A organização Vía Campesina, que reúne pequenos agricultores de 120 países, afirmou neste sábado, no Fórum Social Mundial que a eliminação dos subsídios agrícolas não é suficiente para acabar com a miséria do campo nas nações em desenvolvimento.
- A eliminação dos subsídios nos países ricos, como está planejada, não basta, pois só beneficiará as multinacionais e os grandes empresários do setor - disse à EFE o hondurenho Rafael Alegría, membro do Comitê Internacional dessa organização, uma das mais ativas no Fórum Social da cidade indiana de Mumbai.
Alegría fez referência à posição defendida em diversos fóruns internacionais por países como Brasil e Argentina, ou o chamado G-22 nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Estes países querem que os Estados Unidos e a União Européia eliminem as subvenções diretas ou indiretas ao setor agrícola e abram seus mercados às exportações dos países em desenvolvimento, que têm nessa área um de seus melhores cartões de visita no comércio internacional.
No entanto, essa reivindicação não convence a Vía Campesina, que tem entre seus membros o Movimento dos Sem Terra (MST) do Brasil e a Federação Camponesa Francesa, que inclui em sua diretoria José Bove, um dos mais representativos dirigentes do movimento mundial antiglobalização.
- Não é suficiente para o pequeno e o médio agricultor que lhes digam que poderão exportar aos EUA ou à Europa porque eles simplesmente não têm condições de exportar para nenhum lugar nem de entrar no grande comércio em nível local - disse à EFE Alegría.
Segundo a Vía Campesina, "para o pequeno agricultor o grande mercado global não existe nem interessa" e o importante é "a luta pela terra, a soberania alimentícia, a água, as sementes e um comércio justo" nos âmbitos nacionais.
Alegría explicou que essa organização trabalha para "libertar a terra do controle das transnacionais e dos grandes empresários locais" que, em alguns países, que não especificou, formam "monopólios" que controlam "o mercado de comida".
O dirigente rural hondurenho afirmou que "a tendência de que o pequeno agricultor desapareça é terrível" no mundo de hoje.
Ele deu como exemplo dados da organização segundo os quais "200.000 pequenos camponeses são empurrados para a pobreza urbana a cada ano na Europa", e disse que esse fenômeno se multiplica na América Latina "em proporções dantescas".
Alegría afirmou que "a chave da luta proposta pela Vía Campesina é a mobilização popular em nível global", o que coincide totalmente com o espírito do Fórum Social Mundial.
Sobre este quarto encontro, que pela primeira vez é realizado fora da cidade brasileira de Porto Alegre, Alegría disse que a mudança para a Índia constituiu "um passo substancial" para o evento, concebido como a antítese do Fórum Econômico Mundial realizado anualmente em Davos (Suíça).
Na Índia, "descobriu-se que os problemas que os camponeses e os movimentos sociais asiáticos enfrentam são os mesmos que enfrentamos na América Latina", o que, na sua opinião, deu mais força ao seu argumento de que "o que se deve globalizar é a luta por um mundo melhor".