Imperialismo, precarização do trabalho e reeleição de Lula são os desafios da educação privada na luta de classes em 2026.
Por Railton Nascimento Souza – de Brasília
A luta de classes no Brasil contemporâneo assume contornos cada vez mais nítidos em diversos setores da economia. No campo da educação, de um lado, os grandes conglomerados educacionais e seus representantes no Congresso Nacional. De outro, aproximadamente 1,5 milhão de trabalhadores da educação privada, entre professores e técnicos-administrativos, pressionados pela precarização crescente e pela ofensiva patronal. Nesse cenário, a disputa pela educação se converte em uma das trincheiras decisivas do embate entre capital e trabalho.

Essa dinâmica não ocorre no vazio. Ela é perpassada por um contexto geopolítico adverso. O governo Donald Trump intensifica a pressão sobre a América Latina, e o Brasil tem sido alvo prioritário dessa ofensiva. Recentemente, os Estados Unidos oficializaram a classificação das facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida, defendida pelo senador Flávio Bolsonaro — traidor da pátria —, é uma provocação imperialista direta à soberania nacional. Ao confundir propositalmente terrorismo com criminalidade comum, o governo estadunidense tenta criar pretextos para ingerência externa. O governo Lula já manifestou repúdio à decisão e articula, no âmbito do Mercosul e da Celac, uma resposta coordenada da região. Longe de representar fragilidade, o episódio expõe a disposição do atual governo em não se curvar aos ditames de Washington.
A essa pressão soma-se o ataque deliberado ao sistema financeiro brasileiro. O governo Trump retomou as críticas ao Pix, numa clara defesa dos monopólios estadunidenses do setor de pagamentos. A acusação contra o Banco Central é falsa e escancara o objetivo real: inviabilizar uma ferramenta popular, gratuita e que tira o lucro das gigantes americanas. A ameaça vem por meio de uma lei de retaliação econômica dos Estados Unidos, que autoriza o país a impor tarifas e outras sanções contra quem adotar políticas consideradas desleais. O império já propôs tarifas de 25% sobre os produtos brasileiros para nos forçar a desmontar o PIX. O movimento não é casual. A meta é desestimular Colômbia, Peru e outros países da região que ousem seguir o exemplo brasileiro. Trata-se de uma ofensiva contra a soberania financeira e digital da América Latina.
A reeleição
Diante dessa conjuntura internacional adversa, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 se coloca como um elemento central para a manutenção de um ciclo virtuoso de soberania, democracia e crescimento no âmbito de um projeto nacional de desenvolvimento. A resolução política do 16º Congresso Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) estabeleceu como tarefa central “batalhar por nova vitória da aliança liderada por Lula em 2026”. Na mesma direção, o 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou o manifesto “Construindo o futuro: Manifesto do PT para seguir transformando o país”, no qual define a reeleição de Lula como “eixo central da tática política” do partido. Os documentos também ressaltam que a disputa presidencial deste ano será acirrada, o que exige o engajamento imediato de todas as forças democráticas, patrióticas e populares. Sob a liderança de Lula, o Brasil tem reafirmado sua soberania diante das potências, recusando a política de submissão automática aos interesses externos. O presidente já declarou que “esse país não adotará mais a política de vira-lata diante das grandes potências”.
No plano doméstico, a ofensiva do capital tem se manifestado de múltiplas formas. A financeirização da educação privada, denunciada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), transformou a formação das novas gerações em mercadoria sujeita à valorização financeira. Grupos empresariais controlam não apenas instituições de ensino da educação básica e superior, mas também editoras e materiais didáticos, subordinando o ato educativo à lógica e ideologia do lucro.
O novo marco regulatório da Educação a Distância, instituído pelo Decreto nº 12.456/2025, criou a figura do “mediador pedagógico”. Em tese, trata-se de um profissional com formação de nível superior, responsável por atividades típicas da docência: esclarecimento de dúvidas, contribuição no planejamento pedagógico e acompanhamento da aprendizagem. No entanto, a patronal tem insistido em classificar essa função como “técnico-administrativa”, numa clara manobra para aplicar à atividade docente condições contratuais e remuneratórias inferiores às previstas para o magistério. A Contee já se posicionou contrariamente, afirmando que o mediador pedagógico integra a categoria docente, mas a pressão sobre os sindicatos para que aceitem esse enquadramento espúrio permanece intensa.
Essa manobra se insere num movimento mais amplo de flexibilização dos direitos trabalhistas. A Lei da Terceirização (13.429/2017) e a Reforma Trabalhista (13.467/2017) aprofundaram a mercantilização da força de trabalho ao legalizar a terceirização da atividade-fim e ao criar modalidades contratuais como o trabalho intermitente. A pejotização e a terceirização ilimitada fragmentam as categorias. O trabalhador no regime PJ perde toda a cobertura da CLT: férias, 13º salário, FGTS, aviso prévio, jornada regulada. Destroem-se direitos e a proteção sindical. O valor da força de trabalho docente e técnico-administrativa é pressionado e aviltado.
No terreno legislativo, a ofensiva neoliberal se manifesta com clareza. Após a Câmara dos Deputados aprovar a PEC 221/2019, que estabelece a redução da jornada para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1, o senador Rogério Marinho (PL-RN) apresentou imediatamente uma PEC alternativa, a 12/2026. A proposta, apelidada de “PEC da Escravidão”, institui um regime de trabalho por hora, no qual acordos individuais prevalecem sobre acordos coletivos e os benefícios trabalhistas se tornam proporcionais às horas trabalhadas. O próprio Marinho admitiu não haver limite de horas nesse regime: “Se você quiser trabalhar 20 horas, 30 horas, 40 horas, 50 horas, é possível”. A proposta de uma tal “liberdade de escolha” do trabalhador é uma grande mentira, pois será exercida em condição de disparidade de armas, pressão patronal e risco de desemprego.
6×1
A classe trabalhadora, no entanto, não tem permanecido passiva. Em abril de 2026, a Marcha da Classe Trabalhadora reuniu milhares de pessoas em Brasília, organizada por todas as centrais sindicais, com uma pauta que incluiu o fim da escala 6×1, a garantia da negociação coletiva, a regulamentação do trabalho por aplicativos e a ampliação dos investimentos em educação pública. A Conclat 2026 aprovou 68 propostas que orientarão a ação sindical para os próximos anos.
Na educação privada, a resistência se organiza. A Contee, confederação que coordena a luta nacional e dá suporte aos sindicatos e federações das categorias, atua no Congresso Nacional e nas instâncias superiores de negociação. Não substitui as entidades de base, mas as fortalece politicamente. Entre outras, a entidade tem pautado três bandeiras centrais: a valorização profissional, com reposição salarial justa e condições dignas de trabalho; a efetiva regulamentação do setor privado de ensino e sua inclusão em um sistema nacional de educação que ainda está por se consolidar no país; e o aprimoramento das leis trabalhistas e educacionais e o devido enquadramento do setor privado segundo o que preconizam.
A conjuntura é difícil, mas não é imutável. A ofensiva do imperialismo norte-americano, a PEC da escala flexível e a tentativa de descaracterização da função do mediador pedagógico são faces de um mesmo movimento: a tentativa de submeter ainda mais o trabalho ao capital, em escala global e local.
Cabe à classe trabalhadora organizada, por meio de seus sindicatos e de suas centrais, lutar e resistir a esse movimento. Cabe defender com prioridade máxima a reeleição de Lula como garantia da consecução de um projeto nacional, democrático e avançado para o país. Cabe, sobretudo, construir a unidade das categorias, porque nenhuma conquista será dada sem muita luta.
A hora é de organização, mobilização e enfrentamento. Não de isolamento. Vamos à luta, com alegria, coragem e certos da vitória!
Railton Nascimento Souza, é professor de filosofia, presidente do PCdoB Goiânia, presidente da FitraeBC (Federação Interestadual dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino do Brasil Central) e coordenador-geral da Contee (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino).
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