As restrições impostas à compra de carne brasileira por parte de alguns países, após o registro de febre aftosa no Mato Grosso do Sul, tem um cunho mais comercial do que técnico, afirmou nesta quinta-feira um representante do setor frigorífico.
Mais de trinta países, entre eles os da União Européia, anunciaram algum tipo de embargo à carne brasileira, após a confirmação, na segunda-feira, de um foco de aftosa em Mato Grosso do Sul.
A UE, por exemplo, proibiu a compra de carne procedente de Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo. No caso de Israel e África do Sul, foi suspensa a compra do produto de todas as partes do país, o maior exportador mundial de carne bovina.
- No primeiro impacto, (os países) têm uma posição mais comercial que sanitária - declarou presidente do Sindicato da Indústria do Frio do Estado de São Paulo (Sindifrio), Edivar Vilela de Queiroz.
Ele preferiu não dimensionar o prejuízo causado pelas suspensões.
- É cedo para avaliar, até mesmo porque não entendo a razão da restrição a São Paulo, que tem 100 por cento do gado vacinado e está há dez anos sem aftosa - acrescentou.
São Paulo faz fronteira com o Mato Grosso do Sul e ambos os Estados estão no mesmo circuito pecuário.
Considerando os 25 países do bloco, a UE representa o principal destino para a carne brasileira.
Apenas o Reino Unido comprou, de janeiro a agosto, 225 milhões de dólares em carne bovina do Brasil, ante 370 milhões de dólares da Rússia, o maior mercado individual para o produto brasileiro.
Vilela de Queiroz disse que técnicos do Ministério da Agricultura vão se reunir com representantes da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) nesta quinta e sexta-feiras para explicar as medidas que estão sendo tomadas e dizer que cada Estado tem um controle independente da doença.
- É importante que a UE entenda que São Paulo é o Estado mais seguro do país. Não há razão para esta medida - explicou.
Segundo ele, de 20 a 30 por cento da carne processada em São Paulo vem do Mato Grosso do Sul. Está atualmente suspenso o trânsito de carne entre os dois Estados.
Queiroz disse que, no passado, a UE tomou decisão semelhante à atual quando um foco de aftosa foi anunciado no Mato Grosso do Sul, mas que voltou atrás na decisão, restringindo a suspensão apenas ao produto vindo do Estado.
Na quarta-feira, também Argentina e Uruguai anunciaram o fechamento preventivo das fronteiras à carne brasileira. No caso da Argentina, o veto vale apenas para carne do Mato Grosso do Sul. Já o Uruguai suspendeu as compras de todo o país.
Bulgária e Austrália também comunicaram algum tipo de suspensão na quarta-feira.
O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, afirmou que 78 milhões de reais já previstos no orçamento federal devem ser descontingenciados para a área de defesa agropecuária.
- Há uma decisão do presidente da República de que seja rápido esse processo de liberação para a gente poder cuidar desse acidente com rapidez - afirmou nesta quinta-feira o ministro após participar de um encontro, em Brasília, com o governador do Mato Grosso do Sul, Zeca do PT.
O governador informu que Rodrigues também confirmou a liberação de 3,5 milhões de reais para o Estado para medidas na área sanitária.
Com a confirmação do foco, o prejuízo ao Estado pode chegar a 10 milhões de reais por mês apenas na venda de animais vivos, segundo Zeca do PT.
Na sexta-feira, secretários da Agricultura de todos os Estados da zona livre de aftosa (RS, SC, SP, MT, MS, GO, RJ, MG, ES, BA, SE, TO, AC, RO e DF) vão se reunir em Brasília para tentar padronizar as ações em relação à doença.