Pesquisa mediu consumo em unidades de THC, análogo às doses de álcool, e encontrou quantidade semanal a partir da qual o risco de desenvolver transtornos aumenta significativamente.
Por Redação, com DW – de Londres
Um estudo publicado na revista da Sociedade para o Estudo da Dependência Química na segunda-feira estimou qual é a dose semanal de maconha a partir da qual há um aumento significativo do risco de desenvolver transtorno por uso de cannabis (TUC).

Estima-se que 22% dos consumidores de maconha em algum momento sofrerão de TUC. O transtorno ocorre quando alguém não consegue mais controlar adequadamente o uso da maconha, apesar dos problemas evidentes na vida cotidiana. Normalmente, os compromissos com a escola, o trabalho ou a família são negligenciados, e ocorrem sintomas de abstinência, como inquietação ou distúrbios do sono, quando se tenta parar de consumir a droga.
A pesquisa chefiada pela psicóloga e pesquisadora de dependência química na Universidade de Bath, no Reino Unido, Rachel L. Thorne, definiu que cada unidade de tetrahidrocanabinol (THC), responsável pelos efeitos psicoativos da maconha, equivale a 5 miligramas. O objetivo foi ter uma medida análoga à usada para medir o consumo de doses de álcool.
O estudo concluiu que o consumo de 6 unidades de THC (30 mg) por semana por adolescentes e 8,3 unidades por adultos (41,3 mg) é suficiente para o desenvolvimento de sintomas de TUC. Caso o consumo seja superior a 6,45 unidades (32,2 mg) por adolescentes e 13,4 unidades (67 mg) por adultos, há risco de transtorno moderado a grave.
“Este artigo representa o que acreditamos ser a primeira tentativa de determinar os limites de risco de TUC por unidades padrão semanais de THC consumidas”, afirmam os pesquisadores, que reconhecem que outros fatores, além da frequência e quantidade, também podem aumentar o risco de um indivíduo desenvolver sintomas de TUC.
Ao contrário do álcool, a maconha contém muitos ingredientes ativos cuja interação influencia seus efeitos e riscos. Embora o THC seja o fator de risco mais importante, outros canabinoides e o método de consumo – baseados, vaporizadores ou comestíveis – alteram significativamente a dose e os efeitos.
Mesmo assim, os resultados indicam que o consumo diário de um baseado é o suficiente para o desenvolvimento de TUC em qualquer idade, diz o estudo. Outras pesquisas estimaram que um baseado médio tem cerca de 7 mg de THC.
Diferentes doses para adolescentes e adultos
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores usaram dados do estudo CannTeen, com 85 adolescentes (16 e 17 anos) e 65 adultos (26 a 29 anos) que haviam consumido maconha de forma regular no ano anterior.
O referido estudo entrevistou os usuários cinco vezes ao longo de um ano, e ao final desse período fez um diagnóstico clínico de TUC.
A amostra é pequena, com um total de 150 pessoas, e o teor real de THC dos produtos consumidos teve que ser estimado a partir de fontes externas, pois não havia análises laboratoriais das amostras individuais consumidas.
No entanto, a sensibilidade dos limites de consumo definidos em todos os modelos pela pesquisa publicada nesta segunda-feira demonstrou ser alta, capaz de identificar corretamente 9 em cada 10 indivíduos com TUC.
A controvérsia sobre estabelecer limite do consumo
Os valores limite não substituem a análise médica para o diagnóstico e tratamento, mas podem ajudar na triagem inicial e mesmo orientar consumidores, defendem os pesquisadores.
Os números devem, portanto, serem entendidos mais como orientações iniciais do que como limites rígidos, mas confirmam que quanto maior a ingestão semanal de THC, maior o risco de desenvolver um transtorno por uso de cannabis.
“Essas descobertas podem ajudar no desenvolvimento de diretrizes de menor risco para o uso de maconha, para ajudar aqueles que usam maconha e desejam reduzir o risco de danos, optando por consumir menos THC do que os limites semanais”, diz a pesquisa.
Ou seja, com o estabelecimento de limites de consumo, especialistas podem avaliar melhor o risco ou identificar um distúrbio emergente mais cedo. No entanto, o texto destaca que apenas a abstinência é “segura” quando se trata de evitar desenvolver TUC.
– Os valores limite são geralmente muito úteis para comunicar os riscos para a saúde – afirma Jakob Manthey, do Centro de Pesquisa Interdisciplinar sobre Dependência do Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf (UKE). “[Mas também leva ao] perigo de que o consumo abaixo do limite seja interpretado como inofensivo ou mesmo benéfico para a saúde”, conclui ele, que não participou do estudo.
Consumidores desconhecem teor de THC
Um problema central continua sendo a aplicação prática desses limites: muitos consumidores não sabem o teor de THC de seus produtos, especialmente no caso de cultivo doméstico ou fontes ilegais.
– Com as regras atualmente em vigor, não haverá uma comunicação nacional das unidades de THC, pois os consumidores muitas vezes não têm uma maneira confiável de saber o teor de THC dos produtos disponíveis – diz Manthey.
O neurofarmacologista britânico David Nutt, no entanto, considera que os resultados da pesquisa são um passo importante. Os dados oferecem “uma estimativa de um limite para o consumo semanal para minimizar o risco de dependência”, enfatiza. Ele defende um mercado regulamentado de maconha com unidades de THC claramente rotuladas – semelhante ao álcool. Só assim os consumidores podem realmente controlar seus riscos.
As unidades de THC propostas poderiam, portanto, esclarecer a discussão até então vaga sobre qual o limite do uso “alto” ou “arriscado” da maconha.