Entre guerras, fé e ciência, o texto projeta dilemas éticos e sociais de um futuro marcado pela inteligência artificial e pela possível substituição do humano.
Por Abraham B. Sicsú – de Brasília
Páscoa, Pessach, passagem. Comemorações de tempos de mudanças, de transformações, de um mundo que virá, nem sempre decifrável. Tempos de guerra, de violência, de opressão, em que a força supera qualquer razão humanitária. Se conseguirmos ultrapassar, o que nos espera?

Faz tempo li, não lembro bem onde, provavelmente num texto de algum almanaque popular, que a civilização humana passará por três Eras distintas. A dos Mitos, a da Razão e a de Domínio das Máquinas. Ficou na minha cabeça.
A dos Mitos, das lendas e dos inúmeros Deuses, em que tudo era sobrenatural, em que tudo se explicava no Além. Oráculos e profetas orientavam a vida humana, sabiam o que causava e o que viria consultando os Deuses e Entidades.
Deuses específicos seriam nossos sustentáculos para qualquer decisão, sua luz daria orientações seguras para o que viria. As oferendas e penitências, necessárias, seriam o caminho para uma vida mais harmônica e prazerosa. Mesmo sacrificando entes queridos. Nisso havia uma pia confiança.
É substituída pela Era da razão. Na qual ainda estamos, dizem que saindo. Com os sábios gregos dando um ponto de partida. A busca da razão e lógica estruturada, com os princípios da Ciência dando orientações.
O método dedutivo toma corpo, a escrita divulga os ensinamentos, as viagens aproximam povos e costumes, a cidade passa a ser o centro da produção de saber e do conhecimento.
A mitologia é substituída pelo pensamento crítico, a busca de causas observáveis e explicáveis define o rumo que o mundo tomou ou tomará. A dúvida é propulsora de avanços, a abstração dá base para a busca de compreensão dos fenômenos tendo o concreto estudado como seu alicerce. Argumentar, tendo a realidade como parâmetro, o caminho adotado.
A nova Era que vem sendo anunciada é a do Domínio das Máquinas. O futuro, como construção mental, ainda incerto, tem sua lógica orientada pela autonomia que, de maneira crescente, vem se dando às máquinas.
Os primeiros passos calcados no que chamam Internet das Coisas e no que surge com a Inteligência Artificial. Máquinas que interagem e que pensam.
Os avanços que foram dados causam medo, acredita-se que é para um momento muito próximo o que fará que as máquinas ganhem autonomia, poderão, por si, tomar decisões e prescindir do humano como orientador.
Neste período, pensar o futuro seria acoplar a automação e a conectividade absurdamente crescentes com a Inteligência Artificial. Tarefas rotinizadas e operacionais dispensariam o ser humano, mesmo a criatividade teria um papel reduzido do ser humano.
O mundo teria que se reinventar, políticas seriam necessárias para dar sentido ao tempo livre, ao ócio, desta vez, pouco criativo. Com o tempo, o ser humano poderia ser dispensável, sem sentido para a vida terrena. Fundamental o repensar da sociedade e das atividades humanas.
O domínio da máquina sobre o humano tornou-se uma discussão técnica que atinge o futuro do trabalho. A inteligência em seus requintes mais sofisticados passaria a ser da máquina que pode, em muito, ultrapassar a capacidade humana.
As máquinas
O volume de informações existentes só pode ser manipulado por algoritmos potentíssimos que caracterizariam as máquinas. A complexidade dos modelos e dos problemas exigiria uma dimensão de tempo que só é dominada pelas máquinas.
Habilidades superiores e autonomia de decisão permitiriam que as máquinas superassem em muito o indivíduo humano. Narrativas sofisticadas podem ser imaginadas que levem, inclusive, à submissão do humano aos potentes aparelhos agora pensantes.
Um problema ético surge como questionamentos. Existiriam princípios morais que contivessem as máquinas? Se forem autoconscientes como se orientarão? Lembro, anos atrás, de ter participado de Comitês de Ética em Pesquisa Universitária, e ter lido inúmeros casos de que individualmente se ultrapassava qualquer limite em prol do sucesso pessoal. Pode isso ocorrer com as máquinas? A qual princípio de conduta estariam sujeitas?
Do lado dos sentimentos, uma análise que preocupa. Qual a empatia que teriam para com os humanos? A compaixão, fundamental para manter e melhorar condições de vida de populações desamparadas e relegadas ao esquecimento poderia ser induzida ou a racionalidade da “eficiência produtiva e de resultados de curto prazo” fariam com que fossem eliminadas aquelas populações?
Não há dúvida de que o domínio das máquinas irá crescer. Mas, num mundo de ganância e opressão explícita como o que vivemos, um perigo se vê próximo. Ignorá-lo é ingenuidade.
Se tantas guerras são motivadas por interesses meramente econômicos, sem nenhum respeito à vida humana, um mundo dominado pelas máquinas não exacerbaria isso?
Espero que a Passagem de nossas festas que ora comemoramos seja outra, com o fim da sandice das destruições atuais.
Que o Domínio das Máquinas seja controlado e tenha normas rígidas para não fugir de uma sociedade mais equânime e justa para o ser humano. E que se retarde ao máximo a chegada da nova Era a qual vejo difícil de ser monitorada com princípios de empatia.
Abraham B. Sicsú, é professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco).
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil