Reservatórios operam com pouco mais de um terço do volume útil, chuvas ficam abaixo da média e especialistas falam em risco de redução de vazão, mas não de desabastecimento imediato.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
Os baixos níveis dos reservatórios do sistema Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e de áreas de São Paulo e Minas Gerais, acenderam um sinal de alerta entre especialistas e órgãos de gestão hídrica. Na última medição da Agência Nacional de Águas (ANA), realizada em 19 de janeiro, a chamada média equivalente do Paraíba, formada pelos reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, operava com apenas 33,32% do volume útil.

Segundo reportagem do jornal O Globo, o índice representa quase metade do registrado no mesmo dia de 2025, quando os reservatórios estavam em 65,51%, e figura entre os menores da série histórica iniciada em 1998. O cenário reforça preocupações sobre a segurança hídrica às vésperas do período seco.
“Está acesa uma luz amarela. Corre o risco de haver uma redução de vazão para o Rio de Janeiro, mas não necessariamente de desabastecimento, pelo menos neste momento. Tudo vai depender da chuva”, afirma João Gomes, diretor do Comitê do Baixo Paraíba do Sul e ex-presidente do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Ceivap).
Preocupação com previsões climáticas
Apesar da avaliação cautelosa, João Gomes demonstra apreensão diante das projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O órgão já informou que o verão de 2026 deverá registrar chuvas abaixo da média, especialmente no eixo Rio-São Paulo.
Na Região Metropolitana do Rio, 11 municípios dependem diretamente das águas do Paraíba do Sul. Cerca de nove milhões de pessoas são atendidas pelo sistema Guandu, além de outros 1,8 milhão abastecidos pelo sistema Ribeirão das Lajes, que também utiliza águas do Paraíba e de mananciais complementares.
Cemaden aponta queda expressiva das chuvas
A pedido do Globo, o Cemaden analisou o volume de chuvas nas bacias que alimentam os quatro principais reservatórios do Paraíba do Sul, entre novembro de 2025 e 15 de janeiro de 2026, comparando o período com o mesmo intervalo do ano anterior. Os dados mais recentes de precipitação ainda não foram incorporados ao levantamento.
Na bacia do Funil, no Rio de Janeiro, os índices passaram de 100% para 63% da média histórica. Em Paraibuna, no interior paulista, a redução foi de 102% para 65%. Na bacia do Jaguari, entre Jacareí e São José dos Campos, a queda foi de 98% para 66%. Já em Santa Branca, também em São Paulo, os volumes recuaram de 102% para 64%.
“Sabemos que choveu bastante nestes dias, podem ter sido uns 40, 50 milímetros em média na bacia do Paraíba do Sul, mas, ainda assim, as chuvas continuam no mínimo 25% abaixo do que se espera para o período”, explica a hidróloga Adriana Cuartas, pesquisadora do Cemaden.
Medidas preventivas e redução de limites
Em nota enviada por e-mail, o Ceivap informou que, diante do cenário atual, a ANA, com anuência dos órgãos gestores de Rio, São Paulo e Minas Gerais, propôs medidas preventivas para ampliar a flexibilidade da operação do sistema. A principal delas é a revisão temporária, até 31 de março, do limite mínimo do reservatório do Funil, em Itatiaia, no Sul Fluminense, que pode cair de 30% para 20% do volume útil.
O objetivo, segundo o comitê, é “preservar os estoques e garantir a segurança hídrica para o período de estiagem”. A agência reguladora também solicitou ao Operador Nacional do Sistema (ONS) a atualização das curvas de segurança dos reservatórios do Sistema Paraíba do Sul, como apoio técnico à tomada de decisão na gestão compartilhada da bacia.
Procurada, a ANA afirmou que acompanha permanentemente a operação do sistema e ressaltou que medidas temporárias e preventivas podem ser adotadas “com base em monitoramento hidrológico, projeções e avaliação de risco”, com o objetivo de reduzir impactos à população.
Situação crítica também em São Paulo
Em reportagem publicada na última segunda-feira, também pelo Globo, o coordenador de operações do Cemaden, o meteorologista Marcelo Seluchi, destacou que as chuvas previstas para os próximos dias não seriam suficientes para reverter a situação crítica de escassez hídrica no Paraíba do Sul e no Sistema Cantareira, fundamentais para o abastecimento do Rio de Janeiro e da Região Metropolitana de São Paulo. Segundo ele, o quadro também se mantém desfavorável na Bacia do Paraná, e a estação chuvosa, que se encerra em março, deve seguir marcada por volumes abaixo do esperado.
No início do ano, o Cantareira, principal manancial paulista, operava com 20,2% do volume útil, cerca de 30 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo dia de 2025, quando estava em 50,7%, segundo dados da Sabesp. O volume total do Sistema Integrado caiu de 49,4% para 26,5% no período.
A seca recente produziu imagens marcantes, como áreas de pasto seco e poeirento ocupando trechos antes submersos da represa Jaguari-Jacareí. Em dezembro, o volume chegou a cair abaixo da barreira técnica de 20%.
Cedae afirma operação normal no Rio
A Cedae informou que seus principais sistemas produtores de água operam com capacidade máxima. A companhia destaca que capta água diretamente no leito dos rios, e não em reservatórios, como ocorre em São Paulo.
“Embora não seja o órgão responsável pelo monitoramento dos rios e reservatórios, a Cedae acompanha todos os dados sobre a variação dos níveis dos rios onde capta água e mantém contato com os atores envolvidos na gestão dos recursos hídricos, como o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e a Agência Nacional de Águas”, informou a empresa, em nota.
Também por meio de nota, a Light informou que monitora constantemente seus reservatórios e ressaltou que a geração e a distribuição de energia em sua área de concessão seguem, atualmente, em níveis normais de operação.