Rio de Janeiro, 28 de Maio de 2026

Documento aponta avanço de armas químicas na Coreia do Norte

Relatório revela que a Coreia do Norte possui infraestrutura para produzir armas químicas. Especialistas alertam para o potencial uso em conflitos.

Quinta, 28 de Maio de 2026 às 14:55, por: CdB

Estudo aponta que norte-coreanos mantêm infraestrutura capaz de produzir agentes químicos, embora sem comprovar fabricação em curso. Para especialistas, regime não hesitaria em usá-las caso se sinta ameaçado.

Por Redação, com DW – de Pyongyang

Um novo relatório divulgado na semana passada revelou pistas sobre o programa de armas químicas da Coreia do Norte, combinando informações de mais de 30 mil patentes e artigos científicos.

Documento aponta avanço de armas químicas na Coreia do Norte | Soldado americano durante um exercício químico na Coreia do Sul, em março de 2023
Soldado americano durante um exercício químico na Coreia do Sul, em março de 2023

O relatório publicado no site 38 North foi baseado em pesquisas realizadas no âmbito do Projeto Antracite, liderado pelo think tank de segurança Royal United Services Institute (RUSI), de Londres, que usou dados de código aberto a fim de produzir uma “visão geral em rede” do potencial de armas químicas da Coreia do Norte.

O levantamento destaca que instalações industriais, universidades e instituições de pesquisa governamentais têm os equipamentos e o acesso a matérias-primas adequadas para produzir diversos agentes de armas químicas.

Embora o relatório enfatize que não há comprovação de uma produção em curso de armas químicas pela Coreia do Norte, o documento diz pretender “fornecer uma base de viabilidade e identificar indicadores que merecem ser monitorados”.

“Em conjunto, a conclusão mais surpreendente desta análise não é a presença de uma única ‘prova irrefutável’, mas sim a convergência de múltiplos indicadores distintos que apontam para uma capacidade industrial integrada”, afirma o relatório.

Armas químicas

O fato de a avaliação coincidir com outros relatórios é motivo de preocupação entre os especialistas, especialmente porque Pyongyang já demonstrou uma clara disposição para usar armas químicas.

Em 2017, membros do regime assassinaram Kim Jong-nam, irmão do ditador norte-coreano Kim Jong-un, usando o agente nervoso VX no aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia.

– É absolutamente claro que a Coreia do Norte pode produzir armas químicas e já o fez, sendo o uso do VX em 2017 a confirmação disso – afirmou Margaret Kosal, diretora de estudos de pós-graduação do Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos.

– Comparado a outros programas de guerra química ofensiva, antigos ou supostamente atuais, não sabemos muito sobre o programa da Coreia do Norte – explica Kosal à agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) , salientando que, da mesma forma, pouco se sabe sobre as capacidades nucleares e de guerra biológica do regime.

– Mas, com base no que se pode inferir, eles têm capacidade para produzir grandes quantidades de mostarda de enxofre — frequentemente descrita incorretamente como ‘gás mostarda’ — e alguma quantidade de agentes nervosos – disse Kosal, que assessorou as administrações dos presidentes americanos George W. Bush e Barack Obama sobre as ameaças representadas pelas armas químicas.

– Eles provavelmente conseguem produzir grandes quantidades de agentes nervosos como o sarin. E alguma quantidade de VX. 

Anteriormente, acreditava-se que o programa havia sido concebido como uma “arma nuclear para pobres”, servindo como dissuasão antes que a Coreia do Norte tivesse de fato desenvolvido capacidade atômica. No entanto, o país continua investindo na capacidade de produzir armas químicas, explica.

– O mais provável é que seja usado operacionalmente para dificultar a atuação dos soldados sul-coreanos, inclusive ao longo da fronteira Norte-Sul – disse. “Em caso de conflito, o uso contra centros civis como Seul provavelmente está planejado.”

Toneladas

Acredita-se que a Coreia do Norte tenha entre 2,5 mil e 5 mil toneladas de armas químicas em estoque.

Dan Pinkston, professor de relações internacionais no campus de Seul da Universidade Troy, disse à DW que o regime não hesitaria em usar as armas se avaliasse seu colapso iminente.

– Existe paranoia dentro do regime e a justificativa é que qualquer tipo de capacidade letal serve à sua própria segurança – destacou Pinkston, autor de um relatório para o International Crisis Group sobre os programas de armas químicas e biológicas da Coreia do Norte, publicado em 2009.

Pinkston acredita que, caso um conflito eclodisse na península, as armas químicas seriam usadas antes de um ataque nuclear.

– Um ataque nuclear do Norte seria respondido com uma retaliação esmagadora que acabaria com o regime – disse. “Mas se um conflito estivesse em curso contra o Norte, e as tropas sul-coreanas estivessem avançando sobre Pyongyang, então o Norte poderia usar armas químicas para prejudicar ou atrasar essa operação.”

No campo de batalha, as consequências podem ser terríveis, especialmente entre os civis que não estejam equipados com equipamento de proteção.

– Seria terrível – disse Pinkston. “Infelizmente, temos muitos exemplos, como o Iraque usando armas químicas contra as forças iranianas na década de 1980, a Síria fazendo o mesmo contra rebeldes e populações civis, e também há relatos de que a Rússia as usou na Ucrânia.”

– Alguns dizem que as armas químicas são um tabu porque o que elas fazem ao corpo humano é horrível e indiscriminado, mas a Coreia do Norte não é signatária daConvenção sobre as Armas Químicas (CPAQ) e há exemplos de seu uso dessas substâncias, então não vejo indícios de que eles irão abandoná-las.

Alarme

Ryo Hinata-Yamaguchi, professor associado especializado em assuntos militares na Universidade Internacional de Tóquio, também está alarmado com os dados mais recentes provenientes da Coreia do Norte.

– Isso se baseia em informações de outras fontes, incluindo desertores de alto escalão, então temos que levar isso muito a sério – ressaltou.

– Dito isso, e embora saibamos que o regime é implacável e cruel, não sabemos quão eficazes essas armas serão, incluindo os sistemas necessários para levá-las ao campo de batalha. 

Ele concorda que o regime não hesitaria em pelo menos tentar usá-las para evitar o colapso final.

– Eles demonstraram que não tinham qualquer receio em usar VX em espaço público em 2017, a Coreia do Norte desafia regularmente o direito internacional e acredito que consideram as armas químicas como tendo um impacto psicológico útil – afirmou.

– Acredito que eles usariam qualquer recurso para equilibrar a situação contra um adversário tecnologicamente superior, portanto, de forma preocupante, a probabilidade de a Coreia do Norte usar armas químicas em condições de guerra é bastante alta – reforçou.

Paralelamente, a Coreia do Norte segue com lançamentos de mísseis. Somente em 2026, já foram oito testes, inclusive de mísseis balísticos. Em março, Kim Jong-un disse que o status da Coreia do Norte como potência nuclear é “irreversível” e que o fortalecimento de uma “dissuasão nuclear para autodefesa” é essencial para garantir a segurança do país.

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