Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Vazamentos no pré-sal têm índices maiores na Bacia de Santos

A atividade petrolífera na Bacia de Santos, responsável pela maior parte dos reservatórios gigantes do pré-sal, registrou índice de vazamentos de óleo 400 vezes maior do que Campos, bacia onde estão concentrados os poços mais antigos e boa parte da atual produção nacional, mostrou um estudo obtido com exclusividade pela agência inglesa de notícias Reuters.

Terça, 08 de Julho de 2014 às 10:41, por: CdB
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Estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), com base em dados de 2008 a 2012, indicou que a Bacia de Santos jogou no mar um litro de óleo
A atividade petrolífera na Bacia de Santos, responsável pela maior parte dos reservatórios gigantes do pré-sal, registrou índice de vazamentos de óleo 400 vezes maior do que Campos, bacia onde estão concentrados os poços mais antigos e boa parte da atual produção nacional, mostrou um estudo obtido com exclusividade pela agência inglesa de notícias Reuters. O alto grau de poluição na bacia onde está grande parte do pré-sal e a falta de transparência nos dados sobre vazamentos preocupa especialistas, no momento em que o Brasil se prepara para elevar de forma relevante a produção, com o desenvolvimento de áreas de grande complexidade técnica. Estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), com base em dados de 2008 a 2012, indicou que a Bacia de Santos jogou no mar um litro de óleo para cada 33,3 mil litros de petróleo produzidos. Já a Bacia de Campos teve um litro vazado para cada 13,58 milhões de litros produzidos. A bacia, concentrada no litoral fluminense, é responsável hoje por 75%  do petróleo extraído no país, que ainda vem majoritariamente de reservatórios que não estão nas camadas do pré-sal. A média nacional de vazamentos foi de um litro de óleo vazado para cada 349,6 mil litros produzidos no período. O levantamento da Uerj foi feito com informações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) e considerou o despejo de qualquer óleo danoso ao meio ambiente, como petróleo, fluidos de perfuração, combustíveis e água oleosa, por toda a indústria de petróleo marítima. Os dados coletados foram analisados de acordo com as coordenadas geográficas das bacias, sem atribuir os derramamentos à profundidade de extração. No entanto, a Bacia de Santos, a mais poluidora, teve em maio cerca de 75%  de sua produção proveniente do pré-sal. O professor de oceonografia da Uerj David Man Wai Zee, que realizou o estudo com o aluno Flávio Silva, disse que a maior preocupação em relação ao futuro da produção de petróleo no Brasil é com o pré-sal, com características geológicas únicas. - Quanto mais ousada for a exploração, maior o risco de ter acidentes perigosos e também (a dificuldade) de controlá-los - disse Zee à Reuters. A distância entre os reservatórios do pré-sal e a superfície do mar é de até 7 mil metros, o que traz grande complexidade para a exploração e produção. Atualmente, toda a operação das plataformas no pré-sal brasileiro é feita pela Petrobras, sendo que 20 por cento do volume extraído fica com empresas sócias da estatal brasileira nessas áreas. A primeira jazida do pré-sal foi descoberta em 2006, no Campo de Lula (ex-Tupi), em Santos. Cerca de dois anos depois, em setembro de 2008, a Petrobras iniciou a produção do primeiro óleo da camada pré-sal, no Parque das Baleias, parte capixaba da Bacia de Campos. Para se ter ideia do grande potencial dessas áreas, a produção comercial na Bacia de Santos mais do que triplicou nos últimos três anos, para 313,4 mil barris por dia em maio, incluindo um pequeno volume produzido fora do pré-sal. Por estar no foco da expansão da produção brasileira, grande parte da província do pré-sal está em fase de exploração, quando são feitas perfurações e análises para avaliar os reservatórios. O estudo da Uerj indicou que é justamente na fase exploratória que ocorre a maior parte dos vazamentos de petróleo, entre 80%  e 90%  do volume total. "Isso mostra que é preciso aprimorar a eficiência operacional nessa fase", afirmou Zee. A Petrobras produziu em maio 1,93 milhão de barris de petróleo por dia (bpd) no país, sendo que 447 mil bpd foram extraídos diariamente no pré-sal. Até 2018, a estatal pretende elevar sua produção total a 3,2 milhões de bpd, com o volume no pré-sal mais que triplicando para 1,66 milhão de bpd. Procurada, a Petrobras afirmou que é "absolutamente improcedente a afirmação de que há mais vazamentos no pré-sal que nas demais áreas exploratórias da companhia" e disse que os volumes de vazamentos têm caído nos últimos anos. - Neste ano de 2014, por exemplo, não houve um único vazamento de óleo na Bacia de Santos, onde se concentra a maior parte das atividades no pré-sal - afirmou a companhia. A empresa também disse que ainda que houvesse mais vazamentos nas áreas do pré-sal, seria um equívoco vincular as ocorrências à camada geológica. Isso porque, segundo a Petrobras, os vazamentos em sua imensa maioria ocorrem em instalações de superfície, como plataformas e embarcações. Prevenção O estudo da Uerj identificou que quanto maior a produção em uma determinada bacia, maior é o número de incidentes. Entretanto, os volumes despejados no mar variam bastante e estão relacionados à capacidade das empresas de evitar que o óleo tenha contato com o mar. Para especialistas, os índices de vazamentos são fonte de preocupação, uma vez que não há planos eficientes para o caso de acidentes graves. O ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) David Zylbersztajn ponderou que a indústria petrolífera mundial tem vazamentos com frequência e que o Brasil tem que estar preparado para prevenir e também para agir em casos de acidentes graves. - O vazamento da Chevron serviu para mostrar que não há transparência - afirmou Zylbersztajn, referindo-se aos vazamentos no campo de Frade, em Campos, em novembro de 2011 e em março de 2012, quando foi derramado no mar do Rio de Janeiro o equivalente a mais de 560 mil litros. Apesar de os volumes despejados não terem sido de grande proporção, na comparação com grandes desastres da indústria mundial, o episódio de Frade mostrou a fragilidade do Brasil para lidar com a situação, disse Zylbersztajn. O professor da Uerj e co-autor do estudo, que foi contratado pela Polícia Federal como perito independente no caso do vazamento da Chevron, destacou que quase todo o petróleo derramado em Frade foi dissipado no mar. A Bacia de Santos apresentou nos últimos anos indicadores piores até do que os dos Estados Unidos, onde o índice de vazamentos é maior que a média brasileira. Segundo pesquisa do Instituto Americano de Petróleo (API, na sigla em inglês), entre 1999 e 2009, para cada litro vazado nos EUA foram produzidos 50 mil litros de petróleo, em média. Diferentemente do estudo da Uerj, que avaliou apenas a atividade petrolífera no mar, o estudo do API levantou dados de toda a indústria de petróleo, incluindo as operações em terra, no mar e também de volumes de petróleo importados. Procurada, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) disse que não iria comentar os dados do estudo da Uerj, por recolher dados distintos do Ibama. A autarquia destacou que fiscaliza a segurança de unidades de perfuração e de produção de petróleo e gás e só tem a atribuição legal de investigar derramamentos acima de 8 mil litros. - É importante observar que na região da Bacia de Santos existe um intenso tráfego marítimo devido ao Porto de Santos. É sabido que os navios que utilizam este porto são responsáveis por derramamentos de óleo na região. Esse tipo de vazamento está fora da alçada da Agência - afirmou a ANP em nota. Segundo o professor da Uerj, contudo, o estudo levou em conta apenas os vazamentos originados pela indústria de petróleo. A Petrobras disse que trabalha com rigor na prevenção e, caso necessário, na mitigação de acidentes, ressaltando que em 2012 criou o Plano Vazamento Zero, com o objetivo de aprimorar ainda mais sua atuação frente esse tipo de ocorrência.  
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