Rio de Janeiro, 30 de Julho de 2026

Interesses comerciais da Fifa geram oposição global

Proposta de vender participação dos direitos comerciais da Copa para investidores por US$ 20 bilhões gera críticas de federações, dirigentes e especialistas,...

Quinta, 30 de Julho de 2026 às 13:32, por: CdB

Proposta de vender participação dos direitos comerciais da Copa para investidores por US$ 20 bilhões gera críticas de federações, dirigentes e especialistas, que apontam riscos à governança e à autonomia do futebol.

Por Redação, com DW – de Washington

“Enquanto vocês dividem, nós unimos”, escreveu Gianni Infantino nas redes sociais em 27 de julho, em uma longa mensagem dirigida a seus críticos. Um dia depois, porém, o presidente da Fifa conseguiu unir diferentes setores do futebol internacional contra sua mais recente proposta.

A proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump alimenta questionamentos sobre conflitos de interesse no plano da Fifa de atrair investidores privados

Após reportagens publicadas pelos jornais britânicos The Times e Financial Times, a Fifa confirmou planos para criar uma nova subsidiária, a FIFA Forward Enterprise (FFE). A estrutura permitiria à entidade vender uma participação minoritária dos direitos comerciais da Copa do Mundo a investidores privados por cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões).

Entre os potenciais investidores estaria a Thrive Eternal, empresa liderada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Por que o projeto gera controvérsia?

Além das preocupações com possíveis conflitos de interesse decorrentes da proximidade entre Infantino e Trump, críticos apontam falta de transparência, riscos de corrupção e questionam se a Fifa tem legitimidade para tomar uma decisão dessa dimensão sem ampla consulta às entidades do futebol.

– A Copa do Mundo é um dos poucos eventos esportivos verdadeiramente globais, e isso envolve uma responsabilidade que vai além da maximização de receitas – afirmou Bret Myers, professor de negócios esportivos da Universidade Villanova, nos Estados Unidos, à agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) .

A proposta segue um modelo comum nos esportes americanos, nos quais a participação de investidores privados é amplamente aceita. A Fórmula 1 passou por um processo semelhante após ser adquirida pela Liberty Media, em 2017. Greg Maffei, ex-presidente-executivo da companhia, atua atualmente como conselheiro comercial da Fifa no projeto da FFE.

– Os esportes da América do Norte operam há muito tempo sob uma lógica mais comercial, baseada em propriedade privada, valorização de franquias e presença de investidores – disse Myers. “No futebol, especialmente na Europa, clubes e competições ainda são vistos como instituições culturais, e não apenas como ativos comerciais.”

Para muitos críticos, a principal preocupação é que a iniciativa represente o primeiro passo rumo a uma eventual privatização da principal competição do futebol mundial.

– Uma participação minoritária é muito diferente de abrir mão do controle – afirmou Myers. “Ainda assim, trata-se de uma mudança significativa na forma como a Copa do Mundo será financiada e explorada comercialmente.”

Embora seja formalmente uma organização sem fins lucrativos, a Fifa acumula reservas estimadas em US$ 8 bilhões (R$ 40 bilhões), impulsionadas pelos resultados da última Copa do Mundo.

Como a missão declarada da entidade é promover o desenvolvimento do futebol, e não maximizar lucros, críticos interpretam a medida também como uma tentativa de ampliar a influência política de Infantino. Outro foco de insatisfação é a ausência de consultas prévias às confederações continentais.

Como a Fifa pretende viabilizar a proposta?

A instituição afirma que os recursos serão reinvestidos no futebol. O principal incentivo oferecido às federações é um repasse linear de US$ 20 milhões (R$ 102 milhões) para cada uma das 211 associações nacionais em 2027, valor que subiria para US$ 24 milhões (R$ 122 milhões) em 2035.

As federações têm até 19 de setembro para informar se aceitam o plano. Caso contrário, esses valores poderão ser reduzidos ou até retirados.

– O presidente controla um enorme volume de recursos e os utiliza para recompensar quem lhe é leal e punir quem não o apoia – afirmou Miguel Maduro, ex-presidente do Comitê de Governança, Auditoria e Conformidade da Fifa.

Segundo ele, a falta de mecanismos eficazes de controle e fiscalização levanta dúvidas sobre a destinação dos recursos.

– A Fifa poderia fazer muitas coisas positivas com esse dinheiro. Mas não existe um sistema adequado de freios, contrapesos e prestação de contas que garanta que os recursos sejam bem utilizados pelas associações nacionais. Tudo o que aconteceu no passado me deixa desconfiado sobre como esse dinheiro acabará sendo gasto – disse.

Reação negativa

A resposta do futebol internacional foi majoritariamente crítica. Federações nacionais, dirigentes e grupos de torcedores rejeitaram a proposta, sobretudo pela falta de consultas prévias.

A Confederação Asiática de Futebol (AFC) afirmou não ter sido consultada e declarou decepção com a forma como o projeto foi apresentado. Ásia e África formam a principal base política de Infantino, reunindo 101 das 211 associações filiadas à Fifa.

Posições semelhantes foram adotadas por federações influentes, entre elas a Federação Alemã de Futebol (DFB).

– Uma linha está sendo ultrapassada. Existe um forte consenso entre as associações nacionais sobre esse tema, como pude constatar em conversas recentes com Aleksander Ceferin e outros colegas – afirmou Hans-Joachim Watzke, vice-presidente da DFB.

– Se o futebol europeu permanecer unido contra esses planos, isso terá grande peso.

A Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) disse estar “profundamente preocupada” com a proposta.

Já a Confederação Africana de Futebol (CAF) convidou suas associaçõesa “examinar” o projeto da Fifa e a “participar do processo de consulta”.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) não se manifestaram até o momento. Anteriormente, a entidade sul-americana demonstrou apoio à reeleição de Infantino.

Quem lidera a oposição?

A União Associações Europeias de Futebol (Uefa) afirmou que “o futebol não pertence à Fifa para ser vendido”. A manifestação ocorre em meio ao aumento das tensões entre as duas entidades nos últimos meses.

Segundo a imprensa europeia, a Uefa deve discutir o tema em uma reunião nos próximos dias.

Miguel Maduro apoia a posição da entidade europeia, mas argumenta que os problemas de governança vão além da atual gestão da Fifa.

– Não acredito que a Uefa enfrente problemas tão graves quanto os da Fifa, mas ela também possui falhas significativas de governança que precisam ser corrigidas – afirmou.

– Substituir apenas Infantino, sem mudar a estrutura que produz esse tipo de liderança, seria remover algumas maçãs estragadas e deixar a árvore intacta.

O que pode mudar no futebol?

As críticas da AFC e da Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, Central e Caribe, podem reforçar a posição da Uefa em uma eventual articulação contra o projeto.

O episódio também pode estimular uma aliança entre confederações continentais para apoiar um adversário de Infantino nas próximas eleições da Fifa ou até levantar a possibilidade de boicotes a competições futuras.

Ainda assim, os valores prometidos às federações podem alterar o cenário político. Maduro avalia que esse tipo de resistência costuma perder força com o tempo.

– Na maioria das vezes, essas declarações surgem sob pressão da opinião pública. Depois, as organizações acabam não levando suas posições adiante – disse.

Segundo ele, a crescente oposição da Uefa também está ligada à defesa de seus próprios interesses econômicos, especialmente da Liga dos Campeões. Caso o projeto avance, Maduro acredita que a Fifa tentará ampliar ainda mais o alcance e a frequência de suas competições.

– Eles vão querer transformar o Mundial de Clubes na principal competição internacional entre clubes, superando a Liga dos Campeões. É isso que tentarão fazer porque estará alinhado aos seus interesses comerciais – afirmou.

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