros equipados para pacientes em estado grave. O objetivo é garantir que cada vítima seja encaminhada rapidamente para unidades com capacidade adequada.
Polônia oferece ajuda
Como informou o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, no X, a Polônia está preparada para “fornecer cuidados médicos especializados a 14 feridos em hospitais poloneses”, após um pedido da Suíça. “Expressamos nossa profunda solidariedade às famílias e aos entes queridos das vítimas do incêndio em Crans-Montana. A Suíça e o cantão do Valais podem contar com a solidariedade da Polônia”, escreveu Donald Tusk.
O presidente do Conselho de Estado do cantão suíço de Valais, Mathias Reynard, foi entrevistado nesta sexta-feira pela rádio suíça RTS. Ele explicou que a situação está extremamente tensa nos hospitais suíços após a tragédia em Crans-Montana. “Nossas equipes continuam na linha de frente […]. Algumas pessoas que estavam de folga vieram trabalhar para ajudar os colegas”, afirmou, acrescentando que há negociações em andamento para solicitar ajuda de médicos franceses especialistas em grandes queimados.