Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2026

Vidros quebrados, tiros no pé

Por Flávio Aguiar - O governo encaminhou mal desde o início a reforma da Previdência e a sua defesa. Pelo que aconteceu ao longo da última semana, fica cada vez mais claro: negocia com quem tem poder, não com quem defende princípios. (Leia Mais)

Sábado, 09 de Agosto de 2003 às 14:34, por: CdB

A semana que passou foi dominada, em termos de imagens, pela manifestação dos funcionários públicos em Brasília, na quarta-feira, e suas conseqüências imediatas, e logo em seguida pela morte do jornalista e presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho.

Ainda que com menos destaque do que na semana anterior, também estiveram em destaque imagens e comentários sobre as tensões no campo e nas cidades brasileiras, diante de manifestações do MST, dos fazendeiros e das ocupações pelos Movimentos dos Sem Teto, sobretudo devido à desocupação do terreno da Volkswagen em São Bernardo, na quinta-feira. .
Os vidros quebrados

Acompanhei pela Globonews, ao vivo ou quase, em boa parte da manifestação, os episódios envolvendo os protestos contra o projeto da reforma da Previdência em Brasília. Os números variaram de acordo com as fontes, Polícia Militar aos porta-vozes dos manifestantes, de 35 mil a 80 mil. O que não variou foi o claro sentido pacífico da manifestação.

Depois de passarem pela Esplanada dos Ministérios, saindo da Catedral, os manifestantes chegaram ao Edifício do Congresso Nacional e começaram movimentos para abraçá-lo e para hastear uma bandeira brasileira no topo do prédio da Câmara Federal, onde estava sendo debatido e votado o projeto. Tudo sob as vistas da Polícia Militar.

Daí foi muito claro ver que um pequeno grupo de manifestantes investiu contra o edifício. Ficou muito claro que seu objetivo não era sequer o de invadir o Congresso; foram diretamente contra as janelas e o quebra-quebra começou. Ao mesmo tempo, ficou muito claro também que o comando da manifestação chamava os funcionários para o gramado em frente ao edifício. Não dá para dizer, de modo nenhum, que o quebra-quebra caracterizou a manifestação. Foi uma iniciativa isolada, de um grupo provocador, que lá foi disposto de antemão a esta atitude, que contrariava os objetivos assumidos da manifestação.

Entretanto, não foi o que apareceu nas manchetes de jornais à noite, como o da Record. O tom era o seguinte: "manifestação dos servidores termina em quebra-quebra" e "manifestação dos servidores ataca o Congresso Nacional", numa clara distorção dos acontecimentos.

Não sei quais foram as razões alegadas para a provocação, que só os provocadores podem declinar. De qualquer modo o gesto é inaceitável, seja como agressão ao Congresso, seja como desrespeito à manifestação e aos manifestantes. Mas fiquei pensando no que pode ter aberto espaço para que tal gesto encontrasse receptividade em algum agrupamento político e talvez mesmo adeptos de tal ato, naquele momento, que por sua vez serviu de pretexto para o desvirtuamento das repercussões políticas da manifestação, que foi imponente, para dizer o mínimo.

Não pude deixar de alistar entre as razões o fato de que o governo, que encaminhou mal desde o início a reforma e a sua defesa, alimenta esse tipo de exasperação com sua determinação, que fica cada vez mais clara: negocia com quem tem poder, não com quem defende princípios. O governo negociou com os governadores, com o Judiciário, com os seus aliados, até com os que encontrou na oposição, mas não com os funcionários através de seus representantes, nem com os dissidentes de sua própria base partidária. Agora, provavelmente vamos assistir ao deprimente episódio da expulsão dos três dissidentes apontados como "radicais". E junto com este virá também o deprimente episódio da punição mais branda, menos branda, em relação aos oito parlamentares que se abstiveram na primeira votação.

Tudo isso é um péssimo exemplo. O governo está ameaçando se suicidar, a médio e longo prazo, não com um, mas com dois tiros no pé. Primeiro, acerta no próprio pé ao manifestar tanto desprezo por bases tradicionais de apoio, embaido pela própria popularidade, principalmente a de seu líder. Segundo, atira no outro pé ao continuar fazendo de sua negociação com a agenda neoliberal o prato principal da re

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