Rio de Janeiro, 21 de Agosto de 2026

Portugal vê turismo recuar após sequência de recordes

País vê o número de visitantes se estabilizar. Com turistas mais cautelosos e gastos menores, especialistas acreditam que estratégia pode ser migrar do turismo de massa para o de maior renda.

Sexta, 21 de Agosto de 2026 às 14:26, por: CdB

País vê o número de visitantes se estabilizar. Com turistas mais cautelosos e gastos menores, especialistas acreditam que estratégia pode ser migrar do turismo de massa para o de maior renda.

Por Redação, com DW – de Lisboa

“Não vejo mais multidões circulando pela cidade como nos anos anteriores”, observa Sofia Maia, proprietária de um hotel na cidade de Porto, no norte de Portugal. “Os restaurantes também parecem menos cheios do que antes. Pelo menos não posso reclamar da ocupação dos quartos”.

Portugal costuma receber anualmente três vezes a sua população

Enquanto o verão europeu caminha lentamente para o fim, o setor turístico português faz um balanço provisório ambíguo: o número de visitantes está estagnado e os turistas estão gastando menos.

Até 2025, Portugal comemorava aumentos expressivos no número de visitantes. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2024, o país recebeu 2,5 milhões de turistas a mais que no ano anterior, um crescimento de 9,3%. Em 2025, porém, a alta entre os visitantes estrangeiros foi de apenas 3,3%. E tudo indica que a tendência de queda deve continuar.

– Nos primeiros seis meses deste ano, registramos um aumento de 3,1% no número de visitantes – explica André Gomes, presidente da entidade que representa o setor turístico do Algarve, importante região turística no sul do país. “As pernoites cresceram 2% e as receitas, 7,7%”. Segundo ele, os resultados de 2026 deverão ser semelhantes aos do ano passado.

Visitantes

O número de estrangeiros que visitam Portugal se estabilizou em cerca de 30 milhões por ano, o equivalente a quase três vezes a população do país. Com aproximadamente 11% do total, os alemães formam o segundo grupo mais importante de turistas, atrás apenas dos britânicos.

Em 2025, os turistas gastaram cerca de 29,4 bilhões de euros em Portugal, valor correspondente a 11,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Apesar disso, alguns analistas já veem sinais de alerta.

– Chegamos claramente aos limites do crescimento do turismo – afirma o economista João Duque. “E não vejo nenhum plano para o futuro que leve isso em consideração”.

De fato, as autoridades parecem continuar apostando em expansão. O novo aeroporto planejado para Lisboa deverá receber, a partir da década de 2030, pelo menos 56 milhões de passageiros por ano. Além disso, Lisboa e Porto já aprovaram quase 200 novos hotéis, somando cerca de 11 mil quartos.

Embora Duque acredite que nem todos os projetos sairão do papel, ele alerta que, mantida a tendência atual, poderão surgir excessos de capacidade no setor.

Preços

E isso ocorre em um contexto de preços elevados. “Um simples guarda-sol com espreguiçadeira em uma praia do Algarve pode custar 200 euros por dia ou mais”, calcula Duque. “E uma refeição em restaurante ultrapassa facilmente os 100 euros por pessoa.”

Diante disso, muitos turistas optam por comprar comida em supermercados e fazer refeições no próprio alojamento. Como consequência, um número crescente de mesas permanece vazio nos restaurantes.

– Os hóspedes estrangeiros pedem o prato mais barato do cardápio e muitas vezes até dividem uma refeição – reclama Celeste Botelho, proprietária de um restaurante em Nazaré, famoso destino de surfe de ondas gigantes.

O movimento intenso existe apenas no calçadão à beira-mar, não dentro do restaurante. Segundo João Duque, os tempos em que Portugal era considerado um destino turístico barato já ficaram para trás.

Lado positivo

Ao contrário da indústria do turismo, muitos portugueses parecem satisfeitos com a desaceleração. “Voltamos a encontrar lugar nos restaurantes”, diz João Martelo, morador de Lisboa.

Segundo ele, os atendentes voltaram a tratar melhor os moradores locais. Além disso, destaca uma mudança em um dos cartões-postais da cidade. “Moro perto do ponto final da famosa linha 28 do bonde. Finalmente não há mais centenas de turistas na fila ocupando os lugares dos moradores.”

Setor

Para João Duque, é preciso repensar o modelo turístico: menos turismo de massa de baixo custo e mais foco em visitantes de maior poder aquisitivo. “Os hotéis cinco estrelas em todo o país têm taxas de ocupação muito boas. Ainda há espaço para crescer nesse segmento.”

Segundo ele, o crescimento não virá de milhões de novos turistas, mas de um aumento dos gastos por visitante. Para isso, será necessário oferecer produtos mais exclusivos, desde gastronomia diferenciada até experiências temáticas e pacotes completos.

Essa é justamente a estratégia que o Algarve pretende seguir, afirma André Gomes. “Queremos oferecer produtos cada vez mais sofisticados aos nossos visitantes, seja na gastronomia, no golfe, nas caminhadas costeiras ou nos passeios de barco.”

Na sua avaliação, os tempos em que o número de turistas crescia em vários milhões por ano ficaram definitivamente para trás. Nem Gomes nem a hoteleira Sofia Maia lamentam essa mudança.

– Se o crescimento tivesse continuado nesse ritmo, haveria o risco de partes do país serem tomadas por turistas – afirma a empresária do Porto.E, segundo ela, isso acabaria prejudicando mais do que ajudando a própria indústria do turismo.

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