Rio de Janeiro, 24 de Julho de 2026

Moradores dos EUA tentam barrar expansão de data centers

Construção de centros de dados em todo o território dos EUA, impulsionada pela IA, gera danos ao meio ambiente, à saúde pública e ao abastecimento de energia. 

Sexta, 24 de Julho de 2026 às 11:02, por: CdB

Construção de centros de dados em todo o território dos EUA, impulsionada pela IA, gera danos ao meio ambiente, à saúde pública e ao abastecimento de energia. 

Por Redação, com  DW – de Washington

Quando obras para a construção de um grande data center da Amazon começaram no pequeno condado rural de Frederick, em Maryland, a ativista local Elizabeth Bauer não se preocupou muito.

Em todo o território dos EUA, os moradores estão saindo às ruas para protestar contra os data centers

Porém, quando o projeto original foi expandido em cerca de mil acres além dos planos originais, invadindo áreas verdes e terras agrícolas sem levar em conta a comunidade, a situação mudou de figura.

Junto de outros moradores, Bauer deu início a protestos contra a proximidade do canteiro de obras às áreas residenciais, o que, segundo ela, está causando poeira e poluição, o que agrava problemas de saúde como a asma na população local.

– Não tenho nada contra os data centers, desde que estejam no local certo. O que não aceito é que eles ocupem terras agrícolas de primeira qualidade – disse Bauer.

Protestos

A reação contra os data centers vem se intensificado nos Estados Unidos, com manifestações em todo o país exigindo que políticos democratas e republicanos tomem medidas.

A região que abrange Maryland, Virginia e o distrito de Columbia tem sido um ponto nevrálgico. Só na Virginia, há hoje cerca de 640 data centers registrados.

Esses conflitos ocorrem não apenas na fase de construção das instalações, mas também dizem respeito aos impactos a longo prazo. Data centers exigem enormes quantidades de energia para funcionar – o equivalente ao consumo de eletricidade de 100 mil residências, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Mas os que estão em construção poderiam consumir 20 vezes mais, em grande parte devido ao aumento da demanda por recursos de armazenamento e processamento de dados necessários para dar suporte ao desenvolvimento e ao uso da inteligência artificial.

No geral, os data centers representam 4,4% do consumo de energia dos EUA, mas um estudo realizado pelo banco de investimentos Goldman Sachs projeta um aumento de até 8,5% até o final de 2027.

Água e eletricidade

A disputa em Frederick reflete tensões em todo o território dos EUA. O país já abriga 4,6 mil centros de dados – cerca de mil a mais do que os 10 países seguintes no ranking mundial dessa estatística juntos.

Quase 40% dos norte-americanos vivem em um raio de cinco milhas de pelo menos uma dessas instalações, e esse número provavelmente aumentará, já que mais de 1,5 mil outras instalações estão em construção. Em nenhum outro lugar do mundo a concentração é maior do que no norte da Virginia.

Tudo isso está ocorrendo em um contexto de descontentamento. Uma pesquisa recente da Gallup indica, por exemplo, que 71% da população se opõe à implantação de data centers em suas comunidades.

Os data centers podem consumir até 5 milhões de galões de água por dia (o equivalente ao consumo de uma cidade de 50 mil habitantes). No entanto, não é incomum que sejam construídos em áreas com escassez hídrica. De acordo com o monitor de secas dos EUA, o condado de Frederick está passando por uma severa escassez de chuvas.

Segundo Francesca Dominici, professora de bioestatística da Escola de Saúde Pública de Harvard, as empresas de tecnologia costumam ignorar essa questão.

– Eles não estão levando em conta as questões hídricas, de forma alguma – diz ela à agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW). “Os donos priorizam os locais onde podem adquirir o terreno por um preço mais baixo e onde haja políticos que deem a aprovação o mais rápido possível.”

Poluição

Preços da eletricidade nos Estados norte-americanos com alta concentração de data centers registraram um aumento de 267% nos últimos cinco anos.

– Concessionárias de energia elétrica estão construindo um grande número de novas linhas de transmissão para atender essas instalações – conta Hannah Wiseman, professora de direito ambiental da Universidade da Pensilvânia. “Mas os custos dessas linhas de transmissão estão sendo repassados aos consumidores.”

Também há a preocupação de que os data centers possam sobrecarregar a rede elétrica, o que significaria que a necessidade de suprir a demanda extra com geradores a diesel. No caso da comunidade de Frederick, o centro planejado contaria com 99 desses equipamentos, que além disso acarretam riscos à saúde.

– A exposição a partículas finas, mesmo em níveis baixos, [implica] um risco maior de malformações congênitas, doenças respiratórias, cardiovasculares e neurocognitivas, além de mortes prematuras – pontua Dominici, da Universidade de Harvard, acrescentando que também ameaçam a fauna local e prejudicam o crescimento e o rendimento das plantas.

Como data centers são regulamentados?

Apesar dos efeitos negativos sobre as comunidades, Wiseman diz que a localização dos data centers é, em grande parte, supervisionada no âmbito municipal e que muitos estados oferecem às empresas um ambiente regulatório que permite um desenvolvimento rápido, independentemente da proximidade com as pessoas ou com a natureza.

– Muitas administrações locais optaram por não definir regras sobre o uso do solo; nesse caso, uma empresa desenvolvedora de data centers pode, basicamente, fazer o que bem entender –  acrescenta a professora da Universidade da Pensilvânia.

Em nível federal, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reduziu a burocracia para a criação de data centers como parte de um decreto de 2025 intitulado “Eliminando Barreiras à Liderança Americana em IA”.

Muitas empresas de tecnologia têm insistido para que as autoridades locais assinem acordos de confidencialidade, diminuindo a transparência e impedindo comunidades de compreender a magnitude dos projetos e as consequências do consumo generalizado de recursos.

Assim, em vez de buscar a opinião dos moradores, eles estão trabalhando diretamente com as autoridades municipais para elaborar seus planos.

Wiseman também observa que as empresas de tecnologia e desenvolvimento estão colaborando cada vez mais com os governos estaduais no estabelecimento de normas de zoneamento e de consumo de energia.

– Elas têm participado de todos os processos regulatórios estaduais para criar tarifas especiais de energia elétrica para esses centros de dados – diz a especialista. “Parece que as empresas de tecnologia estão se envolvendo cada vez mais nas diversas propostas legislativas estaduais para restringir o poder de decisão das administrações municipais”.

Construção de data center em Arizona, nos Estados Unidos

Como as empresas estão reagindo?

Embora as empresas de tecnologia argumentem que os data centers dinamizam as economias locais, um estudo da Universidade de Michigan constatou que essas estruturas geram empregos temporários na construção civil para as comunidades locais, mas não vagas de longo prazo na área de tecnologia.

Porém, há sinais de que essas empresas estejam buscando construir uma relação de confiança com as comunidades. Em março, a Microsoft deixou de utilizar acordos de confidencialidade com governos locais para o desenvolvimento de data centers, afirmando que desejava construir uma relação de maior confiança com os vizinhos. E a Meta afirma que está testando e utilizando concreto de baixo carbono na construção de seus data centers.

Dominici afirma enxergar “um caminho para o futuro em que todos saiam ganhando”, que combina avanço tecnológico com benefícios para a população. “Eu adoraria ver uma avaliação científica apartidária de todo o impacto, e que o data center pudesse agir com o objetivo de minimizar esse impacto tanto quanto possível”, diz ela.

Protesto em Frederick, Maryland, contra expansão de data centers

Acionando os freios, ao menos temporariamente.

Os protestos locais parecem ter surtido efeito. Na semana passada, Nova York se tornou o primeiro Estado dos EUA a suspender a construção de novos data centers de grande porte por até um ano. Também foram propostas moratórias em outros estados, e alguns condados e municípios promulgaram suas próprias proibições temporárias.

Em Frederick, Bauer e outros ativistas continuam a se opor à construção da estrutura em sua vizinhança. Eles coletaram assinaturas suficientes para propor que a lei fosse submetida a um referendo nas eleições do condado, embora qualquer possibilidade de isso acontecer tenha sido rejeitada pela Suprema Corte de Maryland.

O condado reagiu suspendendo temporariamente a construção de novos centros de dados, mas Bauer considera que o processo democrático falhou com os moradores de Frederick.

– O cidadão comum não tem chance – diz ela. “Todo esse esforço não foi para lutar contra os data centers, mas para dar voz às pessoas”.

Apesar dos desafios, ela ainda vê esperança. Segundo a ativista, há candidatos ao conselho do condado nas próximas eleições que se opõem à expansão. “Se o novo conselho assumir o cargo, poderá revogar essas medidas”, argumenta ela. “Estamos decepcionados, mas não vamos desistir.”

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