Em Israel, os termos "esquerda" e "direita" não fazem muito sentido. Não faziam, pelo menos, até as reviravoltas do sistema político, que começaram em meados de novembro. Desde a década de 1970, lideranças de esquerda participaram de governos de direita, e vice-versa, sem quaisquer debates sobre planos de governo. Imperava um consenso tácito sobre as orientações do governo, com uma fórmula inquestionável: liberalização econômica, militarização da sociedade e radicalização da ocupação dos territórios palestinos. Alternaram-se no poder governantes que, na visão do eleitorado, melhor conduziriam o programa consensual, ou que tivessem mais prestígio.
A exceção foi Yithzak Rabin, primeiro-ministro de Israel de 1992 a 1995, ligado ao Partido Trabalhista, mais alinhado à esquerda. Em seu mandato, estava determinado a mudar a política de seu país e negociar a retirada dos territórios ocupados com lideranças palestinas. Considerado um traidor por grupos conservadores, foi assassinado por um jovem militante de extrema-direita, Ygal Amir. Sucederam-no governantes pró-ocupação, tanto do Partido Trabalhista, quanto da principal agremiação conservadora, o Likud: Shimon Peres, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak e Ariel Sharon.
Alternativa
Em 10 de novembro, a inércia do sistema de partidos acabou, com a vitória, nas primárias do Partido Trabalhista, de Amir Peretz, dirigente da principal central sindical israelense, Histadrut. Sua primeira determinação foi a saída dos integrantes de sua agremiação do governo Sharon (Likud). A decisão gerou descontentamentos dentro do Partido Trabalhista, principalmente do adversário de Peretz nas primárias(*), Shimon Peres. Ele tornou pública, 19 dias depois, sua intenção de mudar de sigla e permanecer no governo Sharon, no qual é vice-primeiro-ministro.
Em discurso, dia 12 de novembro, o novo líder trabalhista declarou sua intenção de recuperar a herança de Rabin. Mensagem enviada ao jornal semanal Brasil de Fato pelo ativista Michael Warshawski, coordenador do Centro de Informações Alternativas, entidade israelo-palestina que luta pelo fim da ocupação, afirma que a vitória de Peretz representa a possibilidade de uma nova oposição ao consenso tácito das lideranças políticas tradicionais.
- Em seu primeiro discurso, ele se comprometeu a fazer uma mudança radical no cenário político israelense. Pretende transformar a orientação da economia, neoliberal ao extremo, e negociar com lideranças palestinas, acabando com cinco anos de unilateralismo de Sharon - escreveu.
Sharon reage
A vitória de Peretz forçou o primeiro-ministro a reagir. Para alcançar maioria no Knesset, parlamento israelense, ele dependia dos votos do Partido Trabalhista, cuja nova orientação é não mais se alinhar com Sharon. Sem opção, ele antecipou as próximas eleições, que vão se realizar em 28 de março, oito meses antes do previsto.
Em 20 de novembro, o primeiro- ministro anunciou sua desfiliação do Likud e a criação de um novo partido, o Kadima. De acordo com o jornal israelense Haaretz, nove dias depois, 14 dos 120 deputados de Israel entraram na nova agremiação. Sharon deve conquistar o apoio de integrantes do Partido Trabalhista descontentes com a vitória de Peretz, dentre eles Peres.
O Likud fica sob o controle de Netanyahu, que, em agosto, criticara Sharon publicamente pela retirada de colônias israelenses de Gaza, território palestino. O ex-primeiro-ministro pretende revogar a evacuação dos conjuntos habitacionais.
Rumos políticos
Toda esta movimentação partidária coloca em xeque o consenso dos principais partidos sobre as orientações políticas de Israel. Peretz não pretende aceitar a fórmula com a qual o país foi governado desde o assassinato de Rabin. Sharon e Netanyahu não devem se aliar e vão concorrer, separadamente, ao governo.
Segundo Warshawski, a incerteza no cenário político israelense