De repente, o STF virou arena de rinha de galos com o estreante ainda inexperiente enfrentando o experiente galo de temidas esporas. Chovem as apostas. Em volta da arena, metade dos espectadores está de joelhos, lembrando os meses em que os chamados patriotas acamparam na frente dos quartéis pedindo intervenção divina junto aos generais.
Por Rui Martins, editor do Direto da Redação

Numa alegoria, assim poderia ser representada a atual crise institucional no STF, deflagrada pelo mais recente ministro, André Mendonça contra o veterano Alexandre de Moraes. Quem tem acompanhado os vídeos divulgados pela imprensa mostrando as intervenções de ambos nos debates do STF, com poltronas vizinhas, podendo quase se tocar, já percebeu a animosidade existente entre os dois.
Mas a entrada de um e outro no STF deveria ser motivo de aproximação e não de rejeição. Alexandre de Moraes foi indicado por Michel Temer, que chegou à presidência com o que os progressistas e a esquerda consideram como golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. André Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro, difamador das urnas eletrônicas, defensor da tortura, anti-vacinas, misógino, racista e articulador de um Golpe, antes e depois de perder as eleições presidenciais.
Uma cena que viralizou na Internet, mostra André Mendonça negando e ironizando ter havido tentativa de golpe nos ataques aos Três Poderes em Brasília, no 8 de janeiro de 2023. A resposta de Moraes foi dura e ferina, criticando Mendonça por defender os golpistas e o golpismo dentro do STF.
Apesar de ter sido indicado por Temer, o ministro Alexandre de Moraes se tornou, nos últimos anos, o grande defensor da democracia ao enfrentar juridicamente a tentativa de golpe bolsonarista e ao condenar à prisão todos os envolvidos. No sentido inverso está André Mendonça, cuja formação religiosa fundamentalista vem da igreja presbiteriana de Santos, pioneira no processo de politização religiosa ao aderir ao golpe militar de 1964, seguindo seu antigo pastor Boanerges Ribeiro, que se tornou presidente do Supremo Concílio, precedendo nisso aos evangélicos neopentecostais e assembléias de Deus.
A esse respeito, publiquei aqui no Observatório da Imprensa um longo texto sobre a influência da Igreja Presbiteriana do Brasil na contenção e mesmo perseguição das correntes progressistas defendidas por pastores e seminaristas favoráveis às reformas de base popularizadas na década 1960.
É por esse prisma da intervenção político-religiosa, presbiteriana e evangélica em geral, que se pode entender a pregação do “pastor” André Mendonça na igreja de Silas Malafaia, logo depois de ter sido eleito como “ministro” do STF. Ao se declarar beaticamente como “escolhido de Deus”, Mendonça dava o tom de assumir como uma missão religiosa sua eleição como ministro do STF. Essa influência fundamentalista e mesmo seu porte de devoto, aparecem num texto da Folha, no qual diz só ter estudado Direito para agradar seus pais.
Num outro trecho de pregação, citado pela Folha, Mendonça fez uma declaração ambígua e duvidosa sobre Aids e pandemia, criticando quem pensa ver só na ciência a resposta a essa doença.
Algumas referências:
Portal do José
https://www.youtube.com/watch?v=fsp4L4a5gu8&t=628s
Instituto Conhecimento Liberta
https://www.youtube.com/watch?v=-gNJS3hIdlA
BBC
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgy5jrreyeo
Observatório da Imprensa
https://www.observatoriodaimprensa.com.br/politica/os-presbiterianos-de-santos-no-olho-do-furacao/
Folha de São Paulo