Rio de Janeiro, 18 de Agosto de 2026

Mujica e Francisco: sintonia com o povo

Por Maria Fernanda Arruda Para se fazer ouvir e entender um líder político precisa necessariamente conhecer a linguagem que o povo fala, assim, compreendida por ele. Ou então, que não fale,e também não será líder.

Sexta, 20 de Maio de 2016 às 08:57, por: CdB

Enquanto presidente, Mujica recebia 230 mil pesos mensais, doando quase 70% para o seu partido, a Frente Ampla, e também a um fundo para construção de moradias

Por Maria Fernanda Arruda - do Rio de Janeiro:
Para se fazer ouvir e entender um líder político precisa necessariamente conhecer a linguagem que o povo fala, assim, compreendida por ele. Ou então, que não fale,e também não será líder. Nisso, os especialistas do “marketing político” não se destacaram, deixaram de transmitir uma arte que só a proximidade ensina. Não se trata aqui sobre o jargão populista: a linguagem para o povo deve servir para divulgar uma mensagem que interesse a ele e que se comprove verdadeira. Getúlio Vargas teve o carisma do discurso que fazia aos “trabalhadores do Brasil”. Mas foi homem de outros tempos. Dirigia o Brasil, assentado no Palácio do Catete, mas andava a pé pelas ruas do Rio de Janeiro, tendo apenas Gregório Fortunato à sua sombra. Se, na tribuna do Estádio de São Januário, ele falava, ao sair pelas ruas do Catete(bairro do RJ), ele ouvia. Lula tornou-se o símbolo do líder político identificado com o povo, o inevitável,ele era povo. Sempre falou em linguagem do povo e pensando neste. Tão radical nisso que, mais do que aos senhores do Sistema Financeiro, ofendeu aos coronéis do mundo formado pela casa grande & senzala. Lula foi e é o avesso do avesso de seu antecessor direto, “príncipe dos sociólogos”, diferenciado em tudo e equívoco cometido por muitos. Além do próprio intelectual da Maria Antônia, a República de 1985 já havia produzido Jose Sarney, Collor de Mello e Itamar Franco. Antes deles, duas décadas de generais habituados às vozes de comando de “ordem-unida”. Lula eletrizou o povo, tinha cheiro de povo, ouvidos e gestos de povo. Era o povo no Poder, sem intermediários. Isso sobreviveu ao mundo de Brasília?
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Maria Fernanda Arruda Antes de assumir a presidência, Pepe definiu como prioridade os seguintes temas: educação, segurança, meio ambiente e energia
Não têm sido poucos os momentos em que a ausência da voz do velho Líder provoca saudade. Em Brasília não há esquinas, não há ruas, não há povo. Se não há povo, não havendo ruas e, portanto, não existindo esquinas, um líder político, em Brasília, dialoga com quem? Ele não dirige o seu próprio automóvel e nem interrompe a sua marcha para fazer carinho no rosto de uma criança. É inevitável: ao mencionar essas duas ausências de possibilidades para busca de sintonia, lembram-se as figuras de Pepe Mujica e de Francisco I. Enquanto presidente, Mujica recebia 230 mil pesos (cerca de R$ 22 122) mensais, doando quase 70% para o seu partido, a Frente Ampla, e também a um fundo para construção de moradias. Mora em uma chácara em Rincón del Cerro, zona rural de Montevidéu, onde cultiva flores e hortaliças e para ele o restante que sobrava do seu salário (30 mil pesos mensais, cerca de R$ 2 800) era o suficiente. Dono de um cão tripé e de um velho Volks besouro, egresso de uma prisão que durou 14 anos, pois que foi um guerrilheiro tupamaro (guerrilheiro marxista-leninista). Antes de assumir a presidência, Pepe definiu como prioridade os seguintes temas: educação, segurança, meio ambiente e energia. Também colocou como um objetivo primordial de sua administração a erradicação da miséria e a redução da pobreza em 50%. Logo após sua chegada à Presidência, a primeira lei que chamou a atenção foi a descriminalização do aborto. A segunda lei progressista aprovada foi a do matrimônio igualitário, de abril de 2013. A legislação permite a adoção também aos casais homossexuais e que a ordem do sobrenome dos filhos seja decidida pelos pais. O Uruguai também fez possível o ingresso de homossexuais nas Forças Armadas. A terceira lei que fez voltar os olhos para o Uruguai foi a legalização da maconha, permitindo que se cultive e possua a erva para consumo individual, como em outros países, mas agora sob controle do Estado. “O que é que chama a atenção mundial? Que vivo com pouco, em uma casa simples, que ando em um carrinho velho, essas são as notícias? Então este mundo está louco, porque o normal surpreende”. Mujica, com essa observação, admite tacitamente que Brasília é um mundo louco, o mundo em que governantes de um País vivem em palácios e mansões, praticam atos sofisticados nas suas mesas e nas camas, são movimentados em carros blindados de alto luxo, servidos por extensas criadagens, e preservados por exércitos de guarda-costas. E é verdade: Brasília é a cidade que se diferenciou para abrigar gente “diferenciada”. Quanto ao Papa Francisco I: um Papa argentino? Recebendo uma Igreja canonizada pelos dogmas recitados no Credo, a carta-magna extraída do Concílio de Trento, ele se dispôs a abrir as janelas e as portas. Recebe os mendigos, dá comida e roupa a eles, conversa com eles. Sai pelas ruas de Roma, andando sobre os próprios pés, que não calçam Prada carmim. Ele não mora numa casa simples e nem dirige um carro popular. Mas, ao viajar, leva com suas próprias mãos a pasta, com seu aparelho de barbear, algumas anotações e um livro de leitura de viagem. O que Francisco diz não é um dogma, é a verdade: todos somos homens, somos iguais. Nenhum político de Brasília faz ou mesmo sabe fazer isso.
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Podemos lembrar a essa altura de Roberto Campos (eleito Senador por MT), um homem do Poder, que o frequentou desde os anos de 1950, atravessando os governos de Vargas e de JK, os anos conturbados de Jango, tendo serviço por bom tempo à Ditadura. Apeado do poder, Campos permaneceu incógnito por alguns meses, afinal reaparecendo em crônica magistral, publicada em jornal; viviam-se tempos em que mesmo os crápulas eram alfabetizados e cultos. Vale resumir o que ele contou sobre o seu dia-seguinte, fora do Poder: “Hospedado em hotel, não tendo mais acomodação na península dos Ministros, desci com minha bagagem, me perguntando: o que faço para sair daqui, como usar serviço de táxi, onde comprar um bilhete, como processar o meu embarque? E, depois de muitos ensaios e erros, chego a São Paulo: como me dirigir ao meu apartamento, no centro da cidade? Desisti e tratei de buscar o socorro de uma casa de repouso. O meu mundo havia caído ...”. Não se deve esquecer que o uso e gozo do Poder Político corrompem, e sempre foi assim, desde tempos imperiais. Não apenas com a possibilidade de aceitar e ofertar vantagens ilícitas, com a prática do “dando é que se recebe”. Há e muito significativa a subserviência dos que pretendem agradar aos poderosos, os que lhes transportam as pastas e os barbeadores dos que são os importantes do dia. A vaidade, assim inflada diariamente amortece as mentes e os sentidos e os senhores do poder político desabituam-se do mundo dos mortais. E eles passam a experimentar tempos e espaços que não são os comuns àqueles que um dia serão finados. Sem prejuízo dessa constatação, há que reconhecer em Brasília a exacerbação do culto ao Poder. Em Brasília, definitivamente, os políticos não estão sintonizados com o povo brasileiro. A capital federal não permite qualquer forma de “sintonia” com os cidadãos. Nem mesmo um relacionamento indireto, através da imprensa, quando os jornalistas foram substituídos por dezenas e centenas de repórteres e fotógrafos e equipamentos de TV, armados com seus gravadores, produzindo assuntos pautados previamente e desenvolvidos extensivamente pelos que tomam os microfones por seus eleitores. Onde a origem das distorções tão lastimáveis? Ela pode ser localizada no momento de transferência da Capital da República, do Rio de Janeiro para Brasília. As prendas então ofertadas aos que aceitaram a permuta das praias pelo inóspito cerrado foram perpetuadas e agigantadas. Os três Poderes da República foram amesquinhados pelas facilidades: os três dias de trabalho, a multiplicação de verbas adicionais, a instalação das Excelências em gabinetes que sugeriam o empreguismo e o nepotismo, com a quantidade assustadora de assessores e assessoras de cama ,mesa e banho'. Em Brasília foi sendo aceita a prática do deboche: até que um senador da República desafiou a tudo e a todos, nomeando, como sua assessora no encaminhamento de uma CPI, uma atriz de filmes pornográficos. E, se a um senador é dado esse direito, por que não a um Ministro? Desde os tempos anacrônicos da União Democrática Nacional (UDN ), os políticos abrigados por ela e selecionados no âmbito das elites sempre falaram em nome do povo, daquele que não pretenderam nunca conhecer e muito menos respeitar. Hoje, há um Congresso Nacional, frequentado por uma escória lastimável, que pretende falar pela Nação e pratica crimes nojentos em nome do povo. Uma constatação do óbvio: são deputados e senadores que foram eleitos por voto popular. Onde o equívoco, onde o erro? Desse Povo? Por certo que não. Que os políticos assumam que, por desinteresse, não possuem mais sintonia com o povo: faltam-lhes a casinha simples, o carro popular, a roupagem limpa e descuidada dos que querem conteúdo e firmeza nos objetivos. Recentemente, Lula admitiu a necessidade de falar mais ao povo e especialmente aos jovens. Prezado Lula: é necessário escutá-los, que eles não estão aceitando o que está sendo feito por aquele que já foi a sua referência. Venha para cá, fique conosco Companheiro, pois o Brasil está sendo transformado em “republiqueta de bananas”. PS: Viva, dom Pepe Mujica pelo seu aniversário hoje! Muita vida com saúde para continuar ensinando ao mundo como simplesmente se vive. Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras.
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