Cerca de 800 delegados com direito a voto e outros 600 observadores de todo o país participaram, neste fim de semana, do I Congresso Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), no Campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nascido de uma fratura do PT, a partir de um movimento dissidente encabeçado pela senadora Heloísa Helena e três deputados federais que divergiram do voto petista na contra-reforma da Previdência em 2003, este partido até agora não definiu precisamente o seu projeto estratégico, sua postura tática e sua formatação partidária. No seu interior convivem, em permanente tensão, mais de dez pequenos agrupamentos, desde algumas seitas ultra-esquerdistas até organizações politicamente menos sectárias.
Unidos na oposição frontal ao governo Lula e na campanha presidencial de Heloísa Helena, agora é hora do acerto de contas, definindo melhor a correlação interna de forças. O I Congresso do PSOL deve explicitar as divergências no seu interior e promete ser dos mais encarniçados. As 14 teses apresentadas para o debate da militância deixam escancaradas as visões antagônicas sobre o papel deste partido. A cansativa leitura destes documentos evidencia certa esquizofrenia no seu interior, já que as concepções são diametralmente opostas. Será necessária engenhosa costura para preservar a unidade no PSOL. Rachas futuros inclusive não estão descartados - e há até quem torça discretamente para que ocorra certa decantação nesta jovem organização.
Revolução na esquina ou acúmulo de forças?
As visões antagônicas surgem já na leitura das diversas tendências sobre a correlação de forças no mundo, o que é fundamental na definição da política do PSOL. Alguns grupos, mais voluntaristas, apostam na rápida radicalização da luta de classes e vêem no horizonte imediato, na próxima esquina, a revolução socialista. A Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), do ex-deputado Babá, por exemplo, exagera no seu otimismo ao garantir taxativamente que "entramos numa nova conjuntura mundial, marcada pelo fracasso da ofensiva imperialista". As condições já estariam maduras para a revolução, que só não vinga devido "à cumplicidade dos velhos aparatos reformistas e stalinistas... Estamos vivendo uma época histórica não reformista".
Já outras correntes, atentas à fase de defensiva estratégica da luta do proletariado, prevêem um prolongado processo de acumulação de força, o que exigiria uma tática mais flexível e ampla. Até a tese do Movimento de Esquerda Socialista (MES), que a exemplo da CST é oriundo de um racha do PSTU, é mais cautelosa na análise da situação internacional, numa flexão surpreendente. "Depois de mais de duas décadas de ofensiva neoliberal, o signo da situação está mudando", registra, precavido, o texto da tendência da deputada Luciana Genro. Mais explícita na constatação da "indiscutível defensiva" é a tese apresentada pelo deputado Chico Alencar e por renomados intelectuais gramscinianos, como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho:
"É inevitável constatar que o socialismo saiu da ordem do dia após a queda do muro de Berlim... Como um objetivo visível e viável, ele deixou de estar na ordem do dia para os próprios partidos, movimentos e forças que trazem o socialismo inscrito nos seus programas e estatutos". Adotando o "pessimismo da razão" do comunista italiano Antonio Gramsci, a tese registra a atual contradição. "O impulso de destruição social, que sempre esteve embutido na lógica da acumulação capitalista, está mais visível. Até nos países centrais do capitalismo se produz um padrão de desigualdade antes reservado para a periferia... Não é por acaso que o novo milênio começa exibindo sinais de resistência... Há, no entanto, um paradoxo. Quando a alternativa socialista ao capitalismo se torna mais imperiosa, a bandeira do socialismo não está posta no dia-a-dia".
A mesma leitura, de que a atual fase é de acumulação de forças e de que a revolução socialista não se está na