Elize desperta mais empatia do que outras figuras associadas ao true crime, existindo a leitura possível de que ela reagiu antes de se tornar mais uma vítima de um relacionamento abusivo.
Por Leonardo Varela Milreu – de São Paulo
Marcos Matsunaga foi esquartejado em 2012 e o Brasil ainda não parou de falar sobre isso. É essa obsessão que nós precisamos encarar antes mesmo de ligar a tela para assistir Elize, Sombras de uma Mulher (2026).

A Netflix já havia contado essa história em quatro episódios de documentário em 2021 e agora insiste em reconta-la como ficção, como se cinco anos de silêncio tivessem acumulado algo novo a revelar, quando na verdade o que se acumulou foi apenas a certeza de que essa mulher continua rendendo audiência.
O diretor Felipe Vellas chegou a admitir isso publicamente, ao reconhecer que se tivesse sido um homem cometendo o mesmo crime a repercussão provavelmente não teria sido tão grande. O Brasil vive uma banalização brutal da violência e é justamente nessa fresta aberta pelo próprio diretor que nós encontramos o verdadeiro objeto de análise do filme, que não é o assassinato em si, mas o fascínio que ele desperta por inverter, ainda que uma única vez em meio a milhares de casos, a direção costumeira da violência doméstica no país.
Nós sabemos qual é essa direção costumeira, e sabemos com uma clareza estatística que dispensa qualquer sutileza narrativa, já que o Brasil segue registrando índices alarmantes de feminicídio ano após ano, e é justamente esse pano de fundo que transforma a existência de Elize num acontecimento excepcional o bastante para justificar um documentário e depois um longa de ficção.
O roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres, dupla que já havia trabalhado o gênero em Bom Dia, Verônica (2020), parece perceber esse incômodo e tenta neutralizá-lo pela via da identificação, construindo a protagonista não como monstro, mas como mulher encurralada.
Dentro do contexto brasileiro Elize desperta mais empatia do que outras figuras associadas ao true crime, existindo a leitura possível de que ela reagiu antes de se tornar mais uma vítima de um relacionamento abusivo ou de ser reduzida ao estereótipo da mulher louca. O filme, segundo essa mesma leitura, abraça essa interpretação de forma bastante explícita e não esconde o lado que escolhe defender, o que nos coloca diante de uma escolha estética que é também, inevitavelmente, uma escolha política.
Essa escolha custa caro em complexidade, dado que mesmo entregando uma produção tecnicamente competente e sustentada por ótimas atuações, o roteiro simplifica um caso marcado por zonas cinzentas, restando a sensação de que havia espaço para um olhar menos maniqueísta. Essa é a fragilidade central do filme, mas também não anula seu interesse, porque é exatamente na simplificação que mora a resposta à provocação que abre este texto.
Um filme sobre uma mulher que mata precisa escolher entre o monstro e a vítima, se pensarmos que o imaginário brasileiro, acostumado a noticiar o feminicídio como rotina inevitável do jornal da tarde, não sabe o que fazer com uma mulher que sobrevive matando antes de ser morta, e por isso Elize provoca um desconforto como nenhuma estatística sozinha faz.
Elize
O filme reconstrói bem os fatos, mas não vai além do que já sabemos. Talvez esse seja precisamente o ponto, porque ir além do que já sabemos sobre Elize significaria ir além do que já sabemos sobre a violência de gênero no país, e nenhum roteiro de true crime está mesmo interessado em fazer isso.
A direção de Vellas acerta ao recusar o espetáculo do esquartejamento e há quem tenha reconhecido esse mérito com justiça. Essa opção de câmera, que gruda em Elize e enxerga Marcos do jeito que ela o enxergaria, é o gesto formal que sustenta toda a proposta política do filme, ainda que o roteiro nunca a explicite com essas palavras.
Nós assistimos ao casamento pelos olhos de quem sobreviveu a ele e essa inversão de ponto de vista é rara o bastante no cinema brasileiro sobre violência doméstica para merecer ser discutida, mesmo quando o resultado final não alcança toda a ambiguidade que o caso real carrega.
No fim, talvez a pergunta que deveríamos levar para fora da tela não seja se Elize merece nossa empatia, mas por que precisamos de um filme, depois de um documentário, depois de anos de manchete, para sequer cogitar que uma mulher que mata possa ter uma história e não apenas uma sentença.
O Brasil segue enterrando mulheres todos os dias sem lhes dar roteiro, elenco ou trilha sonora, e reserva a exceção narrativa justamente para o caso em que os papéis se invertem. O filme não resolve esse desconforto e talvez seja exatamente por isso que ele continua valendo a pena ser discutido.
Leonardo Varela Milreu, é comunicador e crítico de cinema.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil