Resultado das urnas expõe o custo político de falar sobre a Amazônia sem construir um diálogo com quem vive nela.
Por Ana Carolina Marsicano – de São Paulo
O mapa do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 deixou um recado que o campo progressista não deveria ignorar. Na região Norte, Flávio Bolsonaro venceu em quatro dos sete estados. Luiz Inácio Lula da Silva ficou à frente em três. Mais importante do que contar estados, porém, é observar o movimento ocorrido entre uma eleição e outra: onde Lula venceu, suas margens diminuíram; onde o bolsonarismo já era forte, sua vantagem cresceu; e no Tocantins houve uma inversão em relação a 2022. O resultado não autoriza conclusões fáceis. O Norte não se tornou, de uma hora para outra, um bloco homogêneo de direita. Pará, Amazonas e Amapá continuaram dando maioria a Lula. Acre, Rondônia e Roraima reafirmaram uma tendência bolsonarista que já estava presente em eleições anteriores. O que chama atenção é outra coisa: o avanço da direita ocorreu praticamente em toda a Amazônia Legal, inclusive em territórios nos quais Lula conseguiu permanecer à frente.

No Amapá, a imagem é particularmente eloquente. A eleição terminou praticamente empatada. No Amazonas, Lula venceu por uma margem relativamente pequena. No Pará, maior colégio eleitoral da região, permaneceu à frente, mas também com redução de sua vantagem. No Tocantins, onde havia vencido Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, Lula perdeu agora para Flávio. Ao mesmo tempo, em Rondônia, Roraima e Acre, as diferenças em favor da candidatura bolsonarista chegaram a dezenas de pontos percentuais. É tentador responder a esse quadro recorrendo a explicações prontas: avanço do agronegócio, conservadorismo religioso, desinformação, expansão das igrejas evangélicas, garimpo, conflitos ambientais. Todos esses elementos importam. Mas nenhum deles, isoladamente, explica o que aconteceu.
Talvez seja necessário formular uma pergunta mais incômoda: quanto custa politicamente falar muito sobre a Amazônia e pouco com o Norte? Durante os últimos anos, a Amazônia ocupa posição central na reconstrução da imagem internacional do Brasil. Combate ao desmatamento, proteção da floresta, transição climática, demarcação de terras indígenas, bioeconomia e realização da COP30 colocaram a região no centro da agenda pública. A diferença entre Lula e o bolsonarismo nesse terreno é substantiva. A política ambiental do governo federal produziu redução importante do desmatamento desde 2023, enquanto Flávio Bolsonaro chegou às eleições propondo flexibilizações e uma concepção distinta de exploração dos recursos amazônicos.
Seria injusto, portanto, dizer que o governo Lula ignorou a região. Também seria factualmente incorreto afirmar que não houve investimentos. Somente em 2025, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes informou ter destinado R$ 3,3 bilhões a obras nos sete estados nortistas. Há intervenções em rodovias, pontes e corredores logísticos. Em maio deste ano, Lula esteve no Amazonas acompanhando obras e anunciando novos investimentos na BR-319, uma das vias mais carregadas de significado político na região. Por isso, o problema não pode ser reduzido à ausência material do Estado.
A questão talvez esteja na distância entre presença administrativa e política. É possível construir estradas, ampliar programas sociais, reduzir o desmatamento e, ainda assim, não conseguir transformar essas ações em identificação política. Políticas públicas não falam sozinhas. Entre uma obra realizada e a percepção de que determinado projeto político representa os interesses de uma população existe uma longa cadeia de mediações: lideranças locais, partidos, igrejas, associações, sindicatos, redes sociais, meios de comunicação, organizações comunitárias e experiências cotidianas. É justamente nessa cadeia que o bolsonarismo parece ter construído uma vantagem importante. Nos últimos anos, a direita produziu uma narrativa extremamente simples para conflitos amazônicos muito complexos: há gente de fora querendo impedir que você trabalhe, produza e desenvolva sua região.
Nessa narrativa, “Brasília”, organizações ambientalistas, ONGs, universidades, organismos internacionais e movimentos sociais podem aparecer reunidos no mesmo campo adversário. A diversidade das situações locais desaparece e dá lugar a um antagonismo bastante eficiente: de um lado, quem vive, produz e trabalha; de outro, quem proíbe, fiscaliza e limita. A força política de uma narrativa não depende apenas de sua correspondência integral com a realidade. Depende também de sua capacidade de organizar experiências dispersas e oferecer uma explicação inteligível para elas. Uma multa ambiental, uma estrada precária, a demora na regularização de uma propriedade, o preço de uma passagem aérea, a dificuldade de deslocar uma produção, a sensação de isolamento em relação ao restante do país ou o custo elevado de alimentos podem não ter a mesma origem. Politicamente, porém, podem ser costurados em uma mesma narrativa de abandono ou impedimento. É aí que uma disputa sobre políticas públicas se transforma em disputa sobre pertencimento.
Amazônia
Parte do campo progressista parece ainda falar sobre a Amazônia a partir de categorias que fazem enorme sentido nacional e internacionalmente, mas que não dão conta de toda a experiência social da região. A floresta existe. Os povos indígenas existem. O garimpo ilegal, o desmatamento e a violência fundiária existem — e são questões incontornáveis. Mas a Amazônia também é Manaus, Belém, Macapá, Porto Velho, Rio Branco, Boa Vista e Palmas. É periferia urbana, mototaxista, comerciário, motorista de aplicativo, empregada doméstica, pequeno empreendedor, agricultor, trabalhador do setor público, jovens tentando ingressar numa universidade e famílias pagando algumas das tarifas aéreas mais caras do país para visitar parentes em outras regiões. Falar com o Norte exige compreender simultaneamente todas essas Amazônias.
Isso significa reconhecer que preservar a floresta e desejar desenvolvimento não são necessariamente posições antagônicas na experiência cotidiana de quem vive ali. O problema aparece quando apenas um dos lados consegue oferecer uma linguagem capaz de unir essas duas demandas. O bolsonarismo tem tentado ocupar esse espaço por meio de uma ideia particular de desenvolvimento: menos regulamentação ambiental, expansão de atividades extrativas, infraestrutura e exploração econômica da floresta. Na eleição de 2026, esse discurso apareceu novamente em candidaturas da região e encontrou forte ressonância em áreas ligadas ao agronegócio e a corredores econômicos da Amazônia Legal. No eixo da BR-163, por exemplo, Flávio Bolsonaro ampliou o desempenho obtido pelo pai quatro anos antes em diversos municípios. Responder a isso apenas dizendo que essas populações estão sendo manipuladas seria um erro político grave.
Quando uma explicação política produz adesão, a primeira pergunta não deveria ser “por que eles não entenderam?”, mas “o que essa narrativa conseguiu nomear que nós não conseguimos?”. É justamente aí que o resultado das urnas deveria provocar reflexão no campo progressista. Talvez a esquerda tenha desenvolvido uma linguagem sofisticada para explicar por que a Amazônia é indispensável para o planeta, mas ainda precise construir, com a mesma intensidade, uma linguagem sobre por que um projeto de proteção ambiental melhora concretamente a vida de quem mora na Amazônia. Essa diferença parece pequena, mas politicamente é enorme.
Não basta dizer que a floresta em pé vale mais. É preciso responder quem recebe esse valor, onde ele circula e de que forma chega à comunidade que vive ao lado da floresta. Não basta anunciar a bioeconomia. É preciso mostrar quem trabalha nela, quanto ganha e qual infraestrutura permite que esse produto chegue ao mercado. Não basta falar de transição energética. É preciso discutir a conta de luz. Não basta defender soberania sobre a Amazônia. É preciso perguntar por que tantas pessoas da região sentem que as decisões sobre seu território continuam sendo tomadas muito longe delas. E não basta aparecer durante uma COP. O resultado eleitoral sugere que existe uma disputa de representação em curso. Ela não está apenas entre direita e esquerda, mas entre diferentes maneiras de dizer quem pode falar em nome do Norte.
O campo progressista tem instituições, movimentos sociais e lideranças profundamente enraizadas na região. Tem organizações indígenas, quilombolas, sindicais, feministas, ambientais, culturais e populares com décadas de atuação. Tem governos locais e quadros políticos importantes. Lula ainda venceu nos dois maiores eleitorados nortistas, Pará e Amazonas. Portanto, não se trata de um território perdido. Mas justamente por isso o sinal das urnas merece atenção. Quando uma candidatura de direita consegue crescer até mesmo onde perde, enquanto consolida percentuais superiores a 60% e 70% em outros estados da região, há algo além de um simples rearranjo eleitoral acontecendo. Há uma disputa por imaginação de futuro.
Flávio e Lula
O segundo turno acontecerá em um país nacionalmente dividido, com Flávio Bolsonaro e Lula separados por poucos pontos percentuais no primeiro turno. Segundo a apuração nacional, nenhum deles alcançou maioria absoluta e a decisão foi transferida para 25 de outubro. Nesse cenário, cada região será novamente transformada em objeto de cálculos eleitorais. Virão viagens, anúncios, apoios e promessas. Mas talvez a principal lição do Norte seja exatamente que o diálogo não pode começar entre um turno e outro. Ele precisa existir antes da eleição, fora da eleição e independentemente dela. Também não pode ser construído apenas entre Brasília e governadores, senadores ou grandes empresários. Precisa passar por quem mora nos bairros periféricos de Manaus e Belém, pelas cidades cortadas por rodovias federais, pelas comunidades ribeirinhas, pelos trabalhadores urbanos, pelos povos indígenas, por pequenos agricultores, professores, comerciantes e jovens que experimentam cotidianamente as contradições de viver numa região fundamental para o país e, ao mesmo tempo, frequentemente tratada como distante dele.
O maior risco para o campo progressista talvez não seja simplesmente perder votos no Norte. É permitir que a direita se consolide como a principal intérprete das frustrações de quem vive na Amazônia. Porque quem consegue nomear um problema já percorreu metade do caminho para convencer alguém de que conhece sua solução. Durante anos, o Brasil aprendeu a dizer ao mundo que a Amazônia importa. O resultado de 2026 coloca outra tarefa sobre a mesa. Não basta colocar a Amazônia no centro do discurso. É preciso colocar o Norte no centro da política.
Ana Carolina Marsicano, é pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp) e pós-doutoranda da Unicamp.
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