Ao premiar Donald Trump em nome da paz, a FIFA expõe a captura política do esporte e esvazia um valor historicamente ligado à justiça entre os povos.
Por Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) – de Brasília
A cena foi simbólica — e profundamente reveladora do nosso tempo. No dia 5 de dezembro de 2025, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, entregou ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o prêmio inaugural Prêmio da Paz da FIFA – O Futebol Une o Mundo. A cerimônia, realizada durante o sorteio da Copa do Mundo de 2026, foi apresentada como celebração da paz global. Mas, na prática, escancarou uma contradição gritante entre discurso e realidade.

A Fifa criou a honraria com o argumento de reconhecer indivíduos que promovem “ações excepcionais pela paz e pela união dos povos”. No entanto, a escolha de Trump — cercada de controvérsias e marcada por um processo pouco transparente — não apenas esvazia o sentido do prêmio, como coloca em xeque a própria legitimidade da entidade que o concede.
Não se trata de um detalhe protocolar ou de mera divergência política. Trata-se de uma inversão de valores. O futebol, historicamente, construiu-se como linguagem universal, capaz de atravessar fronteiras, reduzir tensões, paralisar guerras e criar pontes entre povos. Foi assim em contextos de batalhas, de apartheid, de conflitos coloniais. O esporte sempre reivindicou — ao menos simbolicamente — um papel civilizatório.
Ao premiar uma liderança cuja trajetória política está associada a intervenções, tensões diplomáticas e práticas agressivas no cenário internacional, a Fifa rompe com esse legado. Mais do que isso: transforma a ideia de paz em peça de marketing, moldada conforme conveniências geopolíticas e interesses institucionais.
A proximidade entre Infantino e Trump já vinha sendo observada a alguns anos, inclusive com críticas sobre os caminhos da entidade e prováveis violações de seu princípio, teoricamente, de neutralidade. A entrega do prêmio, nesse sentido, não foi um ato isolado, mas o ápice de uma relação que subordina o futebol a agendas de poder.
E é justamente aí que reside o problema central. Quando uma organização como a Fifa — que governa o esporte mais popular do planeta — passa a legitimar figuras controversas (para dizer o mínimo) sob o rótulo da paz, ela não apenas se posiciona politicamente: ela redefine o próprio significado de paz. E o faz de forma perigosa, banalizando um conceito que deveria estar associado à justiça, à autodeterminação dos povos e à superação real das violências.
Não há como ignorar o contexto mais amplo. Premiar lideranças envolvidas em ações coercitivas no plano internacional, inclusive contra países soberanos e seus dirigentes — como no caso do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e dos ataques descabidos ao Irã em meio às rodadas de negociação na ONU — revelam o grau de distorção a que chegamos. A paz, nesse cenário, deixa de ser um valor universal e passa a ser um instrumento narrativo, apropriado pelos vencedores.
Fifa
O gesto da Fifa também envia uma mensagem preocupante ao mundo do esporte. Atletas, torcedores e movimentos que historicamente utilizaram o futebol como espaço de denúncia contra guerras, racismo e opressão percebem essa tradição ser capturada por interesses que pouco têm a ver com solidariedade entre os povos.
Não é exagero dizer que estamos diante de uma crise moral do esporte global. Quando o símbolo máximo do futebol legitima esse tipo de escolha, abre-se um precedente para que outras instituições façam o mesmo — naturalizando o absurdo e esvaziando o sentido político do próprio conceito de paz.
O futebol não pode ser reduzido a espetáculo nem a instrumento de relações públicas de governos. Ele carrega uma dimensão social e histórica que não pode ser ignorada. Se a Fifa abdica desse compromisso, cabe à sociedade — e especialmente aos que vivem o esporte no cotidiano — reivindicar seu verdadeiro significado.
No fim das contas, o que está em jogo não é apenas um prêmio. É a disputa pelo sentido da paz, da política e do próprio futebol. E aceitar esse tipo de distorção sem crítica é abrir mão de tudo aquilo que, um dia, fez do esporte um espaço de encontro entre os povos — e não de legitimação do poder dos mais fortes com o uso da força.
Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe), é biólogo, Geógrafo, Professor, Dr. em Ciências Naturais e Docente do IFMG.
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