Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

Vila de trabalhadores resiste à expulsão do Plano Piloto

Próximo a um dos limites que demarcam a sudeste o Plano Piloto - entre a ponta do Lago Paranoá e o final da Avenida das Nações (Via L-4 sul) - há uma comunidade de 300 mil habitantes que não deveria existir ali. O antigo Acampamento, atual Vila Telebrasília, tem valor histórico e simbólico. O lugar é a prova remanescente de que a moderna capital federal foi, antes de tudo, povoada por trabalhadores. (Leia Mais)

Segunda, 20 de Abril de 2009 às 07:24, por: CdB

Próximo a um dos limites que demarcam a sudeste o Plano Piloto - entre a ponta do Lago Paranoá e o final da Avenida das Nações (Via L-4 sul) - há uma comunidade de 300 mil habitantes que não deveria existir ali. O antigo Acampamento, atual Vila Telebrasília, tem valor histórico e simbólico. O lugar é a prova remanescente de que a moderna capital federal foi, antes de tudo, povoada por trabalhadores.

Desde o final da década de 50, autênticos candangos (como são chamados os pioneiros construtores de Brasília) ocupam a Vila e fazem dela a raríssima exceção de uma cidade que tem como regra a inexistência de habitações de pessoas pobres, que não desfrutam da propalada qualidade de vida brasiliense.

A Vila Telebrasília - segundo o tombamento da capital federal, a cobiça imobiliária, o preconceito de alguns nobres vizinhos e a consequente má vontade política - já deveria ter sido retirada dali, como aconteceu com mais de 60 acampamentos da época da construção da capital.

– Teve um dia de reunião que um morador do Lago Sul [área vizinha e das mais valorizadas em Brasília] disse que nós estávamos poluindo o Paranoá, que nós perturbávamos e que os moleques daqui iam roubar lá – recorda-se Maria Rosineide Peixoto de Sousa, residente no local há 25 anos e ativa participante da Associação de Moradores do Acampamento da Telebrasília (Amat).

Segundo “Dona Neide” (como é conhecida), habitantes antipáticos da outra margem do lago e governantes tratavam como "grandes especuladores" os moradores do local.

– Eles perguntavam: como é que vocês querem morar ali, um lugar muito privilegiado? – rememora.

– Nós tínhamos um sonho, que para certas pessoas era uma insônia – lembra com indignação, citando inúmeras tentativas do Governo do Distrito Federal para retirar os moradores.

A Vila Telebrasília - chamada assim após urbanização e titulação dos lotes (ocorrida em 2007) - já teve vários nomes, sempre de acordo com a empresa que contratava seus moradores. Antes de ganhar o nome da extinta Telebrasília, nos anos 1970, foi chamada de “Acampamento Camargo Corrêa”, “Acampamento DTUI” (Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos) e “Acampamento Cotelb” (Companhia Telefônica de Brasília);

Enquanto o lugar teve status de acampamento, aos moradores pobres do Plano Piloto foi negado asfalto, calçada, coleta de lixo e água encanada em todas as moradias. Ainda hoje, faltam posto de saúde, escola e creche para todas as crianças, cobra Dona Neide.

A líder comunitária assinala que algumas conquistas só foram atingidas por força da mobilização cotidiana de moradores, que chegaram a fechar a passagem da Avenida das Nações, visitaram sucessivos governadores, fizeram vigília na Câmara Legislativa e ganharam apoio da comunidade (especialmente da Universidade de Brasília).

– Cada dia a gente aprende um pouquinho. A gente morre e não aprende tudo – comenta, sorrindo satisfeita com a vitória, mas mostrando-se ainda disposta para a luta e atenta com a revenda de casas de moradores e a destinação dos lotes cercados na Vila Telebrasília pela Terracap (Companhia Imobiliária de Brasília).

O ex-acampamento é exceção em Brasília porque desafiou a força centrífuga que expulsa os habitantes menos aquinhoados para as regiões administrativas mais distantes (antigas cidades satélites ao redor do Plano Piloto) ou para o entorno do Distrito Federal (no Estado de Goiás). O feito enche de orgulho os moradores, que colocaram na entrada da Vila uma placa com os dizeres “aqui tem história”. A história é de “resistência”, o nome da principal praça do lugar.

Tags:
Edições digital e impressa