Rio de Janeiro, 25 de Setembro de 2026

Nova rede de satélites da Rússia eleva preocupação na Ucrânia

Moscou acelera desenvolvimento de rede própria de internet via satélite após perder acesso aos terminais da Starlink de Elon Musk. Tecnologia virou ativo estratégico na guerra.

Sexta, 25 de Setembro de 2026 às 11:01, por: CdB

Moscou acelera desenvolvimento de rede própria de internet via satélite após perder acesso aos terminais da Starlink de Elon Musk. Tecnologia virou ativo estratégico na guerra.

Por Redação, com DW – de Moscou

A Rússia está acelerando o desenvolvimento de sua própria rede de internet via satélite após sofrer um revés no campo de batalha na Ucrânia no início deste ano com a perda do acesso clandestino aos terminais da Starlink. 

Ucrânia afirma que a Rússia estaria acelerando a implantação da nova rede de internet via satélite

O serviço da empresa SpaceX, do bilionário Elon Musk, é conhecido por sua capacidade de prover acesso rápido e estável à internet em quase qualquer lugar do mundo. Amplamente utilizado pelas tropas ucranianas na guerra, ele é fundamental para a operação de drones e mísseis e a comunicação tática.

Isso porque, num campo de batalha moderno, é preciso enviar e receber grandes volumes de dados, como transmissões em vídeo de drones. E problemas de conectividade, ainda que durem segundos, podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma operação.

– A Starlink era tão importante que os russos tentaram durante muito tempo usá-la para seus próprios propósitos militares – afirma à agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW)  Clayton Swope, diretor de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). “A Rússia não tinha nada que pudesse competir com isso.”

É aí que entra a Rassvet (do russo “aurora”), aposta do Kremlin para reduzir sua dependência de tecnologias estrangeiras e obter capacidades semelhantes às oferecidas pela Starlink.

A rede alternativa é desenvolvida pela empresa russa aeroespacial Bureau 1440, e já preocupa autoridades ucranianas.

Starlink

A Starlink funciona como um provedor de internet baseado no espaço. Diferentemente dos sistemas tradicionais, que utilizam um número relativamente pequeno de satélites em órbitas elevadas, a rede da SpaceX opera milhares de satélites na órbita baixa da Terra.  

Pequenos terminais em solo se conectam ao satélite que estiver passando sobre a região, permitindo acesso à internet mesmo quando torres de telefonia são destruídas, cabos de fibra óptica são cortados ou tropas operam em áreas remotas.  

Como explica Swope, no início do conflito, a Ucrânia chegou a levar vantagem sobre a Rússia justamente porque tinha acesso à rede Starlink e a Rússia, não.

Satélites russos

No final de março, a Bureau 1440 levou a órbita seus primeiros 16 satélites de banda larga, capazes de prover conexão de até 1 gigabite por segundo. Hoje já são 31, e a meta é ter 292 deles em operação até 2027, segundo a Radio Free Europe. 

Mas a capacidade dos satélites Rassvet é muito inferior à dos equipamentos mais modernos da SpaceX, como aponta o astrofísico e historiador espacial Jonathan McDowell. 

– A atual geração da Starlink tem cerca de 100 gigabits por segundo. A próxima geração terá dez vezes mais do que isso. Até mesmo o sistema OneWeb, disponível na Europa, tem cerca de 10 gigabits por segundo. Portanto, o Rassvet está na extremidade inferior da capacidade desses sistemas de megaconstelações de internet por satélite – explica.

Além da capacidade inferior, o Rassvet também enfrenta desafios técnicos. Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), a primeira leva de satélites lançada em março atingiu a altitude prevista. Já um segundo lançamento, realizado em julho, ficou abaixo do esperado, tendo alcançado entre 300 e 400 quilômetros de altitude.

Isso importa porque quanto mais alta a órbita de um satélite, maior é a área que ele é capaz de cobrir na Terra. E como eles ficam em movimento, cada aparelho só consegue prover uma pequena janela de conectividade sobre uma área determinada à medida que ele se desloca. É por isso que são necessários vários satélites, muito mais dos que a Rússia dispõe agora, para obter uma boa cobertura.

Swope vê com ceticismo as ambições do Kremlin de criar sua própria Starlink. “A grande questão é se isso acontecerá. Nem sequer é quando”, afirma. 

Ele aponta que alguns satélites tiveram “falhas completas” e não estão “nas órbitas corretas esperadas”. “Neste momento, a utilidade de um sistema como esse é muito pequena, oferecendo uma janela muito curta de cobertura apenas algumas vezes por dia sobre a Ucrânia”, diz.

Além disso, a conectividade ainda dependerá de terminais, que terão de ser produzidos em larga escala pela Rússia, e de estruturas de controle operacional na Terra resilientes a ataques ucranianos.

Ucrânia 

Apesar das claras limitações do programa russo, McDowell avalia que a rede não precisa necessariamente igualar a Starlink para ter utilidade militar.

Segundo ele, mesmo uma infraestrutura menos avançada pode ajudar em comunicações militares e coordenação de drones no campo de batalha.

O vice-chefe da inteligência militar da Ucrânia, Vadym Skibitsky, alertou que a Rússia estaria acelerando a implantação da nova rede.

– Eles já começaram os lançamentos muito mais rapidamente do que o planejado originalmente. Por enquanto, o sistema só pode operar de forma intermitente, quando um satélite passa sobre nosso território. Quando a Rússia implantar uma constelação completa de satélites, o sistema funcionará como a Starlink. Já há discussões sobre como neutralizá-lo – afirmou.

Corrida global por alternativas à Starlink.

A guerra na Ucrânia reforçou a percepção de que a internet via satélite se tornou um ativo estratégico.

A principal lição tirada por muitos governos do conflito é que é arriscado depender da infraestrutura de uma única empresa privada em cenários de conflito.

A China desenvolve suas próprias megaconstelações de satélites e estuda há anos as vantagens militares proporcionadas pela Starlink. A União Europeia investe bilhões no projeto Iris², uma rede soberana de comunicações via satélite. Já a Amazon trabalha no Projeto Kuiper, concorrente americano da Starlink.

Para Swope, a dependência global da SpaceX ainda é grande. “Existe hoje uma dependência global da SpaceX para lançamentos espaciais e para conectividade, como a Starlink. Há essencialmente apenas um concorrente neste momento. É uma empresa europeia, a OneWeb, que não tem nem de longe a capacidade da Starlink”, afirma.

Diante desse cenário, a expansão de projetos como Rassvet, Iris² e Kuiper sugere o início de uma nova corrida espacial. Desta vez, o foco não é a exploração do espaço, mas o controle das comunicações globais e das capacidades militares associadas a elas.

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