Alessandro Yara Rossi,
Especial para o site da FPF
Quando um clube precisa de alguém para escapar da zona do rebaixamento ou lutar pelo acesso, logo recorrem ao técnico Luis Carlos Martins, de 55 anos e natural de Cafelândia, interior do Estado de São Paulo e aposta do São Bernardo FC para a disputa da Copa Paulista e do Campeonato Paulista da Série A2 no ano que vem. Jogou pouco, quando fazia a função de volante de contenção, iniciando a carreira, em 1973, no Noroeste, tendo passagem pelas categorias de base do Vasco da Gama (RJ), em 1974, além de Matsubara (PR), Paulista e Nacional.
O seu ingresso como treinador ocorreu em um fato curioso: aos 30 anos e cuidando de dois filhos, Luis Carlos já pensava na aposentadoria e acertou um contrato com o Guaçuano, que seria sua última equipe. Porém, o time não possuía nenhum comandante e ninguém queria assumir o posto, já que a equipe caminhava rumo ao rebaixamento para a Série A3. Nisso a diretoria fez um convite e Martins comandou o Guaçuano livrando-o da queda. Após este episódio, começava a sua carreira no banco de reservas.
Na sequência dirigiu por três anos o Rio Branco (MG) conseguindo o acesso à primeira divisão do campeonato mineiro, regressou ao Guaçuano, passou pelo Oeste, Paraguaçuense, Noroeste, obtendo outro acesso, levou a Matonense da Série A3 para a A1, assim como o Mirassol, levou o São Caetano à Série B do Brasileirão, subiu o Ituano à elite do Paulistão, comandou com sucesso o Marília, salvou a Portuguesa de dois rebaixamentos, teve uma rápida passagem no PAEC e por fim, foi campeão do Troféu do Interior nesta temporada com o Oeste.
FPF: Quem lhe incentivou a virar treinador?
Martins: Tive um rápido contato com o Mário Travaglini no Vasco (RJ), que me ensinou muito na parte tática. Tem o Paulo Emílio que comandou com muito sucesso o Noroeste e me espelhei nele quando iniciei nesta função.
FPF: Qual foi a história mais engraçada que você já vivenciou?
Martins: Eu era treinador e tinha renovado o meu vínculo com o Rio Branco (MG). Mas do nada o presidente na época resolveu me emprestar para o Palmeiras de São João da Boa Vista por três meses e não tive outra alternativa e assumi neste período, depois retornei para Minas Gerais. Teve outra quando comandava o Mirassol na Série A3, em 2004, e o Marília, que estava muito mal queria os meus serviços e a diretoria do Mirassol não me liberava, porém encontraram uma maneira: me emprestaram por 25 dias. Ficou uma situação estranha, já que permanecia dois dias em cada clube, revezando com o meu auxiliar. No final, subi o Mirassol, depois fiquei até o fim da temporada e levei o Marília à sexta posição da Série B do Brasileiro e no ano seguinte voltei ao Mirassol para a Série A2 do Paulistão e mais um acesso na conta.
FPF: Qual foi a sua principal conquista na carreira de técnico?
Martins: Me orgulho de todas as minhas conquistas. Para mim, garantir o acesso independentemente da posição já significa um título, porque ninguém sabe como é complicado obter este feito. Tem o Troféu do Interior pelo Oeste nesta temporada, esta conquista representa muito, infelizmente os atletas e eu, tivemos que seguir outros rumos na carreira. Até o momento consegui 13 acessos, espero que no próximo ano isso se repita no São Bernardo. Agora uma em especial foi quando comandava a Portuguesa em 2003: a equipe fez uma campanha fraca na primeira e teve que disputar o torneio da morte para se livrar do rebaixamento com mais 11 times divididos em dois grupos. Faltavam duas rodadas e a nossa pontuação era de apenas dois pontos ganhos em quatro partidas, felizmente revertemos vencendo fora de casa do Botafogo por 3 a 2 e na última, passamos pelo Juventus por 1 a 0, gol dramático do Lello de cabeça e não caímos. Lembro como se fosse hoje, até arrepia recordar este momento.
FPF: Como você vê a alcunha que ganhou de “Rei do acesso”?
Martins: Rejeito isso, porque gosto de desenvolver projetos, montar uma base sólida, dar sequência ao trabalho bem feito e às vezes coincide de assumir um time que vai lutar pelo acesso, não tenho medo de aceitar algum convite para disputar a Série A3, por exemplo, como aconteceu no Mirassol.
FPF: Na atualidade, qual treinador você possui uma grande admiração?
Martins: Gosto de todos, fica difícil escolher alguém em especial, mas gosto do Muricy Ramalho, pelo seu estilo de dirigir uma equipe, sua sinceridade, seu caráter, além de vencedor. Outro que admiro é o Vadão que voltou para o São Caetano, extremamente competente e de grande índole.
FPF: Você já comandou diversos atletas na carreira, mas qual foi aquele especial e lhe ajudou como treinador?
Martins: É o Capitão, que em 2003 estava no final da sua trajetória como jogador e fez de tudo para que saíssemos daquela situação com a Portuguesa. Sempre foi um exemplo de dedicação, vontade, raça e amor pelo que faz. Me ajudou ainda mais ao unir e fechar o elenco nas duas rodadas que restavam no torneio da morte, sem dúvida nenhuma o melhor profissional com quem trabalhei.
FPF: Quais ensinamentos você quer passar para quem pretende ser técnico?
Martins: Nunca mentir para ninguém, principalmente jogador de futebol: eles são espertos, criativos, sabem quando alguém fala a verdade ou não. Transmitir segurança na hora de passar uma instrução de jogo, trabalhar sempre com pés no chão, não vislumbre o sucesso logo no começo e nem se empolgue com uma sequência de vitórias. Creio que se o futuro profissional seguir isso, tem chances de fazer história no futebol.