Rio de Janeiro, 05 de Outubro de 2026

Viver dia a dia... Acolher... Maior presente para reviver (*)

Terça, 26 de Julho de 2011 às 08:32, por: CdB

Ao conversar com cuidadoras residentes de casaslares de programas de acolhimento e de parceiros na mesma aventura, percebe-seo stress que mães sociais sofrem, e as frustrações que passam na contramão deseus melhores e bem intencionados desejos. Ouvimos dizer que elas estão paradesistir e fugir. Nada fácil para elas. Porém, mil vezes mais difícil para quemé acolhido e atendido em uma casa que não é a sua de origem, já perdida oununca alcançada. Chegaram com o corpo mutilado e a alma marcada de ausências,devido aos seus direitos violados. São sobreviventes de uma luta travada porsuas famílias, quase sempre chegando tarde para as intervenções consistentes,mas tendo a oportunidade para se reinventar, reviver desenvolver-se e não maissobreviver.

É demasiadamente fácil que nessa situação, mãessociais fiquem gradativamente intolerantes, exigentes para satisfazerem seusdesejos de sucesso com os atendidos sob sua responsabilidade. É tambémconflituoso e inquietante deixarem a realidade das crianças entrarem em suasvidas. E o que dizer das competências que, sem amor incondicional, serãoincapazes de reinventar, a cada dia, no modo novo de falar, um jeito diferente decalar, de sorrir, de abraçar e de confiar sem condicionalidades?

Realismo e aceitação incondicional do abandono comodoença e suas mazelas, da punitiva miséria anterior à chegada aos leitos dohospital ou ao colo de atenção, proteção e de "medicação”. Pois o momento privilegiadodo sucesso é o toque milagroso do acolhimento, que até o SUS, SUAS, a FIOCRUZ emuitos estão a aprender e a disseminar. Mas, se sobrepujar a ilusão pedagógica pararesultados imediatos, mais prejuízos padecerão àqueles que até então eram desassistidose julgados culpados pela própria situação. Se optarmos por um acolhimento quede imediato imponha limites, correções e juízos, aborrecimentos e obrigaçãopara que avancem nos estudos, muito pouco se alcançará. Nada mais nefasto doque forçar a conversão dos comportamentos destrutivos, decretar a infelicidadeou o retorno ao antigo regime de exclusão, como ameaça e tortura, se nãoabandonarem os velhos hábitos. Agindo assim, apenas se sacia o desejo de pensarque já se fez muito, um sentimento que funciona mais como disfarce daresponsabilização da sociedade, do Estado e da família que, mais uma vez, vaidesistir delas para destiná-las às misérias das prisões.

Tecer a correlata correspondência das crianças daABRACE (Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadorasde Câncer) que estão ou não hospitalizadas com as crianças que estão nosServiços de Acolhimento é algo que se pode recorrer para reforçar valores de umacolhimento inteligível e humanizado. Mães que estão com seus filhos comcâncer, celebrando a sobrevida em cada minuto, em cada sinal de resistência, vendocada olhinho a brilhar nos ajudam a sonhar. Cada sorriso de criança em suasobrevida ou em "grosseria” de adolescente deveria abrir nossa torneira decarinho e persistência sem tréguas de dedicação.

Quanto às mulheres, cuidadoras residentes dosServiços de Acolhimento (abrigo em casa lar), leva-se a elas a oportunidade daresiliência entusiasta. Essa força divina que se adquire, que desperta no falardas mães que estão com seus filhos com câncer. E as mães sociais e/oubiológicas precisam da lição das mães que nesses anos testemunhamos corajosamentena ABRACE. Mulheres que reviveram para ajudar, mesmo depois que seus filhos seforam, e que mobilizam médicos a desafiar suas novas pesquisas. Ou que souberamfestejar o quanto alcançaram para aliviar a dor e dizer: "Eu te amo, mesmoassim”.

Para as mães cuidadoras dos Serviços de Acolhimentoe as mães biológicas cansadas, mais do que "eu te amo mesmo assim”, elasprecisam dizer "EU TE QUERO tal como estás”. E sem reservas, serena eheroicamente, com a vocação que Deus dá a cada uma delas: já não podem maisafastar o olhar ou a devolvê-los à vivência de rua ou ao silêncio dos invisíveis.Sopram sobre cada um deles/delas: "QUERIDO/A ÉS”. Os jovens pedem socorro,mesmo com a linguagem dura, o palavrão ofensivo ou o gesto autodestruidor.

Cuida-se para não traduzir o que "te quero =querido” como terminação messiânica. Não se trata disso, a "salvação” vem comogratuidade e não como decisão autoritária do adulto, da vontade de poder ou detécnica científica. Quando ocorrem indicadores de mudança, vindos da confiança,da criatividade, que sempre inventa e reinventa um novo modo de falar, de dizerque se tem valor, que pode ser feliz e encontrar-se consigo mesmo para a conquistae oportunidade de refazer a vida.

Tudo isso as mães sociais e as mães das crianças daABRACE entendem bem: precisam de cuidado e de assessoria de pessoas que saibam escutá-las,reconfortá-las e fortalecê-las em seu profissionalismo e dedicação incansável.

(*) Uma homenagem à ativista Ilda Peliz que noslevou a essa reflexão acerca do brilhante e fecundo trabalho da ABRACE, que temna liderança uma valente mulher em sua luta contra o sofrimento infantil.

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