Com um voto de Minerva, o vice-presidente da Argentina e presidente do Senado, Julio Cobos, derrubou, na madrugada desta quinta-feira, o projeto de lei do governo da presidente Cristina Kirchner que previa o aumento dos impostos às exportações de grãos.
O voto de Cobos foi decisivo após um empate de 36 votos a favor e 36 contra à medida que gera, desde março, uma longa disputa entre o governo e produtores rurais. No fim de uma votação que durou 18 horas, coube a ele o voto de minerva.
– É o dia mais difícil da minha vida – disse Cobos.
– O país está partido e todos estão preocupados. A história me coloca nessa situação. Quero que o governo de Cristina, meu governo, seja o melhor de todos. Mas devo decidir com minhas convicções. O povo pede uma solução para viver em paz – disse o vice-presidente.
Cobos acredita que sua decisão não colocará o governo em risco.
– Há quem diga que devo acompanhar o governo para não colocar a institucionalidade em risco. Mas meu coração diz outra coisa. E não acho que isso coloque o governo em risco. Acho que a presidente vai me entender. A história me julgará, não sei como. Peço a presidente que busque outro projeto – declarou.
Esta é a primeira derrota do kirchnerismo, grupo político que governa o país há cinco anos.
Comemorações
Assim que a votação terminou, depois das 04h00 horário local (mesma hora em Brasília), houve buzinaços, cornetas e gritos de "viva Cobos", em diferentes bairros da capital Buenos Aires.
Os ruralistas, reunidos durante horas, diante de um telão no bairro de Palermo, comemoraram.
– Venceu a democracia. Valeu a pena entrar nesta luta – disse Eduardo Buzzi, presidente da Federação Agrária Argentina.
Ao mesmo tempo, os partidários da presidente deixavam, sem palavras, a praça em frente ao Congresso Nacional, onde também tinham passado o dia e a madrugada erguendo bandeiras e batendo bumbos.
Foi um dia tenso com uma sessão que começou na manhã de quarta-feira e sem a certeza de qual seria o resultado final.
Panelaços
Minutos antes da votação, moradores de diferentes bairros de Buenos Aires voltaram a realizar panelaços diante da expectativa de aprovação da medida. Durante o dia, senadores da oposição afirmavam que apelariam na Suprema Corte de Justiça contra a medida, caso fosse aprovada.
Diferentes analistas observam que o conflito entre o governo e os ruralistas representa um "alto custo político" para a presidente, que assumiu o poder há sete meses e há quatro dedica-se à essa discussão.
– Não se tem memória no país de um presidente que tenha perdido apoio popular tão rápido. A presidente tinha 55% de apoio no início do ano e agora tem 20% – disse Fernando Laborda, colunista político do jornal La Nación.
– Por isso, qualquer que fosse o resultado, não significaria uma vitória para o governo. O desgaste foi grande – completou.
Vigília
Durante a sessão, transmitida ao vivo por diferentes emissoras de televisão, ocorreram momentos surpreendentes. O senador governista Miguel Pichetto, da Frente para a Vitória, insinuou que o governo correria risco se a medida não fosse aprovada.
– Temos que lembrar que um dos motivos da saída de (ex-presidente) Fernando de la Rúa foi a falta de apoio no Congresso – disse.
De la Rúa renunciou em 2001. Senadores da oposição, como Ernesto Sanz, da UCR, afirmaram que a Argentina não voltará a ser mesma depois desta votação.
– Esse resultado apertado mostrou que o poder tem limites no país. Que a democracia funciona – disse.
O governo argumentava que a medida – batizada de "resolução 125" – engordaria o caixa do governo, permitiria a melhor distribuição de renda e ainda impediria que a alta nos preços internacionais dos alimentos chegasse à mesa dos argentinos.
O setor agropecuário é um dos principais braços da economia argentina.
Brasil
Como ocorreu com a votação na Câmara dos Deputados, na semana passada, quando parlamentares aprovaram o projeto de lei por uma diferença de apenas sete votos, senadores citaram o Brasil e sua política agrária.
– Fala-se tanto no Brasil como exemplo. Mas o Brasil é um país com uma das maiores desigualdades do mundo. É isso que queremos copiar? Não podemos pegar o Brasil como exemplo de distribuição de renda – disse o senador Eduardo Torres, da FR Misiones, que votou a favor da medida.
Milagre
A votação ocorreu um dia depois que dois comícios – contra e a favor dos ruralistas – reuniram multidões em dois pontos de Buenos Aires. A presença massiva foi recorde, segundo diferentes analistas, desde o retorno da democracia em 1983.
A proposta do governo, lançada em março, levou à saída do ministro da Economia, Martín Lousteau, e ao aumento da desconfiança no desempenho da economia argentina no mercado internacional.
No mês passado, na tentativa de reduzir a tensão, a presidente decidiu mandar o texto como projeto de lei ao Congresso Nacional.
"O ex-presidente (Néstor) Kirchner fez vários milagres nestes mais de 100 dias de disputas (...). Um deles foi unir a oposição em apoio ao setor rural", escreveu Joaquín Morales Solá, do La Nación. Kirchner foi o principal cabo eleitoral da medida.
Voto de vice de Cristina derruba lei de impostos na Argentina
Com um voto de Minerva, o vice-presidente da Argentina e presidente do Senado, Julio Cobos, derrubou, na madrugada desta quinta-feira, o projeto de lei do governo da presidente Cristina Kirchner que previa o aumento dos impostos às exportações de grãos.
Quinta, 17 de Julho de 2008 às 06:57, por: CdB