Ventos da revolta chegam o Bahrein e começa a contagem dos corpos
A polícia do Bahrein investiu nesta quinta-feira contra manifestantes antigoverno acampados em uma praça central da capital, Manama, matando pelo menos três pessoas.
Quinta, 17 de Fevereiro de 2011 às 11:33, por: CdB
A polícia do Bahrein investiu nesta quinta-feira contra manifestantes antigoverno acampados em uma praça central da capital, Manama, matando pelo menos três pessoas. Ao mesmo tempo, dezenas de veículos blindados se deslocavam pela cidade, numa ação do governo para tentar pôr fim a três dias de protestos.
– A polícia está vindo. Estão jogando gás lacrimogêneo contra nós – disse um manifestante à agência inglesa de notícias Reuters, por telefone, enquanto os policiais começavam a dispersar a multidão.
Um outro afirmou:
– Estou ferido, estou sangrando. Eles estão nos matando.
Depois, mais de 50 veículos blindados transitaram por uma rodovia em direção à praça, que fica num cruzamento que os manifestantes tentavam transformar em base para os protestos, seguindo o exemplo da multidão que tomou a Praça Tahrir, no Cairo, levando à queda do presidente Hosni Mubarak. Milhares de manifestantes xiitas, estimulados pelos acontecimentos no Egito e Tunísia, foram para as ruas do Bahrein esta semana, exigindo mais direitos no reino. O país tem maioria muçulmana xiita, mas é governado por uma família sunita. Os xiitas do Bahrein se queixam de discriminação.
O deputado Ibrahim Mattar também anunciou que o principal bloco xiita, o Wefaq, vai abandonar o Parlamento.
– Todos os membros estão renunciando. A decisão já foi tomada – declarou ele.
Violência
Veículos de polícia, tanques e arame farpado foram usados para cercar e isolar a praça central em Manama, enquanto milhares de manifestantes foram evacuados à força da praça durante a madrugada desta quinta-feira pela polícia, que usou bombas de gás lacrimogêneo e golpes de bastão. Ministro do Interior, Rashed bin Abdullah al-Khalifa fez um pronunciamento no canal de televisão estatal proibindo novos protestos e alertando que o Exército tomará todas as medidas necessárias para garantir a segurança.
Um correspondente da BBC informou que pelo menos três pessoas morreram durante a operação da polícia na madrugada e mais de 300 pessoas ficaram feridas. Segundo a agência, há informações de que a polícia usou não apenas balas de borracha como também balas convencionais contra os manifestantes. Horas depois de a polícia tomar a praça central de Manama, os militares anunciaram na televisão estatal do país que assumiram o controle de "partes importantes" da cidade.
Um manifestante, identificado apenas como Mohamed, disse à BBC que a operação da polícia durante a noite na praça central de Manama foi "horrenda".
– Eles deveriam ter usado mangueiras de água ao invés de usar balas de borracha e outras armas proibidas. Havia mulheres e crianças que ficaram aterrorizadas pelo ataque – protestou.
Na manhã desta quinta-feira ocorreram choques com a polícia em frente ao hospital principal de Manama, o Salmaniya. Centenas de pessoas se juntaram em frente ao hospital, algumas respondendo aos pedidos de doações de sangue e outros destruindo fotos da família real do país. Militares informaram que controlam 'partes importantes' da capital. Um morador, que se identificou apenas como Ali e foi doar sangue, disse que "muitas pessoas estão nos portões do hospital. A polícia fechou a área então ninguém pode entrar ou sair - alguns tentaram sair e a polícia atirou contra eles.
– Há muitos tanques e helicópteros – afirmou.
Os manifestantes que pediam uma ampla reforma política no país vinham acampando na praça desde terça-feira. Durante a semana, outras duas pessoas já haviam morrido e dezenas ficaram feridas em confrontos. Ibrahim Sherif, do partido secular Waad, disse que a polícia agiu sem qualquer aviso por volta das 3h (22h de quarta-feira em Brasília).
– Ao longo de todo o dia havia boatos de que teríamos outras 24 horas, mas o ataque veio sem aviso – afirmou.
Sherif disse à BBC que os protestos vão continuar.
– Vamos continuar a fazer o que for necessário para transformar (este país) em um país democrático, mesmo se alguns de nós perder a vida – afirmou.
Preocupações
Antes da invasão policial à praça, os Estados Unidos tinham manifestado preocupações com a violência no país e pediram moderação e respeito aos "direitos universais de seus cidadãos" e a "seus direitos a protestar". O Bahrein é um importante aliado norte-americano no Oriente Médio e abriga uma base da Quinta Frota Naval dos Estados Unidos. Na quarta-feira, o porta-voz da Casa Branca Jay Carney disse que os Estados Unidos estão “acompanhando de muito perto os eventos no Bahrein e em toda a região”.
As autoridades do Bahrein disseram que não tiveram opções a não ser invadir a praça para dispersar os manifestantes.
– As forças de segurança esvaziaram a praça após terem esgotado todas as opções de diálogo – afirmou o porta-voz do Ministério do Interior, general Tarek al-Hassan, em um comunicado divulgado pela agência oficial BNA.
Ele afirmou que alguns manifestantes “se recusaram a se submeter à lei” e que por isso a polícia teve que intervir para dispersá-los.
Onda de protestos
Os protestos no Bahrein, onde a maioria muçulmana xiita vem sendo governada por uma família real da minoria sunita desde o século 18, são parte de uma onda de manifestações contra governos que vem tomando países muçulmanos no norte da África e no Oriente Médio. Desde o início do ano, levantes populares já derrubaram os governos da Tunísia e do Egito. Para Ian Pannell, a resposta brutal das autoridades aos protestos no Bahrein indica que a família real vê sua permanência no poder ameaçada pela onda de protestos na região.
Os manifestantes pediam a libertação dos prisioneiros políticos, a criação de empregos e a construção de casas populares, o estabelecimento de um Parlamento mais representativo, uma nova Constituição e um novo gabinete que não inclua o atual primeiro-ministro, xeque Khalifa bin Salman Al Khalifa, que está no cargo há 40 anos. Em uma rara aparição na TV na terça-feira, o rei do Bahrein, xeque Hamad bin Isa Al Khalifa, lamentou as mortes de manifestantes e disse que continuaria com as reformas iniciadas em 2002, quando o emirado se transformou em uma monarquia constitucional.
Na quarta-feira, mais de mil pessoas compareceram ao funeral em Manama de um homem que havia sido morto na terça-feira durante confrontos com a polícia durante o funeral de outro manifestante.
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