Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Veneno de cobra pode curar câncer

Terça, 17 de Fevereiro de 2004 às 05:39, por: CdB

O veneno da cobra surucucu pode ser a mais nova esperança para o tratamento e cura do câncer. Pesquisa realizada pela Fundação Ezequiel Dias (Funed) e UFMG, em parceria com a Universidade de Mogi das Cruzes (SP), revelou que um micrograma do veneno da Lachesis muta muta, nome científico da surucucu, conseguiu reduzir em 50% o tamanho do tumor.

No entanto, o veneno utilizado foi parcialmente purificado, o que aumentam as expectativas dos pesquisadores em potenciar a ação do veneno, purificando-o ainda mais. A diretora de Pesquisa e Desenvolvimento da Funed, Thaís Viana de Freitas, explica que o veneno da surucucu atua sobre o sistema circulatório.

Estudos da Funed identificaram que o veneno da serpente tem ação de inibir a agregação plaquetária (formação de coágulos). A ciência já descreve que produtos que têm essa natureza costumam ser antitumorais.

Com essa informação, conta Thaís Freitas, no ano passado, um grupo de pesquisadores da UFMG, coordenado pelo professor José Luiz Pesqueiro, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Ciências Biológicas, se interessou em estudar a atividade antitumoral do veneno, associado a pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (SP), que já possui um esquema de modelo experimental para testar produtos que potencialmente podem atuar sobre ação tumoral.

Thaís explicou que a redução do tumor é devido à inibição da angiogênese, que é a formação de capilares sangüíneos (pequenos vasos da circulação do sangue). "O tumor é formado num local e espalha-se pelo organismo através dos capilares. A inibição da formação do capilar e a migração do tumor impede que ele se espalhe, promovendo a regressão do câncer".

Em 1996, os pesquisadores da Funed, Eládio Sanches, Arinos Magalhães e Michael Richardson (professor visitante com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) começaram a avaliar uma outra atividade que o veneno da surucucu poderia fornecer. Eles então iniciaram o processo de purificação do veneno.

"A manipulação é complexa. São vários passos até obter uma fração purificada, eliminando componentes que não ajudam na ação", explicou o presidente da Funed, Carlos Alberto Pereira Gomes.

Atualmente, os pesquisadores continuam os estudos para tentar purificar ainda mais o veneno. Na terceira etapa, serão realizados testes em seres humanos para verificar o tipo de tumor que ele atuará melhor.

"Nosso sonho de consumo é que seja útil em todos os tipos de cânceres", afirmou Carlos Gomes, acrescentando que não há previsão para essa conclusão, mas observou que o período entre o início da pesquisa até a produção pode durar de 10 a 15 anos.

"Nosso papel é detectar os passos para chegar à uma fração mais pura possível do veneno. Essa é a chance de um fármaco brasileiro, extraído de nova biodiversidade. Agora dependemos do tempo da ciência", disse, revelando que o tempo pode chegar até 10 anos.

Se tudo der certo, será feita a transferência de tecnologia para iniciativa privada ou alguma entidade que tenha um parque tecnológico bem desenvolvido e então patentear o processo.

O oncologista André Murad acredita que toda pesquisa é válida. "Infelizmente de cada 100 drogas eficazes em ratos, apenas duas ou três têm respostas em seres humanos", explicou.

Ele informou que neste ano, chega ao mercado norte-americano o Avastim, do Laboratório Roche, medicamento antiangiogênico capaz de inibir o crescimento de vasos que nutrem o tumor, impedindo a metástase. O remédio deverá ser estar no mercado brasileiro em 2005.

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