Rio de Janeiro, 01 de Janeiro de 2026

Quem matou Geraldo Vandré, agora com 90 anos?

Explore a trajetória de Geraldo Vandré, o ícone da resistência musical à ditadura, e as transformações que sofreu ao longo dos anos.

Quinta, 01 de Janeiro de 2026 às 19:21, por: Rui Martins

Quem é hoje Geraldo Vandré aos 90 anos?
“Ele foi um rei, e brincou com a sorte
Hoje ele é nada, e retrata a morte…
Ele passou por mim, mudo e entristecido
Eu quis gritar seu nome, não pude
Ele olhou pra parede, disse coisas lindas
Disse um poema pr’um poste, me vieram lágrimas
…O que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei”
(Tributo A Um Rei Esquecido, Benito Di Paula)

Textos de Celso Lungaretti, Adriana Tanese Nogueira e Walnice Nogueira Galvão

Quem matou Geraldo Vandré, agora com 90 anos? | A triste história do compositor e cantor Geraldo Vandré lobotomizado pela Ditadura militar.
A triste história do compositor e cantor Geraldo Vandré lobotomizado pela Ditadura militar.

Geraldo Vandré, o maior expoente da resistência musical à ditadura dos generais, se tornou nonagenário no último mês de setembro. De forma melancólica, praticamente esquecido.

Como este blog publicou dezenas de posts sobre os vários momentos da trajetória do Vandré e 24 deles podem ser acessados clicando-se nos links reunidos no rodapé, vou apenas relembrar algo crucial para não cometermos uma enorme injustiça ao avaliarmos sua transformação de cantador não por dinheiro, por justo anseio geral em apologista da Força Aérea Brasileira.

Pois, embora haja sido muito decepcionante, para os que o admiravam, a transformação pela qual ele passou ao voltar para o Brasil em 1973, continuam existindo muitas dúvidas sobre se ela não teria resultado de uma terrível lavagem cerebral.

Sabe-se que ele atravessou maus momentos antes de deixar um País já submetido ao AI-5, mas sua transformação de rei em trapo se deu adiante, na volta para o Brasil, quando a ditadura dele se apossou em 14/07/1973 e só o liberou em 11/09/1973, anunciando então sua chegada como se tivesse acabado de desembarcar no Galeão.
Na verdade, Vandré foi mas é internado numa clínica psiquiátrica e, em depoimento que li na internet, uma companheira que também estava lá relatou que ele se encontrava sob vigilância de agentes da ditadura, impedido de falar com os outros pacientes.

Há também referências a uma internação em 1974, numa clínica do bairro de Botafogo (RJ), depois de uma crise de nervos durante a qual teria ameaçado esfaquear a irmã.

Mas é a do ano anterior que realmente importa. Pode-se dizer que se constituiu num divisor de águas. Vandré era um antes e se tornou outro depois.

Outras peças do quebra-cabeças: em 1980, quando a Caminhando foi enfim liberada pela censura e gravada pela Simone, conversamos uma tarde inteira em seu apartamento da rua Martins Fontes (SP).

Eu pretendia entrevistá-lo para várias revistas de música, mas ele não aceitou. Contudo, ficamos papeando em off e ele fez uma confissão significativa.

Disse que a Caminhando podia voltar ao mercado com outra intérprete (Simone), mas ele se colocaria em perigo caso não permanecesse à margem desse processo. Como era uma fase de atentados ultradireitistas contra a abertura do ditador Geisel, percebi que era a eles que Vandré estava aludindo. E que ele estava premeditadamente aparentando confusão mental como forma de autopreservação.

Eis, ainda, duas declarações de 2004, numa entrevista que Vandré concedeu a Ricardo Anísio, do Jornal do Norte:

“…eu voltei [do exílio] doente e meio perdido em meu país, quando justamente os militares me acolheram (!), me deram tratamento médico (!!), e me alojaram (!!!)”.

“… havia escrito a canção [“Fabiana”] porque sempre fui um apaixonado por aviões. Agora, a minha relação com as Forças Armadas hoje, é de muito respeito mútuo (!). Eles me tratam com dedicação (!!) e sabem das minhas questões existenciais (!!!)”.

Ou seja, parece também que utilizaram contra ele o velho teatrinho do policial bonzinho x policial malvado. A alguns ele temia, a outros via como protetores.

Vale citar o Timothy Leary, aquele mesmo dos experimentos com o LSD, que foi também uma das mais maiores autoridades científicas no estudo das lavagens cerebrais:

“Como procedimentos elas são basicamente simples, consistindo na troca de alguns circuitos robóticos por outros. Assim que a vítima passa a encarar o reprogramador como a criança encara seus pais – fornecedores de segurança vital e de apoio para o ego – qualquer nova ideologia pode ser inculcada no cérebro.

Durante o estágio de vulnerabilidade, qualquer pessoa pode ser convertida a qualquer sistema de valores. Facilmente podemos ser induzidos a entoar ‘Hare Krishna, Hare Krishna’ como ‘Jesus morreu por nós’, ou a bradar ‘abaixo o Vaticano’, aceitando plenamente as ideologias que estão por trás desses temas”.

Fragilizado por tudo que sofrera, incluindo problemas com drogas, Vandré pode muito bem ter, naqueles suspeitíssimos 58 dias, sido induzido a bradar viva a FAB, o que equivalia, como percebeu o Benito Di Paula, a estar louvando a morte.

Concluindo: enquanto não soubermos no que realmente consistiu o tal tratamento médico proporcionado pelos militares quando acolheram e alojaram o Vandré, não poderemos, em sã consciência, descartar a hipótese de lavagem cerebral. De minha parte, sempre nele verei um companheiro que foi assassinado espiritualmente pelos fascistas, assim como Victor Jara e Garcia Lorca o foram fisicamente.

Desprezo só merece quem não ousou lutar quando, mais do que nunca, a luta era necessária.

CELSO LUNGARETTI, jornalista, escritor, militante contra a Ditadura militar de 1964-85, editor do Blog  NÁUFRAGO DA UTOPIA.

……………

“UMA ANÁLISE DE VANDRÉ” , publicado no Náufrago da Utopia em 30 de setembro de 2010, por ADRIANA TANESE NOGUEIRA.

Para entendermos e refletirmos sobre o que aconteceu com Geraldo Vandré, a opinião de uma terapeuta tem tudo a ver. Ainda mais sendo a de uma profissional altamente conceituada, como Adriana Tanese Nogueira — que, ademais, é filha de um ex-militante da resistência à ditadura e está contando as memórias familiares num livro que posta, capítulo por capítulo, num de seus blogues, à medida que os vai escrevendo.

Então, é com prazer que reproduzo aqui o artigo Uma análise de Vandré, da nossa boa Adriana, uma autora que vocês não devem perder de vista:

Sempre tive a convicção interna de que é preciso estar à altura do que somos. Quem já não se pegou tendo algumas idéias fantásticas? Ou sentindo ter que realizar uma missão muito maior do que si próprio?

Acho que algo assim aconteceu com Geraldo Vandré. Minha filha de 12 anos ouvindo outro dia, pela primeira vez, a música Caminhando ficou profundamente emocionada. Não foram só as letras que lhe chamaram a atenção, mas também a voz de Geraldo Vandré, o tom, a alma que está presente na forma como ele canta. É profunda, é sentida, é tão sagaz e intensa que tem o efeito de um megafone gigantesco.

Caminhando, um hino. A melhor música de 1968, digna das melhores produções musicais do ano mais emocionante e radical da história ocidental, quando se acreditava que se podia mudar o mundo. O ano em que nos países civilizados de 1º mundo, jovens e intelectuais acordaram do longo sono da hierarquia social e das tradições conservadoras para respirar o ar fresco da vida nova e ousar querer mais, ousar mudar, ousar dizer NÃO.

Infelizmente, no nosso Brasil subdesenvolvido, 1968 foi o ano da catástrofe. Desde aquele ano o “não” foi erradicado da cultura brasileira. Já notaram como todos dizem “sim”? Se fazem o que prometem é outro assunto, se ligam, se mantêm compromissos, se comparecem no horário marcado, se realizam o que prometeram, são fieis à palavra dada – tudo isso são outros quinhentos. O importante é dizer “sim”, nunca entrar em atrito. A oposição é proibida (porque no imaginário significa morte, fim); a hipocrisia aceita (e todos vivemos no jeitinho brasileiro). Enquanto a ONU decretava 1968 como Ano Internacional dos Direitos Humanos, no Brasil começou a orgia de desrespeito aos direitos humanos e ao Humano em geral.

Em setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção, Vandré canta o Pra não dizer que não falei das flores. Foi um sucesso imediato. Todos, de alguma forma, compreenderam o que significava, a letra penetrou rapidamente debaixo da pele como uma pomada regenerante. Logo em seguida, Vandré perdeu seu emprego e antes da emissão das novas Tábuas da Lei (o AI-5) da Toda-Poderosa Ditadura Militar, em dezembro daquele mesmo ano, Geraldo Vandré já estava fora do Pais. Por causa de um música.

Como muitos exiliados, ele não gostou de sua nova vida. Arrancado de sua patria para salvar-se, o cantor fraquejou e cedeu às drogas e à depressão. Foi sua primeira grande falha. Ele não soube pagar o preço pelo presente que doou ao Brasil: uma simples música. Mas uma Grande Música, o hino de uma geração, o sentido de uma luta, o sonho de um povo, de muitos povos. A verdade cantada em poesia de que todos somos iguais, “braços dados ou não”, de que há muitos soldados “perdidos com armas na mão”. E o militarismo não é uma barbarie destinada a acabar um dia? Na Itália, há muitos anos é dada a opção de fazer o serviço “civil” no lugar do serviço militar. Os homens novos não identificam a masculinidade com o uso da força, isso é coisa do passado.

É também uma verdade psicológica e sociológica de altissimo valor que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Conhecimento que não se transforma em ação não serve para nada, é vazio e enganoso. Saber é fazer. Saber é ser; logo, é agir. E isso porque temos “os amores na mente” e a “História na mão”: é por amor que se muda o mundo e as lições do passado devem ensinar alguma coisa. Povo sem passado é povo burro que patina no presente (e isso vale do ponto de vista psicológico também: é preciso comprender a própria história para mudá-la). Somente assim, “caminhando e cantando, e seguindo a canção”, poderemos aprender e ensinar “uma nova lição”, criar um novo mundo.

É essa “nova lição” que o regime militar exorcizou perseguindo e depois “confundindo” a cabeça do criador dessas palavras. Convinha aos exímios generais uma mais primitiva divisão do conflito entre bons e maus, fardados e “terroristas”, protetores da pátria e “malucos assassinos”. Era mais digerível uma versão simplória da realidade, regada a muito ódio, exaltação e medo.

A Caminhando era mais poderosa do que bombas e ameaças. Por isso, quando seu incauto autor resolveu cometer o seu segundo erro e ceder à angústia da saudade, voltando para a pátria amada cedo demais (1973), ele foi “acolhido” pela gentil força armada que “cuidou” dele num agradável hospital psiquiátrico, onde Vandré permaneceu isolado dos outros pacientes. Eis então o que significa na truculenta língua do regime militar o projeto transformador contido na Caminhando: uma loucura. Uma doença tão perigosa que deveria ser mantida separada dos outros malucos que ocupavam a simpática clínica para doentes mentais.

Reflitamos. Desde quando as Forças Armadas “acolhem” os cidadãos nos aeroportos? As Forças Armadas acolhem generais, presidente, embaixadores e altos funcionários. Cidadãos são acolhidos em suas chegadas ao País por familiares, amantes, amigos e colegas. Forças Armadas “acolhem” cidadãos somente quando os prendem ou os sequestram. Como Vandré não era um alto oficial, e não havia matado ou roubado, ele deve ter sido sequestrado para ser “reprogramado”.

É certo. Num regime militar onde a livre expressão é proibida, onde todas as fontes, oportunidades e instrumentos de reflexão crítica são proibidos, “as flores pelo chão” devem ser incineradas e sua existência negada.

Foi assim que o poeta, cuja Musa genial inspirou-lhe a grande canção de esperança, foi hospedado por quase dois meses numa clínica psiquiátrica para “rever” suas idéias. O que mais a Musa poderia sugerir ao poeta, justamente nos anos mais negros da história do Brasil? O regime militar preocupou-se, então, em “explicar” ao poeta com “métodos apropriados” que suas músicas afinal não passavam de lorotas tolas, que sendo ele um cantor de porte, não como o Caetano e o Gil que “fazem qualquer coisa”, não lhe cabia permanecer no mesmo campo musical.

Tiveram sucesso. Hoje, Geraldo Vandré só faz “música erudita”, aquela que poucos entendem (qual melhor jeito de mantê-lo longe do povo?). Ele inclusive não gosta da cultura de massa (nem eu gosto, mas ela virou o que virou porque foi expurgada anos atrás de todos os pensadores críticos!) e é por isso que não canta mais para o Brasil.

Não só, surpreendentemente, Vandré agora tem a Força Aérea Brasileira como seu xodó, se aloja em suas instalações, carrega papel impresso da FAB, símbolos e tudo o mais. Como ocorreu tal mudança?

Ao assistir à entrevista da Globo pelos 75 anos de Vandré, a impressão que tive foi de um homem quebrado, mas “disfarçado”. Ele não parece amargurado, arrependido, deprimido. Poderia sentir-se assim, tem motivos para isso, seria totalmente normal. Ele também não parece um homem que mudou de idéias, que deixou de acreditar em algo e passou a pensar diferente, nem que fosse de forma fanática. Qual é a dele, então?

Ele parece uma pessoa cuja estrutura mental foi embaralhada por um novo e diferente maço de cartas, que nada tem a ver com a identidade original. Imaginem jogar baralho e de repente aparece aqui e alí uma carta com outro desenho, outro significado e que pertence a outro tipo de jogo. Imaginem dois “jogos” convivendo na psicologia de Vandré aparentemente de forma “pacífica”, pois uma situação dessas deveria levar ao desequilíbrio mental. Mas o Vandré parece normal. É como se, de alguma forma, tivessem conseguido “reprogramar” o cantor de modo a manter sua aparente sanidade mas atuando em “modo diferente”.

Celso Lungaretti sustenta a tese da lavagem cerebral, não em sentido amplo, mas estrito. Ela acontece quando se submete uma pessoa a uma condição de total dependência de seus carcereiros. Estes controlam tudo o que a pessoa faz, desde o que e quando ela come e vai ao banheiro, até o sono e todos seus movimentos. Dá para imaginar o que isso significa? Estar totalmente à mercê do inimigo cruel?

Após um tempo assim, por instinto de sobrevivência e busca sentido (para não ficar louco), a vítima passa do sentimento de pânico e abandono total àquele de buscar conivência com seus algozes. Se, além dos “cuidados materiais” pelos quais a vítima passa, são-lhe soministrados também “cuidados psicológicos”, tipo “ensinar-lhe” o que ela deve pensar e acreditar, temos um prato cheio para compreender a esquisita entrevista de Geraldo Vandré à Globo.

Além de lento, o homem não é explicitamente patético, como seria alguém que fracassou em seu propósito de vida e choraminga; também não mudou de idéia, como disse, pois hoje, de alguma forma, ele até nega ter tido “idéias”; não está amargurado, como teria todo direito a estar. Ao contrário, aparenta uma estranha leveza e distância, mas também não está fazendo algo de concreto. Tudo é confuso e nublado. Algumas coisas ele “não lembra”, mas as letras de suas músicas ele lembra perfeitamente.

Talvez só lá encontraremos Geraldo Vandré, no fio da meada que a Musa lhe inspirou, mas que o homem não conseguiu aguentar. Aquele fio da meada de sanidade mental que os “preocupados cuidados militares” não conseguiram apagar – e nunca irão apagar da bagagem cultural do Brasil. Morre o homem consciente, mas não morre a música revolucionária, justamente porque “a vida não se resume em festivais”.

ADRIANA TANESE NOGUEIRA, psicoterapeuta formada em Milão (Itália) e radicada na Flórida (EUA), Adriana Tanese Nogueira é idealizadora do blogue Psicologia Dialética e da ONG Amigas do Parto.

……………

VANDRÉ, O MENESTREL DA CANÇÃO.

O compositor e intérprete paraibano Geraldo Vandré chega aos 90 anos com sua trajetória reavaliada e festejada. Deixa de ser visto apenas como um “cantor de protesto”, rótulo limitante, e tem sua produção lírica colocada em destaque. Em especial sua trilha sonora composta para o clássico “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, filme que tornou-se o grande vencedor da primeira edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1965.

O longa-metragem, protagonizado por Leonardo Villar, baseou-se em conto de João Guimarães Rosa. O escritor gostou muito do resultado artístico da recriação de sua obra. E das canções especialmente compostas por Vandré. O mesmo não acontecera com “Grande Sertão: Veredas”, adaptação do monumental romance roseano, lançada um ano antes (1964) pelos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira.

Recentemente, Vandré ganhou significativo destaque no filme “Homem com H”, de Esmir Filho, cinebiografia de Ney Matogrosso. O cantor mato-grossense fez questão de relembrar os tempos em que ouvia os discos de Vandré e cantava, em rodas de amigos e violão, suas canções. Escolheu, para estar no filme, que se aproximou dos 700 mil espectadores, justo “Réquiem para Matraga”. Ney planeja dedicar um CD às composições líricas de Vandré.

No artigo abaixo, publicado no catálogo do Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro, Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da USP, que já dedicara ensaio à obra do artista paraibano (no livro “Gatos de Outros Sacos – Ensaios Críticos”, Editora Brasiliense, 1981) reavalia a obra de Vandré. E presta homenagem ao autor de “Disparada” e do pungente “Das Terras de Benvirá” no ano de seu nonagenário (festejado em setembro).

Abaixo, o texto de Walnice Nogueira Galvão sobre o “menestrel da canção brasileira”, que foi homenageado pela vigésima edição do Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa, no dia 10 de dezembro:

O MENESTREL DA CANÇÃO

Por Walnice Nogueira Galvão 

“Completa 90 anos aquele que compôs o hino nacional da resistência à ditadura. Proibido em todo o território nacional, “Pra não dizer que não falei de flores” seria entoado nos eventos da oposição, fosse ato público, comício, enterro de vítimas e de líderes etc.
Sabe-se lá que terrores viveu? Notícias de outros perseguidos e exilados contam de pessoas que, sem estrutura para aguentar os demônios, preferiram morrer. Há notícia de famoso líder comunista que tentou o suicídio cortando os pulsos com o único instrumento de que pôde lançar mão, uma tampa de lata de sardinha.

Em outros, como o de Frei Tito, a ignomínia dos perseguidores foi exponenciada pelo fato de ele, católico convicto, saber-se condenado pelo suicídio à eterna danação , sem redenção possível. Outros ainda enlouqueceram, tornaramse alcoólatras, converteram-se a cultos messiânicos ou às drogas – enfim, muitas saídas diferentes para o horror que atravessaram, mas todas destrutivas. E muitos padeceram de esterilidade intelectual, deixando de produzir.

Vandré, cria do CPC, formou entre os pioneiros da bossa-nova, embora raramente seja reconhecido. Constituiu sua dupla mais politizada com Carlinhos Lyra . Este até o fim insistiu que sempre foi politizado, desde o começo, quando coordenou com Vinicius de Moraes o show “Pobre menina rica” e foi co-autor do “Subdesenvolvido” (1962) com Chico de Assis, célebre sátira em forma de canção que foi cantada Brasil afora, emblema do CPC e presença em todos os grêmios estudantis do país.

Pois Vandré e Carlinhos Lyra fizeram parceria que é responsável pelo menos por duas canções de então: a belíssima “Quem quiser encontrar o amor” (1961) e “Aruanda”(1962). A Vandré devemos algumas das mais lindas melodias da bossa-nova. Mas também há quem prefira “Réquiem para Matraga”, da trilba sonora que Vandré compôs para “A hora e vez de Augusto Matraga”, filme de Roberto Santos.

É de se lamentar que no Brasil não exista a figura do menestrel popular contemporâneo, que teve exemplares magníficos em outros países., como os chansonniers franceses que desde a Revolução mantiveram o bom hábito de fustigar os poderosos. Tais foram, entre tantos outros, Aristide Bruant e George Brassens, que não couberam no mesmo século.

Em Portugal, Zeca Afonso fez trabalho quase clandestino durante a ditadura salazarista, que ajudou a derrubar. Não foi à toa que teve sua canção “Grândola Vila Morena” escolhida como senha difundida pelo rádio para deflagrar a Revolução dos Cravos em 1974. Ele, que infelizmente morreria cedo, percorria o país com seu violão, cantando em sindicatos, escolas, igrejas, onde desse enfim, para fazer propaganda da liberdade e da democracia.

Nos Estados Unidos, sobressaem dois deles, identificados à folk music. O primeiro, Woody Guthrie, marchoujunto com os pobres atingidos pela Grande Depressão dos anos 30. Deixou canções inolvidáveis, como “Where haveall the flowers gone”ou “If I had a hammer” . E foi o divulgador do hoje conhecido hino do Movimento pelos Direitos Civis, “We shall overcome”. Depois dele surgiria Pete Seeger, participante do mesmo Movimento, dos comícios e atos públicos contra o racismo e contra a Guerra do Vietnã.

Vandré estava a caminho de ocupar seu lugar neste ilustre galeria de menestréis populares, quando a ditadura o ceifou. Somos-lhe gratos por ter existido e brindado seus ouvintes com tão belas canções, as de amor e as de guerra..
Imaginem Vandré no Maracanãzinho, na final do festival da MPB em 1968, respondendo ao anseio popular ao estrear “Prá não dizer…” Quando a canção terminou, ouviu-se e pode-se ouvir até hoje na gravação o brado retumbante dos 12 mil opositores do regime que ali estavam em estado de insurgência e que sancionaram a vitória da canção – que a ditadura proibiria. Mas não conseguiria impedir sua trajetória histórica.

Basta ouvir com atenção a progressão da figura do menestrel que Vandré vai construindo em primeira pessoa desde “Porta-estandarte”, passando por “Réquiem para Matraga”, “Disparada” e “Ventania”, para culminar em “Prá não dizer…” Através de seu canto o menestrel conclama a quem o ouve para mudar o mundo, que está bem precisado”.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP – (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo).

Direto da Redação é um fórum de debates publicado no jornal Correio do Brasil pelo jornalista Rui Martins.

 

Edições digital e impressa