Apesar da falta de lógica, o suspense paranormal Vozes do Além, do diretor estreante Geoffrey Sax, demonstra habilidade suficiente para provocar um bom número de arrepios.
O longa-metragem, que estréia na sexta-feira, mergulha no mundo incorpóreo do chamado "outro lado da morte" de uma maneira muito mais convincente do que a maioria dos filmes do gênero, fato que pode acabar por lhe render o status de filme cult.
O projeto poderia ter arranjado uma maneira melhor de explicar o enigma no qual sua trama se baseia: os Fenômenos de Voz Eletrônicos (FVE). Mas mesmo assim, Vozes do Além foi feito com inteligência.
A iluminação cheia de sombras do diretor de fotografia Chris Seager e os cortes e ângulos do editor Nick Arthurs carregam o espectador para uma história que vai ficando mais assustadora a cada minuto que passa.
Michael Keaton é Jonathan Rivers, arquiteto cuja vida mergulha num turbilhão emocional com o misterioso desaparecimento e morte de sua segunda mulher, Anna (Chandra West), escritora de best-sellers.
Enquanto está de luto por ela, Jonathan rechaça um estranho, Raymond (Ian McNeice), que afirma que Anna está tentando se comunicar com ele através de FVE.
Quando Jonathan recebe duas ligações do celular de Anna, que ele sabe estar desligado, ele resolve ir até a casa de Raymond. O que encontra ali é uma sede eletrônica de contato com os mortos. Ele também conhece Sarah (Deborah Kara Unger), que, graças a Raymond, acredita ter feito contato com seu noivo falecido. Os dois começam a estudar os FVE juntos.
O fenômeno dos FVE é apresentado apenas de maneira superficial, mas, em essência, as pessoas que acreditam neles acham que os mortos enviam mensagens constantes para nós, através da tecnologia moderna.
Vozes que ameaçam
O chamado "ruído branco" de som, rádios e televisores pode ser gravado e estudado através de um processo conhecido como transcomunicação instrumental fotográfica ou de vídeo, para detectar tais transmissões.
Na metade do filme, a história quase pára. Jonathan não faz outra coisa senão ficar sentado diante de telas de TV repletas de estática, mexendo com computadores e gravadores, decidido a receber uma mensagem de Anna.
Pouco a pouco o filme vai ingressando numa região fantasmagórica habitada por vozes que ameaçam aqueles que tentam se comunicar com os mortos.
- Eles não podem ser todos legais - comenta Raymond que, pouco depois, aparece morto.
Jonathan acaba tendo a impressão sinistra de que está sendo contatado não pelos mortos, mas por gente que em pouco tempo terá morrido.
O filme aceita como normal a crescente obsessão de Jonathan pelos FVE e não explica por que a polícia em nenhum momento manifesta qualquer interesse pelo número crescente de mortos e feridos na vida de Jonathan.
Ao levar Vozes do Além na direção do terror, o roteirista Niall Johnson coloca a credibilidade da história em dúvida, confunde a questão toda dos FVE e beira a bobagem pura e simples.
Michael Keaton está discreto em seu papel, o que ajuda a manter a credibilidade, e os outros atores do filme também permitem que os fatos misteriosos da história falem por si sós.
Vozes do Além capricha no susto, mas peca pela lógica
Quinta, 17 de Fevereiro de 2005 às 15:51, por: CdB