Os chamados vinhos do Novo Mundo, especialmente do Chile e Argentina, ocupam cada vez mais espaço nas adegas da elite brasileira, substituindo os franceses e portugueses, tradicionalmente preferidos pelos enófilos de alto poder aquisitivo no país. Na adega do seu suntuoso apartamento em Brasília, o advogado Luiz Carlos Alcoforado guarda 3.000 garrafas numeradas, ordenadas por safra, produtor e região, um tesouro de mais de 130 mil dólares, no qual se destacam rótulos como Almaviva, do Chile, e Catena Zapata, da Argentina.
- Compro mais vinhos do Novo Mundo, especialmente da Argentina e do Chile. Eles reúnem a oferta de qualidade a um custo razoável. As adegas do Chile e Argentina oferecem vinhos maravilhosos de 50, 60 ou 130 dólares - disse Alcoforado, dono de um importante escritório de advocacia da capital.
Nos clubes de apreciadores das grandes cidades brasileiras, o consumo de vinhos finos aumentou nos últimos anos. E, segundo apreciadores e comerciantes, ainda há grande potencial de aumento entre as classes alta e média. Entre janeiro e novembro deste ano, o Brasil importou 83 milhões de dólares em vinhos. É um aumento expressivo diante dos 68 milhões de dólares de todo o ano de 2003 e dos 79 milhões dos 11 primeiros meses de 2004. A participação do Chile e Argentina nessas compras aumenta a cada ano, segundo dados oficiais. Além disso, são cada vez mais freqüentes as visitas de produtores de Argentina e Chile ao Brasil, tentando ampliar as vendas num país onde várias adegas particulares somam mais de 1 milhão de dólares em vinhos.
O trabalho de promoção e uma cadeia de comercialização azeitada já dão resultados: o Brasil se tornou o terceiro maior destino de exportação do vinho argentino, superado por Estados Unidos e Reino Unido. No caso do Chile, o mercado brasileiro saltou ao oitavo lugar como destino exportador, com um explosivo crescimento. Só em outubro o envio de vinhos chilenos ao Brasil cresceu 43 por cento em relação ao mesmo mês de 2004.
- O público brasileiro está muito receptivo e é visível a penetração muito importante dos vinhos de primeira linha do Chile e da Argentina - disse Cecília Torres, enóloga da produtora chilena Santa Rita, que recentemente visitou Brasília para comandar uma degustação de seus produtos.
- Os vinhos do Chile e da Argentina combinam um alto potencial de envelhecimento com a possibilidade de serem consumidos jovens. Seus taninos agradáveis, redondos, os tornam amigáveis ao consumidor. Os europeus, por sua vez, precisam de mais maturação - acrescentou Torres.
Heitor Reis, representante da importadora Grand Cru em Brasília, disse que a atual crise política envolvendo o PT na verdade melhorou o seu negócio.
- Faço um esforço pedagógico com os meus clientes. Digo a eles que, se recebem o vice-presidente, se recebem autoridades, melhor um argentino de 100 dólares que um francês de 3.000. Um vinho tão caro causa incômodo no convidado, e a qualidade é a mesma.
Reis acrescentou que há uma "mudança cultural" no público, que sabe que, num mercado aberto à importação como o brasileiro, não é necessário pagar mais para obter alta qualidade.
Rodrigo Reina Rutini, da recém-criada e já bem-sucedida vinícola argentina Família Reina, concorda. "O 'boom' do vinho argentino tem um porquê:
- Podemos fazer vinhos tão bons como os melhores do mundo por um preço muito menor - disse ele em uma degustação em Brasília.