Rio de Janeiro, 24 de Abril de 2026

Vive la France?!

Por Leonardo Sakamoto - Em discurso surpreendente, o presidente francês Jacques Chirac defendeu a punição de empresas que "conscientemente" utilizaram trabalho forçado. Nesse ponto, a experiência brasileira ensina muito: que empresário vai afirmar que tratou um homem como um animal de forma consciente? (Leia Mais)

Sexta, 03 de Fevereiro de 2006 às 16:28, por: CdB

"Cabe a nós, enfim, vigiar para que as empresas ocidentais, quando investirem nos países pobres ou emergentes, respeitem os princípios fundamentais do direito do trabalho tais quais constam no direito internacional. As empresas que, conscientemente, tenham recorrido ao trabalho forçado devem poder ser processadas e condenadas pelos tribunais nacionais, mesmo em relação a fatos ocorridos no exterior."

O trecho acima não saiu da boca de nenhum "funcionário comunista" do governo federal brasileiro ou de algum "sindicalista radical", mas do presidente francês Jacques Chirac, que pelo seu currículo, definitivamente não pode ser considerado um político de esquerda. O discurso (proferido em 30 de janeiro, durante solenidade que fixou o dia 10 de maio para a comemoração anual da abolição da escravatura) exortou o combate à escravidão contemporânea e ao tráfico de seres humanos - que ele considerou como manchas indeléveis da humanidade - reconhecendo o papel da sua França e da Europa na privação da liberdade de milhões de pessoas.

"Na história, a escravidão é uma ferida. Uma tragédia que machucou a todos os continentes. Uma abominação perpetrada, durante séculos a fio, pelos europeus, por meio de um inqualificável comércio entre a África, as Américas e as ilhas do Oceano Índico (...) Tantos homens e tantas mulheres vendidos igual gado e explorados em condições subumanas! (...) A maioria das potências européias tiveram parte neste tráfico. Por vários séculos consideraram seres humanos como mercadorias."

O discurso, é claro, tem que ser entendido em um contexto em que a população imigrante - tratada como cidadã de segunda classe na república francesa - explodiu em protestos por todo o país após a morte de dois rapazes moradores de um subúrbio em outubro do ano passado. As cenas de milhares de carros sendo queimados correram as TVs de todo o mundo, acompanhadas de declarações infelizes de alguns membros do governo. No meio do embate pela sucessão de Chirac, Nicolas Sarkozy, ministro do interior, chamou os manifestantes de "escória", enquanto o primeiro ministro Dominique de Villepan adotou um comportamento mais apaziguador.

Em sua fala, Chirac afirma que a escravidão histórica alimentou o racismo. "Foi quando se tornou preciso justificar o injustificável que passou-se a elaborar teorias racistas (...) O racismo é uma das razões pelas quais a escravidão continua sendo até hoje uma chaga viva para parte de nossos compatriotas." Por isso, diz que é necessário reafirmar a dignidade das vítimas e dos descendentes do tráfico na França. Não faz nenhuma referência direta aos fatos recentes, mas há muita coisa nas entrelinhas.

O fato é que o tráfico e a escravização de pessoas não é uma mancha do passado, mas sim do presente francês em território europeu e ultramarino. Milhares de imigrantes africanos buscam anualmente melhores condições de vida não só na terra de Chirac como em toda a Europa, fugindo da fome e da desigualdade em seus países de origem, situação que as metrópoles ajudaram a criar. Há, por exemplo, as adolescentes utilizadas como escravas domésticas em lares franceses. Não podem deixar seu local de serviço, sob o risco de serem denunciadas à imigração, muitas ganham apenas a comida e a hospedagem e são vítimas de maus tratos. Isso sem contar a escravidão por dívida na Guiana Francesa. Políticas para alterar essa condição que fiquem restritas ao país serão como enxugar gelo, pois o problema envolve mudanças internacionais. A solução também não passa por políticas de restrição à imigração e de penalização dos imigrantes, o que só aumenta o descontentamento dessa população. Mas sim pelo estabelecimento de uma relação justa entre países ricos e pobres.

Chirac afirmou em seu discurso que: "A fim de lutar contra a sobrevivência da escravidão, mas tambem contra suas resurgências no contexto da competição econômica mundial, é preciso aprofundar a cooperação entre países do Norte e os do Sul. O c

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