Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Viva a primavera da juventude brasileira!

Por Miguel do Rosário, texto publicado originalmente no blog O Cafezinho. Há tempos eu não encontrava um assunto tão desafiador como esses levantes da juventude.

Segunda, 17 de Junho de 2013 às 08:54, por: CdB
Por Miguel do Rosário, texto publicado originalmente no blog O Cafezinho. Há tempos eu não encontrava um assunto tão desafiador como esses levantes da juventude. De início, fiquei chocado, negativamente, com algumas cenas: jovens queimando a bandeira do Brasil; um outro vestido com as cores dos EUA exibindo uma bandeira do Brasil pichada com a palavra Lixo; depredação da sede de um partido político; destruição de patrimônico público, ônibus, agências... Depois a coisa se complicou na minha cabeça. Não era bem assim. Os vândalos eram uma minoria, infiltrados? Há relatos  de policiais a paisana promovendo depredações, para desqualificar os protestos. Em seguida, a repressão brutal mudou completamente a balança. O vandalismo é lamentável, mas é uma coisa da qual a gente pode se defender com certa facilidade. Basta identificar e prender os responsáveis. O vandalismo ataca objetos inanimados. A brutalidade policial ataca seres humanos, e vem justamente daqueles que pagamos com nossos impostos para zelarem por nossa proteção. Seria vulgar e óbvio criticar o governador Geraldo Alckmin. Sua irresponsabilidade é gritante. Sua truculência, um fato lamentável que, espero, o povo saiba castigar no seu devido momento, assim como fizeram com aquele prefeito de São José dos Campos, rechaçado pelas urnas por causa da brutalidade que patrocinou, juntamente com o governo do estado, contra os moradores de Pinheirinho. Eu quero entender é o movimento em si. Estou lendo tudo há dias, freneticamente. O Nassif tornou-se um entusiasta dos levantes. A esquerda tradicional olha com desconfiança e mesmo com medo para um movimento ideologicamente obscuro. Os movimentos da direita virtual, que tentam há anos, em vão, fazer mobilizações similares, observam os acontecimentos com brilho maligno nos olhos, e tratam de se unir aos jovens e tentar influir em seu estado de espírito, envenenando-os com rancor antipolítica e falso moralismo. A grande mídia, por sua vez, também parece perdida. Esses jovens não lêem jornais e a maioria alimenta ideologias francamente esquerdistas. Jabor, Villa, editoriais dos jornalões, reagiram com uma brutalidade verbal correspondente a da polícia. Aliás, a polícia provavelmente agiu com a truculência que se viu por causa justamente da pressão midiática. Um amigo me ligou dizendo que as manifestações no Rio e Niterói estavam assumindo aquele lamentável viés antipolítica que procuramos combater. E se negaram a se encontrar com os prefeitos. No Correio Braziliense, há matérias falando num movimento orquestrado nos protestos de Brasília, esses mais voltados contra o governo federal. O serviço secreto da PM paulista acusa "militantes do PSOL" de contratarem punks para protagonizarem os atos mais violentos. Mas eu não posso acreditar no Correio Braziliense nem na PM paulista. Então prefiro acreditar que são levantes genuínos. Mas protestos com depredação de patrimônio público, por sua vez, não são uma tradição brasileira, nem podemos permitir que se tornem. Seriam válidos se vivêssemos numa ditadura, o que não é o caso. Os políticos que nos governam podem ser um bando de sacripantas, mas foram devidamente eleitos por uma maioria. Devem ser respeitados não por si mesmos, mas porque representam a vontade soberana de milhões. O patrimônio público nacional, por sua vez,  que já é precário, tem de ser protegido, jamais destruído. Lembrem da praça Tahir! O levante da praça Tahir emocionou o mundo porque era radicalmente pacífico, voltado para a reconstrução da democracia e recuperação do patrimônio público. Os manifestantes varriam as ruas! Por algumas semanas, parte de uma cidade famosa pela sujeira, manteve-se impecavelmente limpa! O Museu Histórico do Cairo foi protegido por uma cerca humana contra os vândalos, num gesto que tocou profundamente arqueólogos e historiadores do mundo inteiro, pois seria uma tragédia indescritível para a humanidade se os tesouros do Egito Antigo fossem destruídos e roubados. O que me preocupa mais, no entanto, é que o vazio e a confusão ideológica da maioria dos jovens, podem ser facilmente instrumentalizados por interesses políticos mal intencionados. Mesmo não lendo jornais, os jovens são influenciados por um ambiente político envenenado. E aí poderíamos testemunhar o que vimos na Líbia: um levante da juventude, calcado em demandas belas e justas, sequestrado pelo que há de mais sórdido: oportunistas, golpistas, cobiça imperialista. Continue o restante do texto aqui:
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