Com um pôster do atacante Ronaldo numa mão e a bandeira brasileira na outra, Joel Lafortune, membro de uma gangue haitiana, se ajoelhou na quarta-feira e gritou, em êxtase: "Ronaldo vem aí!"
Se muitos haitianos, fanáticos por futebol, comemoraram o fato de o Brasil liderar a atual força de paz da ONU, eles ficaram ainda muito mais animados por saber que a seleção pentacampeã mundial planeja uma visita.
"Se eu tiver uma chance de ver Ronaldo será o maior dia da minha vida", disse Lafortune, mais conhecido como Black Joe, na violenta favela de Cité Soleil, onde ele vive.
A CBF anunciou na terça-feira que a seleção vai ao Haiti em agosto para ajudar na pacificação do país, que sofreu uma violenta rebelião em fevereiro. As entradas para a partida contra a seleção local serão trocadas por armas da população.
Nas favelas haitianas, as gangues de ruas e os movimentos políticos são formados em grande parte por pessoas fanáticas pelo futebol brasileiro. "Não há dúvida de que esta iniciativa será um grande apoio ao esforço da missão para recolher armas ilegais", disse o comandante das tropas da ONU, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira.
O Brasil assumiu o controle da missão na sexta-feira, substituindo os EUA. O objetivo é restaurar a ordem e permitir a realização de eleições. O Haiti tem um governo interino desde 29 de fevereiro, quando o presidente Jean-Bertrand Aristide fugiu.
Na favela de Cité Soleil, vários membros de gangues já pensam em entregar suas armas para ver o Brasil jogar. "É a chance da minha vida para ver Ronaldo, vou trocar minha M-14 por um ingresso", disse um deles, que se identificou como Don Tutu.
Quem não tem armas teme ficar de fora do estádio, e muita gente discute se deve torcer pelo Haiti ou pelo Brasil. "Não ficarei contra o Haiti, que é o meu país, mas, sinto muito, vou torcer pelo Brasil", disse Black Joe, emocionado.
Muitos haitianos, na verdade, adotaram a Seleção Brasileira como sua, a ponto de, quando ela joga, muita gente faltar ao trabalho ou encerrar o expediente mais cedo. Muitas escolas cancelam as aulas em dias de partidas do Brasil. Em caso de vitória, as ruas são tomadas por milhares de torcedores. Em caso de derrota, há gente que chora.
"Quando o Brasil joga, é como uma droga. Minha fome, meus problemas, minhas dificuldades vão embora, ficam esquecidas, ao menos por um instante", comentou Jacques Milien, de 32 anos, morador da favela de Bel-Air, um reduto de simpatizantes de Aristide, que vive sob tensão desde a fuga do ex-presidente.