O roteirista Mehdi Mahmoudian do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, indicado para o próximo Oscar, foi preso em Teerã por ter assinado um manifesto contra o ditador Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana. Isso não é novidade no Irã, o realizador desse mesmo filme, Jafar Parahi, já passou um longo período na prisão, e se retornar ao Irã, está condenado a um ano de prisão, mesmo se ganhou a Palma de Ouro na França.
Por Rui Martins, editor do Direto da Redação.

O Irã acaba de viver um revolta popular, na qual morreram mais de 30 mil pessoas, segundo a imprensa européia, executadas quando manifestavam nas ruas. Foram dias de repressão nos quais as ruas se avermelharam de sangue, sendo preso quem tentasse ajudar os feridos.
Revolta popular, censura de filme, prisão de artistas nos lembram os anos da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores. Embora não tivesse havido tantas mortes como as cometidas nestas últimas semanas pelos chamados Guardiães ou Guardas da Revolução, como eles chamam a polícia da ditadura criada em 1979 pelo aiatolá Khomenei, transformada numa teocracia sanguinária.
Faz alguns dias, a União Européia declarou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista, responsável pelo massacre da rebelião popular. Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os torturados no DoiCodi pelo coronel Brilhante Ustra tivessem raptado seu torturador.
E por que este comentário, se a imprensa já deu a notícia? Porque existem dentro da esquerda brasileira alguns líderes ou gurus contando outra história sobre a revolução popular do povo iraniano, aceitando a versão da ditadura iraniana afirmando terem sido agitadores de fora que provocaram o governo, invertendo a realidade como faziam os militares na época da nossa ditadura.
Nem o líder da esquerda francesa Mélenchon aprova o regime religioso iraniano, ditadura islâmica, defendendo um governo laico para o Irã, mesmo porque, logo depois da implantação da teocracia iraniana, em 1979,comunistas, socialistas e homossexuais foram perseguidos e mesmo mortos pelo aiatolá Khomeine.
Outro absurdo que meus companheiros de esquerda aceitam no Irã é os homossexuais serem encorajados pelo governo para fazerem operação para mudar de sexo, a fim de não serem punidos e perseguidos.
Sou de esquerda e acho uma estupidez uma feminista ou um homossexual defender a ditadura teocrática iraniana e quem é de esquerda apoiar um ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! A religião não é mais o ópio do povo? Evangélicos e islamitas são farinha do mesmo saco!
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.