Rio de Janeiro, 01 de Novembro de 2026

Violência. O que ninguém vê

Por Lúcio Flávio Pinto - Toda vez que se mira no espelho do mundo, o Pará percebe que seu reflexo é triste e assustador. A repetição dessa sensação ruim foi ocasionada agora por mais um caso de brutalidade, que devolve o Estado a um tempo primitivo. Desta vez a inércia diante do absurdo foi quebrada. Terá alguma conseqüência. (Leia Mais)

Terça, 11 de Dezembro de 2007 às 11:30, por: CdB

L. S. P. foi presa pela oitava vez nas ruas de Abaetetuba, no dia 21 de outubro. Como sempre, tentou um novo furto e foi flagrada. Antes, perambulava drogada pelas ruas da cidade, de 50 mil habitantes, invadia casas, se prostituía. Nunca feriu ou agrediu ninguém. Já parecia indiferente às circunstâncias. Seguiu sem resistências para a delegacia, mas quando entrou na prisão sua vida mudou para sempre. Também a vida de Abaetetuba e do Pará. Seu "caso" ganhou repercussão nacional e internacional. A violência brutal na Amazônia voltou a ocupar manchetes da imprensa de todo mundo. A opinião pública cobrou providências, o governo tratou de renovar as promessas, enquanto mudava alguma coisa. Talvez para que, em pouco tempo, tudo volte a ser como era antes.

O enredo chocante começou a se delinear quando a delegada Flávia Verônica Monteiro Pereira prendeu L. S. P. (a última das prisões um mês antes) e não fez a sua identificação completa. Ela alegaria, depois, que não dispunha dos documentos necessários para realizar essa tarefa. É difícil saber da idade de adolescentes em Abaetetuba apenas pela aparência: a prostituição infanto-juvenil é um dos mais graves problemas sociais do município, e não é de hoje. Mas se alguma coisa tem sido feita para mudar essa situação, trata-se de iniciativa cosmética: o problema só faz se acentuar. Meninas se prostituem a partir dos 10 anos, por 10 ou 20 reais, um prato de comida, algum tipo de droga, sobretudo maconha, ou um programa qualquer. Circulam livremente pelas ruas oferecendo seus "serviços", semi-despidas.

Demanda é o que não falta. No porto vizinho de Vila do Conde há sempre de cinco a 10 navios de todas as bandeiras ancorados ou ao largo, esperando vez para descarregar produtos ou embarcar alumina, alumínio e caulim que saem das fábricas do distrito industrial de Barcarena, o maior do Pará e um dos mais importantes do país. Marinheiro estrangeiro em embarcação de longo curso atracada é sinônimo de prostituição em zonas portuárias. Abatetuba, como Barcarena, cumprem essa função.

Para os padrões locais, L. S. P. já é uma veterana, com quatro ou cinco anos nas ruas, em moto contínuo. O delegado podia lhe atribuir sem problemas, pelo que aparentava, cinco anos adicionais aos seus 15 anos verdadeiros. Mas sua fragilidade, seu modo de falar e seus antecedentes podiam servir de advertência ao policial para tomar algum cuidado antes de recolhê-la a uma cela acanhada, suja e fedorenta, com 20 homens, e deixá-la aí por tanto tempo, sem se preocupar com o que acontecia. O delegado Celso Viana, supervisor da polícia em Abaetetuba, sabia bem quem era L. S. P., por ele autuada até então três vezes.

Na mais desastrosa de uma sucessão de frases infelizes de várias autoridades, o então delegado-geral da polícia civil, Raimundo Benassuly, sugeriu, em uma audiência na Câmara Federal, em Brasília, que L. S. P. aceitou ir para o catre superlotado e se manter entre os 20 presos, submetendo-se a prática sexual forçada e intensa ao longo dos 24 dias seguintes, por ser débil mental. Mal saiu de sua boca, a frase o condenou ao afastamento do cargo, consumado no dia seguinte, já em Belém, sob o disfarce de pedido voluntário de demissão.

O delegado ainda tentou consertar as coisas, mas, como geralmente acontece no atual governo, a emenda saiu pior do que o soneto. Disse que sua intenção não era culpar a menor pela violência que sofreu, apenas levantar a possibilidade de ela ter sido afetada mentalmente pelo excesso de violações que sofreu até o momento de ser presa. Ora, se esse fato era do conhecimento dos policiais responsáveis pela delegacia de Abaetetuba e se a informação foi repassada ao delegado-geral, mesmo que apenas depois de formado o escândalo, era mais um motivo para Benassuly se colocar contra a omissão, conivência e incompetência dos seus subordinados - e não atenuar essas faltas funcionais.

A imensidão do problema só começou a se apresentar na sua dimensão real

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