No pátio da capela, alguns familiares que aguardavam pelo sepultamento, pediam, em tom de desabafo e revolta, justiça: “que sejam presos e paguem pelo que fizeram
Por Redação, com ABr - de São Paulo:
Os sepultamentos de nove estudantes que morreram no acidente ocorrido na última quarta, na rodovia Mogi-Bertioga, começaram por volta das 9h30 desta sexta-feira em São Sebastião, no litoral Norte de São Paulo. Oito deles, que foram velados no ginásio de esportes do bairro Barra do Una, foram enterrados no cemitério municipal do mesmo bairro.
A outra vítima, que também foi velada em São Sebastião, foi sepultada no cemitério municipal do bairro Juqueí. Os corpos das demais vítimas do acidente foram enviados para serem velados e enterrados em outras cidades como São Paulo, Itaquaquecetuba e Caraguatatuba.
Em São Sebastião, o maior velório ocorreu em Barra do Una, onde oito vítimas foram veladas no ginásio de esportes. Por volta das 9h30, familiares começaram a levar a pé, em cortejo, os caixões em direção à capela Nossa Senhora do Carmo e Senhor Bom Jesus, vizinha do cemitério municipal. Os enterros passaram, então, a ocorrer um por vez.
No pátio da capela, alguns familiares que aguardavam pelo sepultamento, pediam, em tom de desabafo e revolta, justiça: “que sejam presos e paguem pelo que fizeram. Sei que aqui tem autoridades, eles têm que escutar e tomar vergonha na cara”, disse comovida, em voz alta, uma senhora, familiar de uma das vítimas. “Todos sabiam que os ônibus estavam nas piores condições”. Ela foi aplaudida pelos demais presentes.
Na última madrugada, após comparecer ao velório em Juqueí, o prefeito de São Sebastião, Ernane Primazzi, disse que o ônibus da empresa União do Litoral, envolvido no acidente, fretado pela prefeitura para transportar os estudantes, estava com a documentação e a revisão mecânica em dia. “No local foi possível ver que os pneus estavam em bom estado. Agora temos de esperar a perícia da polícia para saber o que aconteceu”, disse Primazzi.
Irmão de vítima
Uma das 18 vítimas que morreram no acidente com um ônibus na rodovia Mogi-Bertioga, Sônia Pinheiro de Jesus, de 42 anos, foi enterrada nesta sexta-feira às 11h no bairro de Itaquera, Zona Leste da capital paulista. Sônia e mais 39 estudantes universitários viajavam de Mogi das Cruzes para São Sebastião, no litoral, quando o veículo perdeu o controle e tombou.
Antônio Pinheiro dos Santos, irmão de Sônia, disse que ela tinha medo de pegar o ônibus, por achar que os motoristas trafegavam em alta velocidade. “Ela dizia que o motorista corria muito, já tinha entrado em discussão com ele”, disse.
Lucilene Maria Pinheiro, vendedora, de 56 anos, dividia a casa com Sônia. Ela lembra que a amiga reclamava do abuso de velocidade do motorista. “Ela tinha medo de pegar esse ônibus, tinha uns motoristas que eram muito doidos, corriam demais. Quase todas as vezes ela chagava para mim e falava que tinha medo de pegar o ônibus, o motorista anda muito”, disse ela.
A empresa União do Litoral disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que o motorista do ônibus, Antônio Carlos da Silva, tinha conduta exemplar e que nunca recebeu qualquer reclamação formal de alunos contra ele. Antônio trabalhava há dois anos na empresa, fazendo duas linhas, uma até Mogi das Cruzes e outra até a cidade de Caraguatatuba, também no litoral.
Muito abalado, o irmão de Sônia disse que ainda não sabe se irá processar a empresa de ônibus. “A gente está sem saber o que faz, fico assim perdido. Tirar o corpo do IML é uma burocracia, estou desde a hora do acidente até agora sem dormir, rodando de dia e noite, cuidando de papelada”, disse. “Motorista incompetente, ônibus sem manutenção, alugado pela prefeitura, não tem fiscalização, em uma estrada perigosa como essa”, lamentou.
Sonhos
Sônia tinha 42 anos e trabalhava como vendedora. Ela cursava o terceiro ano do curso de Assistência Social e já planejava comemorar a conclusão do curso. “Ela tinha todo o plano pela frente, trabalhando para fazer uma faculdade. Agora, no final de ano, estava com o projeto de fazer a festa de formatura dela. Acabou nessa tragédia”, disse o irmão.
Sônia tinha sete irmãos, era solteira e não tinha filhos. Ela morava com Lucilene na praia de Boraceia, em São Sebastião. Fazia o percurso de ônibus todos os dias até a faculdade particular em Mogi das Cruzes, viagem que dura uma hora.
– Ela sempre gostou de assistência social, esse era o sonho dela. A primeira faculdade dela. Ela pagava com dificuldade, com muita luta. Era uma pessoa do coração muito grande, se ela pudesse ajudar todo mundo, ela ajudava – lembra a amiga.
Na nota da União do Litoral, a empresa informou também que vai enviar mais informações comentando as críticas em relação à manutenção do veículo.