Rio de Janeiro, 01 de Setembro de 2026

Martha Rocha: “A pauta das mulheres não é discurso de eleição, é a minha vida”

Uma única mulher comandou até hoje a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro em toda a história da instituição: a delegada Martha Rocha, atualmente no exercício do seu terceiro mandato consecutivo como deputada estadual. Somados os 31 anos de carreira como policial – iniciada em 1983, como escrivã – e os últimos 12 anos como parlamentar, Martha Rocha acumula 43 anos de vida pública.

Terça, 01 de Setembro de 2026 às 11:18, por: CdB

São mais de quatro décadas de dedicação, destacadamente, à segurança pública, mas também de atenção a outras áreas essenciais, como as de saúde e educação. Prova disso são os mais de 800 projetos por ela apresentados, dos quais 440 foram aprovados e transformados em lei.

 

Por Ricardo Gouveia – do Rio de Janeiro

Em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, a deputada delegada Martha Rocha (PDT-RJ), que é cria do bairro da Penha, na Zona Norte do Rio; filha de pais portugueses donos de padaria; e candidata nas próximas eleições a uma cadeira na Câmara Federal, afirma: “Segurança pública se faz com planejamento, rigor na lei e a firme decisão política de não negociar com a criminalidade”. Ela fala também da sua ação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) que serviu de base para o pedido de impeachment do então governador Wilson Witzel, comenta a importância da asfixia financeira das facções criminosas para enfraquecê-las e defende a presença total do Estado nas comunidades para a chegada imediata dos serviços básicos.

Martha Rocha
A delegada Martha Rocha (PDT) é candidata a um mandato na Câmara dos Deputados, após três mandatos consecutivos na Alerj
Leia, adiante, a íntegra da entrevista:

Durante a sua gestão como chefe da Polícia Civil do RJ, foi inaugurada, em 2013, a Cidade da Polícia, um dos maiores complexos policiais da América Latina, que centraliza as unidades especializadas, garantindo mais integração e eficiência às investigações. Cite outras relevantes iniciativas daquele período, no que diz respeito ao fortalecimento da força policial para a elucidação dos casos e redução dos índices de criminalidade?

Durante a minha gestão na Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, a prioridade foi modernizar a instituição, valorizar o servidor e estruturar a inteligência policial. Além da inauguração da Cidade da Polícia, fortalecemos as Delegacias Especializadas e de Atendimento à Mulher (DEAMs) para garantir um protocolo técnico rigoroso na proteção das mulheres. Reequipamos os laboratórios de perícia, reforçamos a Divisão de Homicídios, com a inauguração da DH Niterói/São Gonçalo, e investimos em inteligência e tecnologia para instruir os inquéritos com provas robustas.

No comando da Polícia Civil, unimos valorização operacional, respeito aos direitos humanos e reconhecimento ao policial. Aumentamos o vale-alimentação da categoria, que estava há anos sem qualquer reajuste, garantindo mais dignidade no dia a dia da tropa. Promovemos também um dos maiores ciclos de recomposição de quadros da história da instituição, ofertando mais de três mil vagas em concursos públicos e acelerando a formação na Acadepol. Ver o Maracanãzinho lotado com milhares de novos policiais e suas famílias foi uma das maiores emoções da minha vida pública: era o reforço imediato que a segurança do Rio precisava.

Ao mesmo tempo, garantimos um atendimento mais humanizado no balcão das delegacias. Reformulamos os protocolos com capacitação na Academia de Polícia para agilizar as medidas protetivas e evitar a revitimização. Pioneiramente, formalizamos o direito de pessoas trans e travestis registrarem a ocorrência com seu nome social em todas as delegacias do estado, assegurando que o respeito e a dignidade estivessem presentes em cada atendimento policial.

 

A sua ação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) como presidente da Comissão Especial da Covid, que apurou o desvio de R$ 1,7 bilhão em contratos na área da saúde, serviu de base para o pedido de impeachment do então governador Wilson Witzel. O que fazer para que o eleitor acredite na política como um caminho de mudança, se a corrupção não cessou nem mesmo durante tamanha calamidade humana decorrente da pandemia?

Entendo perfeitamente a desconfiança do eleitor. Como policial por mais de 30 anos e como deputada, também senti indignação e vergonha ao ver que a ganância não parou nem diante da tragédia que foi a pandemia. Mas o próprio exemplo da Comissão da Covid mostra o caminho: a política não é toda igual. Quando presidi essa comissão na Alerj, fiz o meu dever com rigor e coragem. Nós fiscalizamos, apontamos o desvio do dinheiro público e o nosso relatório deu a sustentação para afastar o ex-governador. A política é ferramenta de transformação. Se a boa política não ocupar os espaços, a corrupção continua. A resposta contra o desânimo não é o abandono da política, é a escolha de quem tem história, ficha limpa e coragem de combater a impunidade.

 

Já que neste momento da entrevista o assunto é corrupção, o Correio do Brasil gostaria de um comentário seu sobre o cometimento desse tipo de crime no âmbito da Alerj, inclusive com prisão de parlamentares.

A corrupção no parlamento é uma vergonha para o Rio, mas a minha postura sempre foi de combate, sem tolerar a impunidade ou proteger colegas de plenário. Nas operações Cadeia Velha (2017) e Furna da Onça (2018), quando a Alerj votou se soltava ou não os parlamentares investigados por esquemas de corrupção, votei firmemente pela manutenção de todas as prisões. A minha conduta é a mesma de hoje. Quando a Polícia Federal prendeu o deputado Thiago Rangel, acusado de esquema de propina na Secretaria de Educação e envolvimento com uma facção criminosa, fui ao Conselho de Ética pedir a abertura do processo de cassação do seu mandato por quebra de decoro. O mandato parlamentar é para servir à população. Quem comete crime precisa responder na Justiça, e o meu voto no parlamento sempre foi e sempre será para punir os corruptos.

 

A senhora também presidiu outras duas CPIs, a do Feminicídio e a de Combate à Violência Cibernética contra Mulheres. Quais foram os resultados alcançados pelas duas comissões? Aliás, fale de sua atuação no combate à violência contra as mulheres em 31 anos de vida pública.

A pauta das mulheres não é discurso de eleição, é a minha vida. Ao longo da minha carreira na Polícia Civil, fui delegada titular de diversas DEAMs e diretora do Departamento Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM). Quando cheguei à chefia da instituição — sendo a primeira mulher a ocupar o cargo —, uma das minhas prioridades foi a reestruturação e o aprimoramento do atendimento às vítimas em todo o estado: onde não havia DEAM, ampliei os Núcleos de Atendimento à Mulher nas delegacias comuns e capacitei os policiais para um acolhimento humanizado.

Na Alerj, levei essa experiência prática para a atividade parlamentar. Presidi a CPI do Feminicídio, que resultou em leis estaduais em vigor — como a obrigatoriedade do Formulário de Avaliação de Risco (Frida), para diagnosticar o perigo e evitar tragédias, e a garantia do kit vestuário no IML, garantindo dignidade à mulher no exame pericial —, além de impulsionar a criação de núcleos de feminicídio nas Delegacias de Homicídio e cobrar recursos para a Patrulha Maria da Penha. Também presidi a CPI da Violência Cibernética, a primeira do país sobre o tema, estabelecendo protocolos para a polícia rastrear e punir com rapidez crimes digitais, como o vazamento de fotos íntimas e a perseguição virtual. São 31 anos de vida pública com a mesma marca: lei dura, cobrança de estrutura e proteção real para as mulheres.

 

A seu pedido, uma auditoria foi aberta no Tribunal de Contas do Estado (TCE) para investigar indícios de desvio de dinheiro público (mais de R$ 18 milhões foram gastos) pelo ex-governador Claudio Castro que, entre 2023 e 2026, em caráter particular, fez mais de 225 voos em jatinhos e helicópteros oficiais. Na sua avaliação, qual é a responsabilidade do último governo pela grave situação econômica e de insegurança pública hoje enfrentada no Estado Rio de Janeiro?

O uso de mais de R$ 18 milhões em voos oficiais para compromissos particulares é o retrato do governo desastroso de Cláudio Castro. Aliás, ainda aguardo os desdobramentos da ação no TCE e no Ministério Público.   A responsabilidade dessa gestão pela crise econômica e pela escalada da violência no Rio é direta e inquestionável. Na segurança pública, faltou planejamento, inteligência e investimento na ponta — nas delegacias e no policiamento ostensivo —, alimentando o fortalecimento do crime organizado. Na economia, a falta de austeridade aprofundou o rombo orçamentário. Minha postura na Alerj sempre foi rigorosa: o mandato existe para fiscalizar, exigir transparência e cobrar responsabilidade na Justiça.

Essa irresponsabilidade com o dinheiro público atingiu o ápice no desrespeito com os servidores. Apesar das repetidas promessas, o governo Cláudio Castro não pagou a recomposição salarial aprovada por lei, empurrando o calote nos ativos, aposentados e pensionistas, uma dívida que só começou a ser quitada agora, na gestão do governador em exercício Ricardo Couto. Como se não bastasse, tentaram sangrar o fundo previdenciário: como presidente da Comissão de Servidores Públicos da Alerj, acionei o Tribunal de Contas e o Ministério Público para barrar a transferência ilegal de R$ 2,7 bilhões do Rioprevidência, medida que veio logo após a tentativa de retirar outros R$ 4,9 bilhões do fundo. Usar verbas previdenciárias para cobrir dívidas do Estado é um desvio de finalidade grave que ameaça quem trabalhou a vida inteira pelo nosso estado.

Não parei na denúncia: nosso mandato atuou para criar soluções permanentes. Fui uma das autoras da Lei 11.193/26, uma conquista fundamental após o absurdo investimento de quase R$ 1 bilhão do fundo no Banco Master. A nova legislação impõe transparência total e regras rígidas de controle, obrigando o Rioprevidência a publicar relatórios semestrais, detalhando onde cada centavo está aplicado, os custos das carteiras e as instituições financeiras envolvidas. O dinheiro do servidor público é sagrado e nunca mais poderá ser tratado com irresponsabilidade.       

 

As organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas no Rio ampliaram as suas ações (para roubo de cargas, controle da venda de gás e fornecimento de sinal de internet nas comunidades…) e, disputando belicamente o controle territorial com as milícias, se expandiram, inclusive, chegando a outros estados. O que deve ser feito para enfraquecer, tanto o tráfico quanto as milícias, e reduzir o gravíssimo patamar de insegurança pública que atinge o país?

O avanço das organizações criminosas sobre o controle de serviços essenciais, como a venda de gás, o fornecimento de sinal de internet e o roubo de cargas, mostra que o crime se transformou em uma estrutura financeira complexa. Para enfraquecer tanto o tráfico quanto as milícias, não cabem soluções improvisadas nem discurso demagógico: a resposta precisa ser técnica, integrada e focada na asfixia financeira.

É fundamental promover a asfixia financeira dessas facções, integrando as inteligências policiais com o Coaf e a Receita Federal para bloquear bens, fechar empresas de fachada e interromper a circulação do dinheiro ilícito. Além disso, precisamos reforçar a integração nas divisas, unindo a Polícia Civil, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal para barrar a entrada de fuzis e munições que alimentam a guerra pelo controle territorial.

Outro ponto decisivo é a garantia da presença total do Estado nas comunidades. A ação da segurança pública deve abrir caminho para a chegada imediata de serviços básicos, como iluminação pública, transporte regularizado e assistência social, retirando das mãos dos criminosos o poder de exercer domínio sobre a população. Por fim, nada disso funciona sem o fortalecimento da ponta, o que exige investimento contínuo em inteligência, pericial técnica, tecnologias de investigação e valorização dos policiais que estão na linha de frente. Segurança pública se faz com planejamento, rigor na lei e a firme decisão política de não negociar com a criminalidade.

 

Como foi a sua experiência de ter ficado à frente da Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro, por 14 meses, período em que esteve licenciada do cargo de deputada estadual?

Estar à frente da Secretaria Municipal de Assistência Social durante esses 14 meses foi uma experiência transformadora e de intenso trabalho no coração das políticas públicas da nossa cidade. Me licenciar  temporariamente da Alerj para assumir essa missão foi uma escolha pautada pelo compromisso de colocar a gestão pública a serviço daqueles que mais precisam, levando eficiência, acolhimento e dignidade às famílias em situação de extrema vulnerabilidade. Só tenho a agradecer ao ex-prefeito Eduardo Paes pela oportunidade.

Ao longo dessa jornada, priorizamos a estruturação de ações concretas e a inovação na ponta. Lançamos o Cartão da Primeira Infância Carioca, garantindo um auxílio mensal de R$ 200 focado na segurança alimentar e na proteção de cerca de 30 mil famílias. Para aproximar o poder público das populações mais isoladas, colocamos em prática o CadMóvel, levando o atendimento do Cadastro Único diretamente às comunidades. Criamos também uma unidade residencial especializada para o acolhimento de jovens meninas, reforçando nossa rede de proteção social.

Na nossa gestão, um dos maiores desafios da pasta foi ampliar o atendimento à população em situação de rua. O acolhimento institucional na rede municipal registrou uma alta de 269% nos primeiros sete meses de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior. O número de atendimentos saltou de 12.366 para 33.279 por conta da intensificação das abordagens.

 

Após três mandatos como deputada estadual, mais uma reeleição para o parlamento estadual parecia, em tese, bastante alcançável, tendo em vista que nas eleições de 2014, 2018 e 2022, recebeu, respectivamente, 52 mil, quase 49 mil e 61 mil votos. A que se deve a sua decisão de tentar uma vaga para a Câmara Federal, aliás, disputadíssima, com 778 candidatos para as 46 cadeiras destinadas ao Rio?

Decidi disputar uma vaga na Câmara dos Deputados porque sei que o Rio de Janeiro precisa de uma voz com experiência comprovada em Brasília. O caminho da reeleição na Alerj seria o mais confortável, mas entendo que as principais decisões sobre leis penais, recursos da segurança e orçamento federal acontecem no Congresso.

Me sinto plenamente preparada para esse desafio. Trago a bagagem de 31 anos de serviço público dedicados ao nosso estado (como delegada, chefe da Polícia Civil e secretária municipal) somados à experiência de três mandatos na Alerj, onde sempre atuei com rigor na fiscalização, no combate à corrupção e na defesa da segurança pública, das mulheres e dos servidores públicos.

O Rio de Janeiro não pode abrir mão de parlamentares testados na gestão pública, que conheçam a fundo a realidade do estado e tenham coragem para defender nossos direitos e atrair os investimentos que o Estado tanto precisa.

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