Ex-aluna afirma ter sido alvo de assédio moral institucional e perseguição acadêmica; universidade nega motivação ideológica e diz que decisão seguiu normas regimentais.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
A pesquisadora Beatriz Bueno, de 28 anos, afirma ter sido desligada do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades (PPCULT) da Universidade Federal Fluminense (UFF) após sua linha de pesquisa provocar uma série de polêmicas nas redes sociais. A decisão ocorreu em janeiro deste ano. A instituição nega que o desligamento foi justificado por motivação ideológica.

Beatriz desenvolvia um estudo sobre o conceito de “parditude”, que propõe a centralidade da identidade parda no debate racial e defende que pessoas pardas não se enquadram automaticamente na categoria negra.
A abordagem é criticada por setores do movimento antirracista, que a consideram fragmentadora do debate racial.
Em nota publicada em suas redes sociais e no site do projeto de pesquisa, Beatriz afirma ter sido alvo de assédio moral institucional, perseguição acadêmica e manipulação de regras internas do programa:
“É falsa a afirmação da UFF e do PPCULT de que descumpri prazos obrigatórios previstos pelo curso”, escreveu.
Segundo a pesquisadora, os prazos regimentais do programa preveem 18 meses para a qualificação e 24 meses para a defesa, e ela havia cursado apenas nove meses quando foi desligada.
Ainda de acordo com a nota, no momento do desligamento o semestre letivo não havia sido encerrado, as notas das disciplinas não tinham sido lançadas e os prazos finais para entrega de trabalhos ainda estavam em aberto. “Insinuar um jubilamento é totalmente improcedente, uma vez que não havia sequer a formalização do fechamento do semestre”, afirma.
Aluna diz que foi hostilizada por colegas
Beatriz também relata episódios de hostilidade por parte de colegas. Entre eles, a circulação de uma carta coletiva pedindo sua expulsão do programa e um protesto em sala de aula durante a disciplina “Teorias da Cultura”, quando estudantes teriam deixado o espaço no momento em que ela iniciaria a apresentação de um seminário.
– Na disciplina “Teorias da Cultura”, os alunos saíram em massa da sala, com permissão do professor, no momento em que eu iniciaria a apresentação de um seminário, como retaliação às minhas posições públicas – conta.
Ainda segundo a pesquisadora, a turma também sugeriu a criação de eventos com o objetivo de “modificar seus posicionamentos sobre gênero e raça”.
Na nota, ela afirmou que tais atividades inicialmente foram apresentadas pela coordenação como eventos pedagógicos extras, mas posteriormente passaram a ser tratadas como obrigatórias e vinculadas à manutenção de sua bolsa.
– Passei a ser tratada, na prática, como uma criminosa, como alguém sob suspeita permanente e sujeita a correção disciplinar – disse.
Houve também critica às comunicações institucionais que, segundo ela, associaram suas manifestações públicas a “discursos passíveis de criminalização, sem que houvesse qualquer procedimento judicial ou denúncia formal.
“A universidade não detém competência legal para investigar, julgar ou imputar crime a qualquer estudante”, afirma.
A repercussão do trabalho de Beatriz ganhou dimensão nacional após o rapper Mano Brown citar sua pesquisa durante um episódio do podcast Mano a Mano, em maio do ano passado. Desde então, seus vídeos sobre parditude passaram a alcançar milhares de visualizações no Instagram, onde ela soma mais de cem mil seguidores.
Em reportagem anterior, a Agenda do Poder analisou os riscos de abordagens separatistas no debate racial e seus impactos políticos. Para especialistas em relações étnico-raciais, defender um reconhecimento autônomo de pessoas pardas ecoa antigas tentativas de dividir o movimento antirracista e fragilizar políticas afirmativas.
O que diz a UFF?
Procurada pela Agenda do Poder, a Universidade Federal Fluminense afirmou, em nota, que o desligamento ocorreu com base em normas institucionais aplicáveis a todo o corpo discente e negou qualquer relação entre a decisão e o tema da pesquisa desenvolvida pela ex-aluna.
A universidade informou que a decisão foi tomada pelo colegiado do programa, com participação de docentes, representantes discentes e da própria interessada, e que o processo contou com respaldo das instâncias superiores.
Veja a nota na íntegra:
”A Universidade Federal Fluminense (UFF) esclarece que o desligamento da ex-aluna Beatriz Bueno, do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades (PPCULT) ocorreu com base em normas institucionais, cujos critérios são aplicados a todo o corpo discente da Universidade.A decisão, tomada pelo colegiado do Programa, com a participação de docentes, representantes discentes e da própria interessada, teve como fundamento o descumprimento de pressupostos previstos no regimento do PPCULT, especialmente no que se refere à participação e à aprovação nas atividades e disciplinas obrigatórias do curso, não havendo qualquer relação entre o desligamento e o tema de pesquisa desenvolvido pela ex-aluna. O processo contou ainda com o respaldo das instâncias superiores da Universidade, conforme previsto na legislação vigente
A UFF reitera que assegura plenamente o direito ao contraditório e à ampla defesa. Instituição pública reconhecida nacionalmente, a universidade pauta sua atuação pelos princípios da ética, da legalidade, da impessoalidade e da transparência. Quanto ao tratamento de denúncias pela Ouvidoria, via plataforma FalaBR, a universidade, em observância às normas legais, mantém em caráter reservado todas as manifestações e processos em andamento.
Cabe destacar, ainda, que os programas de pós-graduação da UFF são regularmente avaliados por órgãos externos. Nesta semana, avaliação divulgada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) considerou que 81% dos programas de pós-graduação da UFF alcançaram notas de bom desempenho e excelência, o que reafirma o compromisso organizacional com a qualidade acadêmica e administrativa.
Por fim, a UFF repudia quaisquer afirmações que não correspondam aos fatos ou que atribuam à instituição práticas incompatíveis com seus princípios e sua trajetória.”