Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 2026

Zombarias, política e cartões

Por Luís Carlos Lopes - A metáfora do cartão vermelho fez enorme sucesso, sendo inclusive imitada por seus alvos. Quantos não gostariam de ter o poder do juiz de futebol de expulsar do campo, para ulterior julgamento, àqueles que fizeram violências, agiram contra o decoro social, político e jurídico. (Leia Mais)

Quarta, 02 de Setembro de 2009 às 13:59, por: CdB

Nos últimos dias, chegaram às grandes e pequenas mídias inúmeras menções a fatos ocorridos na vida política e social que remetem aos epítetos de zombarias, chistes, piadas de mau gosto, trotes, violências verbais e sexuais, contestações e adesões aos sensos comuns dominantes. Destacaram-se os as bem conhecidas atuações públicas de alguns senadores da República, de juízes do Supremo e o lamentável trote dado a jovens calouros de determinada faculdade pública e de difícil acesso popular.

Os mais "quadrados", usando-se uma gíria fora de moda, dirão que nada se relaciona e que cada um destes problemas deve ser visto em sua própria dimensão e especificidade. O autor pede licença para discordar. Na sua visão, todos estes problemas dialogam entre si, fazendo parte da "geléia geral" brasileira, citando-se o Gil de um saudoso passado. Obviamente, que cada um desses fatos tem sua especificidade, espaço e contexto. Não há dúvida sobre isto. Todavia, ao mesmo tempo, existem denominadores comuns.

A ampla divulgação pública é de longe algo que une todas essas manifestações. Além disto, em todos os casos-problemas de ordem moral foram escancarados para quem quis ver. Sem ter esta finalidade, os mesmo acontecimentos levantaram o dilema das escolhas e das opções existentes entre o céu e a terra. Comunicaram aos brasileiros que, querendo ou não, precisam ter uma opinião, montar uma visão sobre as questões que lhes são impostas pelas grandes mídias. Caso contrário, o "big brother" decidirá por eles. Aliás, ele está pronto para executar mais esta missão, nada impossível.

Em outras palavras, escolher entre o certo e o errado é algo além do que receber uma notícia, por mais que a mesma seja empurrada goela abaixo, já vir com um manual de instruções a ser seguidas ou com botões a serem apertados. As reações populares, vistas em qualquer bar, esquina ou "papo" e e-mails entre próximos e distantes, demonstraram a relativa independência social da moral que vem do poder, personificada pelas suas instituições mais influentes. Existe no país uma fome de se ter algo além da manipulação e do desejo de se ver algo mais sério no cenário nacional.

A metáfora do cartão vermelho fez enorme sucesso, sendo inclusive imitada por seus alvos. Quantos não gostariam de ter o poder do juiz de futebol de expulsar do campo, para ulterior julgamento, àqueles que fizeram violências, agiram contra o decoro social, político e jurídico. Em suma, o desejo democrático de intervir e poder dizer livremente o que se pensa, mesmo que seus pares não estejam de acordo ou não tenham coragem para tal. O juiz no campo erra muitas vezes, bem como, acerta em inúmeros casos. Pelo menos, ele tem o poder de errar tentando acertar ou de agir prontamente contra os absurdos do futebol e, por vezes, da própria vida.

Os fatos têm sujeitos responsáveis. Não saem da cartola de nenhum mágico. A divulgação pública dos mesmos também acrescenta pontos, como quem conta uma história de segunda mão. Quando eles são muito fortes ou secundados por imagens e sons terminam por ganhar feição midiática, social, política e moral que os individualizam, ao mesmo tempo, os relacionam ao cenário do país como um todo. Seus receptores os "lerão"’ completando o ciclo da mensagem e dando a eles suas versões e interpretações. Ninguém, os pode controlar completamente. Eles vagueiam no turbulento universo virtual e cerebral dos envolvidos em graus distintos.

A justiça tem que considerar a sociologia dos acontecimentos, se não o faz, não é justiça no sentido máximo da palavra, por mais que siga a letra da Lei. São insofismáveis os fatos, sobejamente conhecidos, relacionados aos atos que privilegiam alguns em detrimento de outros. O juiz, quanto maior for sua posição, maior será sua responsabilidade e alcance de suas decisões. A verdade jurídica não pode ser maior, menor ou diferente das que provêm de um exame acurado de suas dimensões históricas, sociais, políticas e morais.

De fato, o cartão vermelho não basta para jovens macho-fascistas que, de acordo com o que saiu na imprensa, odeiam as mulheres e as querem apenas como escravas. Será que ninguém tentou impedir? Nenhum dos participantes discordou do que o grupo estava fazendo? A moça teve que se defender sozinha? Será que foi só com ela? Onde estão seus colegas e amigos? Que jovens são esses? Treme-se ao imaginar que amanhã poderão chegar ao comando do STF. Não é possível entender porque ainda não foram admoestados e sequer foram chamados a uma delegacia. Sem dúvida, é preciso dar um cartão vermelho a um sistema, onde mesmo se o crime é público e notório, aplica-se a chicana jurídica e se absolvem criminosos, se as provas não são, de acordo com interpretações pouco verossímeis, tecnicamente convincentes.

Luís Carlos Lopes é professor, autor do livro Culto às Mídias, dentre outros.

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