Olhava pela vidraça a manhã fria do inverno francês. Finalmente conseguiu chegar à França! Falando o idioma com a fluência rudimentar, Pedro Silva ia se virando em terras extrangeiras, como sempre havia sonhado. As mãos friccionando uma na outra indicavam que a calefação não era das melhores por ali, mesmo assim, estava feliz.
Trabalhava fazendo bico em atividade aqui e acolá, não estava legalizado, mas isso se resolveria com o tempo, afinal "é pra frente que as malas batem". Olhou o relógio de pulso e espantou-se, tinha que se apressar, teria que estar na Gare du North às dezenove horas. Assumiu um compromisso na residência da família Duchamp. O casal Anne e Pierre Yves Duchamp haviam contratado seus serviços para cuidar da casa. Eles iriam ausentar-se por umas quatro horas, vão ao centro de Paris para assistir uma opera. Necessitava apressar-se. Era muito responsável com tudo que fazia. Sua fama de pessoa séria o havia feito conhecido e gozava de boa reputação, as pessoas confiavam nele. Pedro Silva pôs um pesado casaco de lã e seguiu a caminho. Gostava de andar no trem. Transporte rápido, seguro e barato. Logo estaria na residência dos Duchamp. Foi recebido na porta por Anne com um sorriso amável.
- Bom dia senhor Silva. O senhor está bem?
- Bom dia madame. Eu estou muito bem, obrigado, e a senhora?
- Estou bem, obrigado.
Após deixar o casaco na entrada, correu os olhos pela sala elegante e sóbria, com moveis de nogueira, madeira pesada e forte que aprendera a reconhecer. A calefação aqui era boa, dava até para lembrar dos trópicos. Sentiu-se a vontade. Foi o senhor Pierre Yves, homem magro, educado, quase dois metros, os braços longos e finos, que deu as orientações.
- Nosso filho dorme neste cômodo. Não deverá ser incomodado, pois estará dormindo até o nosso retorno. Evite fazer ruídos que possam perturbá-lo.
Falava enquanto mostrava outras dependências.
- Este é nosso cachorro, Joly. Não deve sair deste local. Em hipótese alguma deve ir ao jardim.
Disse isso se dirigindo até a porta que dava acesso ao vergel afim de que ele entendesse bem por onde o cão não deveria sair. O labrador bem tratado acompanhava tudo com o olhar de cão confiável.
- O senhor terá alimento na cozinha, por favor, fique a vontade.
Pedro Silva acompanhou o distinto casal até a saída, segurando um pequeno bloco de notas a mão, registrando todas as orientações, confirmando cada uma delas para verificar se não havia entendido mal.
-Adeus...
Tudo na casa era tranqüilo. Não havia o que fazer a não ser sentar e esperar. Assistir televisão. Tomar uma xícara de chocolate talvez fosse uma boa idéia. Isso é que era trabalho! Muita gente no Brasil ganha em um mês o que ele ganharia em algumas horas.
E as horas passavam calmamente. Pedro Silva não se cansava de ficar comparando os costumes franceses aos hábitos no Brasil, como eram diferentes. Era capaz de ficar horas divagando sobre essas coisas e teria feito isso durante quatro horas se uma súbita inquietação do cachorro, que fazia ecoar por toda a casa seu latido perturbador, não colocasse uma preocupação como prioridade: A criança poderia acordar e dar de cara com um estrangeiro na sua casa.
- Quieto Joly!
Falou com uma falsa autoridade para o animal, que continuava a ladrar.
Silva tentou interpretar o latido, parecia que algo o incomodava. Talvez tivesse fome.
- Cachorrinho quer comidinha?
Procurou e achou a ração. Pôs no deposito e colocou próximo do ansioso labrador, que logo demonstrou indiferença. Não era comida o problema.
- Ave Maria! Só pode ser então xixi! O bicho quer fazer alguma coisa que não pode ser aqui dentro.
Pedro Silva chegou numa encruzilhada. O único espaço que o canino teria para realizar suas necessidades fisiológicas era o Jardim. Mas as recomendações foram expressas, não poderia fazer isso. O jardim era zona proibida. Mas