De repente, os rostos e as vozes de Osama bin Laden e de seu braço-direito Ayman Al Zawahri estão por toda parte, invadindo as transmissões de rádio e TV do mundo.
Só no último mês, cinco novas gravações chegaram ao público. Trechos da mais recente mensagem de Zawahri foram transmitidos pela TV na quinta-feira, véspera do primeiro aniversário dos atentados de Londres.
Mas autoridades norte-americanas e especialistas em terrorismo relutam em concluir que essa série de mensagens signifique a iminência de um novo ataque.
Em vez disso, preferem atribuí-las a uma complicada conjunção de fatores - o desejo de mostrar que a Al Qaeda ainda é forte, uma nova sofisticação no uso da propaganda e, finalmente, a pura coincidência temporal.
Bin Laden e Zawahri supostamente estão escondidos na hostil região tribal na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão. Até janeiro de 2006, Bin Laden passou um ano sem ser ouvido. Mas em 2006 ele e Zawahri divulgaram 11 gravações de áudio e vídeo, a maior frequência desde os atentados de 11 de setembro de 2001.
- Eles estão tentando provar que o movimento não está morto - disse Kenneth Katzman, analista de terrorismo do Serviço de Pesquisas Parlamentares, entidade ligada ao Congresso norte-americano.
Os dois militantes podem ter sentido que precisavam responder rapidamente à morte de Abu Musab Al Zarqawi, o "representante" da Al Qaeda no Iraque, vítima de um ataque norte-americano no mês passado.
Uma frustrada tentativa dos EUA de matar Zawahri em janeiro e a possível maior liberdade de movimentos para os líderes da Al Qaeda no noroeste do Paquistão podem ter contribuído com o maior volume de gravações, segundo Katzman.
Ben Venzke, diretor de inteligência da empresa IntelCenter, que tem o governo dos EUA como cliente, disse que o momento coincidente das mensagens não significa que elas tenham sido pensadas para sugerir uma ameaça crescente.
- Isso tem correlação com algum tipo de futuro ataque? Acho que não há um sim ou não intrínseco - afirmou ele, embora alguns elementos de mensagens anteriores, como referências ao território dos EUA, possam indicar uma ameaça maior.
Venzke avalia algumas das gravações como uma resposta rápida da Al Qaeda a fatos importantes, como a morte de Zarqawi. Outras eram comentários mais gerais sobre atualidades. Um terceiro grupo era de mensagens alusivas ao aniversário de algum ataque importante.
Em parte, especialistas atribuem tantas gravações a um maior conhecimento da mídia e a uma melhor logística por parte da Al Qaeda.
- É resultado do seu atual esforço de propaganda, que se tornou ainda mais sofisticado - disse uma autoridade dos EUA.
- Demonstra que eles azeitaram as engrenagens, ficam melhores nisso com o tempo - ressaltou.
Além disso, os líderes da Al Qaeda teriam cada vez mais necessidade de tranqüilizar seus seguidores após algum revés, e também de se dar crédito por fatos que possam ser considerados favoráveis à sua causa.
- Bin Laden e Zawahri tentam pegar carona em fatos que consideram favoráveis, como o ressurgimento do Taliban, a ascensão dos militantes islâmicos no Paquistão, a posse de um Judiciário islâmico na Somália. Ao divulgar tantos vídeos, eles tentam dar a impressão de que 'isso é por nossa causa' - disse.
O general norte-americano da reserva Russ Howard, especialista em terrorismo, disse que a Al Qaeda pode estar tentando contradizer afirmações dos EUA de que a organização estaria perdendo o controle central da militância para radicais islâmicos locais e independentes.
- Isso pode ser um pouco de propaganda de que há algum tipo de controle central, que talvez tenhamos entendido tudo errado - disse Howard.
- Pode ser uma forma de dizer àqueles grupos 'franqueados' ou que querem ser que a Al Qaeda continua no jogo, apesar da morte de Zarqawi - concluiu.