Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Visita de Khatami à Venezuela pode agravar tensões com os EUA

Segunda, 07 de Março de 2005 às 16:15, por: CdB

Os presidentes do Irã e da Venezuela, dois importantes produtores de petróleo que pressionam pelo aumento de preços e vivem às turras com os Estados Unidos, se reúnem nesta semana, num encontro que deve aumentar a tensão com Washington.

O presidente Mohammad Khatami, do Irã -- país acusado pelos EUA de tentar desenvolver armas nucleares -- passará três dias na Venezuela, a partir de quinta-feira. Seu anfitrião, Hugo Chávez, é apontado por Washington como fator de desestabilização da América Latina e tenta, por sua vez, contrabalançar a influência internacional norte-americana.

Os EUA são um importante comprador do petróleo venezuelano, mas Chávez vem buscando outros clientes.

Irã e Venezuela, ambos membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), devem assinar acordos relativos a petróleo, gás, indústria petroquímica e navegação durante a visita de Khatami.

Esses acordos não são nenhuma novidade do ponto de vista político, mas, mesmo assim, a visita deve repercutir mal em Washington, segundo o ex-chanceler e ex-ministro do Petróleo da Venezuela Humberto Calderón Berti.

"Acho que Chávez está jogando um jogo geopolítico extremamente perigoso, porque está permanentemente provocando e desafiando os EUA e se aproximando de países que têm relações manchadas com Washington. Só falta ele visitar a Coréia do Norte", disse Calderón.

A embaixada norte-americana em Caracas não quis comentar a visita.

O presidente Chávez vem elevando o tom de seus ataques retóricos aos EUA neste ano, e o governo Bush frequentemente se refere a ele como uma "força negativa" por causa do seu "autoritarismo paralisante" e da sua amizade com o presidente comunista de Cuba, Fidel Castro.

O ex-coronel, por sua vez, acusa Bush de estar por trás de uma frustrada tentativa de golpe contra ele, em 2002, e agora acusa os EUA de tramarem seu assassinato -- acusação que os norte-americanos negam.

Além disso, Chávez dá sinal de que busca o divórcio no multibilionário relacionamento comercial entre os dois países, pois recentemente assinou acordos de fornecimento de petróleo e investimentos com Brasil, Rússia, China e Índia. Além disso, faz questão de fortalecer os laços com países que os EUA tratam como párias, como Irã e Cuba.

Tanto o Irã quanto a Venezuela se empenham com ardor para elevar os preços do petróleo nas reuniões da Opep, o clube dos países exportadores. Eles gostariam de manter a cotação do barril bem acima dos 50 dólares, o que significaria gasolina mais cara para os consumidores norte-americanos e ameaça ao crescimento econômico dos EUA.

Chávez, que governa o quinto maior exportador de petróleo do mundo desde 1998, já demonstrou que não tem medo de usar esse tipo de artimanha. "O mundo deve esquecer o petróleo barato", disse ele no fim-de-semana, em visita à Índia. Ele também acusou os EUA de elevarem a cotação por causa das "ameaças ao Irã".

"Pela primeira vez na história, um governo venezuelano está usando o petróleo não como instrumento de diplomacia internacional, mas abertamente como uma arma para fazer pressão política", disse Calderón, que foi presidente da Opep em 1979 e 80.

De acordo com ele, Chávez pioraria sua imagem em Washington, caso decida apoiar abertamente as ambições nucleares do Irã.

Durante sua viagem, Khatami vai inaugurar uma fábrica de tratores, resultado de uma joint venture entre Venezuela e Irã, avaliada em 35 milhões de dólares. Trata-se do primeiro grande investimento direto da República Islâmica na América Latina.

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