Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Wim Wenders homenageia o blues em filme

Terça, 11 de Maio de 2004 às 13:10, por: CdB

Wim Wenders estréia com grande sucesso na Alemanha o filme The Soul of a Man, um documentário no qual o cineasta alemão homenageia o blues no centenário de nascimento deste gênero musical.

Wenders, que em 1999 alcançou grande reconhecimento com outro filme do gênero, Buena Vista Social Club, pela difusão da música cubana, reconstrói neste filme a vida e obra entre 1900 e 1970 de três artistas americanos de blues quase desconhecidos para o grande público: Blind Willie Johnson, Skip James e J. B. Lenoir.

Num relato afetivo e irônico em alguns momentos, o diretor de Paris-Texas (1984) e Asas do Desejo (1987) descreve o extraordinário talento musical destes três intérpretes, a pobreza em que viviam e a profunda religiosidade que os movia.

"Sempre considerei o blues uma música ao mesmo tempo religiosa e mundana e acho que não é correto separá-las (estas duas faces)", disse Wenders, ao apresentar seu filme.

Para o cineasta alemão também é arbitrário separar o cinema da música. "Com Buena Vista Social Club, Óde a Colônia: Um Filme de Rock'n'Rol (documentário de 2002 com o conjunto BAP) e agora The Soul of a Man, fiz três filmes sobre música nos últimos cinco anos e "nunca separei os dois gêneros artístiscos no meu trabalho porque considero que são bons instrumentos para contar histórias", destacou.

"A música sempre foi e é para mim uma parte essencial de um filme e não um mero ingrediente", afirmou Wenders.

As histórias de Johnson, James e Lenoir têm uma assombrosa semelhança entre si. The Soul of a Man é o título de uma das canções de Blind Willie, autor também de Dark was the Night (tema principal de Paris-Texas), que teve grande sucesso no final da década de 20.

"Blind Willie foi um cantor extraordinário que simplesmente ignorou a carreira fonográfica que teria podido empreender para continuar cantando nas esquinas e nas igrejas por esmolas", lembrou Wenders. Segundo o cineasta, ele morreu de pneumonia porque não recebeu atendimento no hospital em que ingressou.

Skip James ganhava a vida como cafetão e destilador clandestino de aguardente, mas também era um talentoso guitarrista e compositor. Resta apenas uma gravação de sua juventude. Quando sua gravadora quebrou, abandonou o blues para se tornar um pregador batista, assim como seu pai.

J. B. Lenoir escreveu textos políticos de protesto e cantou sobre o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, comprometendo seu sucesso comercial. Morreu ainda jovem e na pobreza em meados da década de 60 vítima de homorragias internas provocadas por um acidente de trânsito, sem ter recebido qualquer atendimento.

Em suas duas últimas canções, It must be the Lord e Let me rise from my grave, nas quais se pode apreciar sua profunda religiosidade, Lenoir leva para o blues o presságio de sua morte iminente.

O filme foi rodado no sul dos Estados Unidos e contém algumas cenas de ficção (já que de Blind Willie Johnson não existem nem mesmo fotografias) e material de arquivo, assim como gravações em estúdio com intérpretes de rock e jazz, entre eles Eagle-Eye Cherry, James Blood Ulmer, Lou Reed, Bonnie Raitt, Nick Cave e Cassandra Wilson.

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