As tropas do Exército começam a patrulhar pontos estratégicos da cidade do Rio de Janeiro nesta semana, em um trabalho inédito no combate à violência que ronda a capital, ao passo que a população fica acuada diante da ineficácia das polícias em combater o tráfico, cada vez mais ousado e armado.
Diante desse cenário, o sociólogo Gláucio Soares, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), um dos mais respeitados estudiosos sobre violência no país, não vê com otimismo um revés desse quadro caso a sociedade e o governo não se unam com políticas efetivas voltadas para a Educação e o Social. E é claro na posição: enquanto o governo estiver "engessado" no Orçamento e não priorizar investimentos no cidadão e a distribuição de renda, não haverá dinheiro que diminua os índices de criminalidade.
"Tenho uma visão pessimista. Faltam recursos públicos. A única maneira pela qual a sociedade poderia resolver isso é pela distribuição de renda. Temos que desonerar o Estado", diz. Leia entrevista exclusiva que ele concedeu ao Correio do Brasil.
Vivemos uma guerra civil no Rio?
Essa expressão se refere ao número de mortes, mas guerra civil de fato não há. Na guerra, alguém quer tomar o poder de alguém. Não é o caso no Rio. O que temos é uma violência comparada ao de uma guerra civil. Ou seja: 50 mil homicídios por ano no país, entre 500 e 600 por mês no Estado do Rio, é uma característica que se encontra em conflitos armados de guerrilha.
E essas mortes estão mais relacionadas ao tráfico?
Temos duas bases de dados: as secretarias de Segurança Pública e do SIM (Sistemas de Informações sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde. Deve-se trabalhar meticulosamente ambos, porque eles têm problemas. Os dados do SIM passam por uma revisão e os das secretarias não passam.
Mas o SIM usa os dados das secretarias de Saúde, em que homicídio se classifica por toda pessoa que é morta por mais alguém que não seja por acidente. Isso inclui homicídio culposo. Devíamos ter a informação sobre a vítima e sobre quem faz, mas isso é minoria. A maioria dos homicídios no Estado do Rio não tem informações suficientes no inquérito para detalhar o crime e informações que levem à solução.
Onde os governos erraram para que a segurança pública chegasse a esse ponto e o que pode ser feito para minorar esses índices?
Os dados nacionais a respeito de homicídios começam em 1979. Antes disso, não se sabe. Há dados sobre o município de São Paulo que retrocedem a 1977. A tendência nas metrópoles, nessa década, era a de crescer. Isso de dizer que o governo militar inibiu a violência é uma falsa verdade. As taxas eram mais baixas, mas a ditadura não tem nada a ver com isso.
Na verdade, o mundo era mais seguro. Se estudarmos as taxas de outros países, veremos que eram mais baixas. E elas subiram muito por causa das drogas, tanto aqui quanto lá. A Europa tentou controlar o problema da mortalidade não só por homicídio, mas também por HIV, através de uma política chamada Controle das Conseqüências Negativas, para manter esse "prejuízo" dentro de parâmetros. Tinham essa idéia: Primeiro, parar (a violência) não dá. Segundo, do jeito que está, há mais mortos. Se liberam as drogas, não tenho dúvidas de que os homicídios serão reduzidos drasticamente.
O senhor é a favor da descriminalização?
Não. Os danos para a saúde pública e para as próprias pessoas seriam piores. Haveria internações psiquiátricas de uma maneira gigantesca. Reduzimos as taxas de homicídio daquela parcela vinculada ao tráfico, mas não se reduz daquela parcela ligada à compra, porque o sujeito ainda tem que manter o vício.
Mas há situações em que o próprio governo distribui droga, como na Europa. Então não precisam roubar e matar para co