Rio de Janeiro, 17 de Julho de 2026

Saída do ministro da Defesa provoca protestos na Ucrânia

Zelensky promove reforma e exonera popular ministro que modernizou a defesa do país. Caso expõe relação difícil entre Ministério e comando militar, em um...

Sexta, 17 de Julho de 2026 às 11:24, por: CdB

Zelensky promove reforma e exonera popular ministro que modernizou a defesa do país. Caso expõe relação difícil entre Ministério e comando militar, em um momento em que Kiev está conseguindo conter poderio russo.

Por Redação, com DW – de Kiev

A reforma ministerial promovida pelo presidente Volodymyr Zelensky levou milhares de pessoas às ruas na quinta-feira em toda a Ucrânia para protestar contra a demissão do jovem ministro da Defesa Mykhailo Fedorov – visto como um inovador na bem-sucedida tecnologia de drones na defesa do país, mas que entrou em conflito com o comando militar tradicional ucraniano.

Manifestantes, na maioria jovens, foram às ruas para apoiar Fedorov e criticar o comando militar ucraniano

A reforma, que incluiu a substituição do primeiro-ministro, pode se tornar um teste da autoridade política de Zelensky, à medida que a luta da Ucrânia para repelir a invasão da Rússia se aproxima da marca de 4 anos e meio. Zelensky tem permanecido no cargo sob lei marcial já que as eleições em tempos de guerra são proibidas, mas realizou algumas reformulações em seu gabinete durante esse período.

As mais recentes mudanças deixaram a liderança militar da Ucrânia ocorrem num momento em que ações contra a Rússia começam a dar frutos, especialmente a ofensiva de drones que tem provocado uma crise de energia no país invasor.

Ao fazer as mudanças, Zelensky mencionou o atrito entre Fedorov e o general Oleksandr Syrskyi, comandante das Forças Armadas da Ucrânia. “Estou apenas mostrando que, se as partes não conseguirem resolver um problema, eu terei que resolvê-lo”, disse Zelensky em coletiva de imprensa.

Perfil

Fedorov, de 35 anos, é considerado um modernizador, cuja expertise tecnológica é creditada, em parte, pela melhora significativa do desempenho militar da Ucrânia nos últimos meses contra o Exército russo, mais numeroso. Ele deixa o governo após apenas seis meses no cargo.

O ministro de saída compareceu a uma coletiva de imprensa vestindo uma camiseta escura e jeans, e acusou Syrskyi de bloquear as reformas necessárias porque “a guerra mudou completamente” devido a novas tecnologias, como os drones.

Em seu período no ministério, Fedorov assegurourestrições ao acesso das forças russas ao sistema de comunicações via satélite Starlink, permitindo que a Ucrânia aproveitasse melhor suas capacidades de ataque de médio alcance, dando a Kiev vantagens significativas no campo de batalha. Fedorov disse que estava disposto a trabalhar com Syrskyi, “mas nos deparamos com uma situação em que todas as iniciativas que propusemos começaram a ser bloqueadas”.

– Sob estas condições, [com Syrskyi como comandante], eu pessoalmente não sei como a guerra pode ser vencida – disse ele.

Nas redes sociais, Fedorov destacou o que chamou de suas principais conquistas: redirecionar fundos destinados a salários para capacidades de ataque de médio alcance, drones de fibra ótica, sistemas de reconhecimento e outras tecnologias. Ele ressaltou ainda a expansão da aquisição de drones, o contrato para produzir sistemas de defesa antimíssil Patriot, testes bem-sucedidos de mísseis balísticos e mudanças radicais nas aquisições militares.

Ele, no entanto, reconheceu que não conseguiu concluir a transformação organizacional do Ministério da Defesa “de acordo com os padrões da Otan e do bom senso”, ou tampouco transferir todas as aquisições para licitações competitivas e construir uma cultura de responsabilidade.

Syrskyi, que não apareceu em público, agradeceu a Fedorov em uma postagem no Facebook e disse que esperava que ele continuasse a servir à Ucrânia. “Desejo que ele continue na equipe ucraniana”, escreveu, sem dar mais detalhes.

Defesa e militares

Zelensky pediu ao major-general Yevhen Khmara que assumisse interinamente as funções de ministro da Defesa, de acordo com uma publicação no aplicativo de mensagens Telegram. Desde janeiro, Khmara atua como chefe interino do serviço de segurança do Estado, conhecido como SBU. Anteriormente, ele liderou a unidade de elite das forças especiais Alpha do SBU.

O líder ucraniano descreveu uma relação difícil entre o Ministério da Defesa e os militares em vários níveis, e que não se tratava simplesmente de uma questão de personalidades, e disse que ambos os lados compartilham a responsabilidade pelas consequências.

– Juntos vencemos e juntos somos responsáveis pelas coisas que causam confusão e reação pública – disse ele, ao lado do primeiro-ministro britânico Keir Starmer, que fazia sua última visita ao exterior antes de deixar o cargo.

Syrskyi, de 60 anos, organizou inicialmente a defesa de Kiev em fevereiro de 2022 e, sete meses depois, orquestrou uma contraofensiva bem-sucedida na região de Kharkiv. Nascido em 1965, ele frequentou a Escola Superior de Comando Militar de Moscou antes de servir no Corpo de Artilharia Soviético, até o colapso da União Soviética, em 1991.

Fedorov

Sob o comando de Fedorov, o Exército ucraniano praticamente paralisou o avanço de Moscou na linha de frente e promoveuataques a refinarias e outras instalações de energia em território russo, causando escassez de combustível no país, segundo autoridades e analistas ocidentais. A decisão de Zelensky de demiti-lo, apesar desse histórico, deixou muitas pessoas consternadas.

Antes de se tornar ministro da Defesa em janeiro, Fedorov liderou as políticas de transformação digital da Ucrânia. Ele conquistou popularidade ao liderar o rápido desenvolvimento e implantação da tecnologia de drones e ao introduzir diversas e bem-sucedidas plataformas eletrônicas de governo.

Como ministro, ele se empenhou em combater a corrupção, uma questão de especial importância para os ucranianos, que protestaram repetidamente contra esse problema. Em entrevista, ele afirmou que combater a corrupção significava trabalhar contra os interesses de grupos que lucraram por muito tempo com programas dentro do Ministério. Fedorov também buscou reformular a aquisição de armas para torná-la mais transparente.

Ele havia prometido amplas reformas militares, afirmando que o Exército havia enfrentado cerca de 200 mil deserções e evasão do serviço militar por cerca de 2 milhões de pessoas. Os manifestantes, em sua maioria jovens que foram às ruas de Kiev e outras cidades para apoiar Fedorov, fizeram fortes críticas ao o atual comandante militar, entoando frases como “Syrskyi, vá embora!” e “um Exército europeu para um país europeu!”

Correspondentes militares russos e blogueiros pró-Kremlin tiraram proveito da crise. O analista político Sergei Markov descreveu os comentários de Fedorov como uma “rebelião” contra Zelensky.

O vice-comandante da Força Aérea da Ucrânia, Coronel Pavlo Yelizarov, renunciou ao cargo em protesto contra a demissão de Fedorov, afirmando nas redes sociais que isso enfraquecerá as defesas aéreas da Ucrânia e levará a mais mortes em decorrência de ataques russos.

– Acredito que a demissão de Mykhailo Fedorov é um grande mal para a capacidade de defesa do país – escreveu em sua carta de renúncia divulgada no Facebook.

O Parlamento aprovou por ampla maioria a indicação do diretor da estatal de energia Naftogaz, Serhii Koretski, como o novo primeiro-ministro do país. Ele recebeu 289 votos dos parlamentares, bem acima dos 226 necessários.

Ao indicar Koretski, Zelenski citou seu histórico no setor de energia e argumentou que ele era o mais bem preparado para conduzir a Ucrânia por mais um inverno, quando se intensificam os ataques russos à rede elétrica.

Ao contrário de outros altos funcionários do governo, o engenheiro de 48 anos não ascendeu por meio de partidos políticos, do Parlamento ou do serviço público. Ele passou mais de duas décadas administrando empresas de combustíveis e alimentos antes de ser escolhido para dirigir algumas das companhias estatais de energia mais problemáticas da Ucrânia, e ganhou reputação como um gestor eficaz de crises, capaz de torná-las lucrativas.

Zelensky já enfrentou protestos antes por suas decisões. Grandes manifestações eclodiram em julho de 2025, quando ele aprovou rapidamente uma lei que teria restringido a independência dos órgãos anticorrupção do país.

A onda de indignação ameaçou sua liderança pela primeira vez desde a invasão russa, e ele rapidamente reverteu sua posição e apresentou uma legislação para restaurar a independência das agências.

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